O celular apitava avisando a chegada de uma nova mensagem. Tirando o aparelho do bolso, Milles tomava cuidado em se manter equilibrado sobre o skate enquanto lia o endereço enviado por Gabriel. Do que sabia sobre as ruas daquela pequena cidade, o alfa já tinha noção de onde era.
E teria de voltar o caminho, pois Nicolas morava muito perto da escola.
Fazendo a volta na rua, o rapaz pegava impulso para deslizar o skate no asfalto, ansiando cada vez mais chegar em seu destino.
Como poderia aquele capitão marrento e mau-humorado ficar sozinho em casa e ainda mais doente? Um sorriso crescia debilmente em sua face, considerando aquela a chance perfeita para uma vingança.
Nicolas sempre pegara no seu pé durante os treinos, o obrigando a fazer mais exercícios que os demais. Principalmente castigá-lo quando as garotas invadiam o ginásio para assistir os treinos, o tornando responsável pela bagunça. Então, não seria direito seu aproveitar a guarda baixa do maldito baixinho para judiar um pouco dele?
Não pretendia judiar de Nicolas, não. Ele estava doente, ora essa. Só queria mostrar para ele que naquele momento estava fraco demais para tentar se defender. Não haveria força alguma para se desvencilhar de Milles.
Ah... Essa ideia era simplesmente fantástica.
Todo o corpo do alfa vibrava em ansiedade. Queria ver o seu capitão perder toda a marra que tinha.
Isso não lhe traria uma grande vantagem na disputa pessoal deles?
Quando descera do skate em frente a uma casa simples de muros baixos, Milles arqueava a sobrancelha duvidando do seu destino. Verificou o endereço na mensagem a comparando com o que tinha escrito na placa da esquina, assim como o número pregado na parede da tal casa.
Era feia demais!
Parecia uma casa abandonada. Tinha um quintal com o mato alto, passando o baixo muro. As paredes descascavam a tinta creme, e o telhado estava escuro tamanha a sujeira.
Franzindo o nariz, Milles se questionava o que raios se passava naquela família ao ponto de não serem capazes de cuidar da própria casa. Será que o quarto de Nicolas estaria tão bagunçado com restos de comidas e roupas espalhadas, que ele poderia já ter morrido e seu corpo apodrecendo no meio do lixo?
Milles balançava a cabeça para espantar o terror de sua mente.
Segurando o skate enquanto passava pelo pequeno portão enferrujado, Milles engolia em seco reunindo toda a coragem que podia. Deixara o skate ao lado da porta e erguera a mão para bater suavemente.
Agora que estava parado em frente a casa do seu capitão, o nervosismo parecia criar raízes em si. Sua mão suava, suas pernas pareciam pesadas. O coração acelerava estupidamente com receio de ver o que tinha por trás daquela porta.
Demorou alguns instantes até a porta escura ser aberta por uma linguiça gigante e branca. Milles piscara algumas vezes, inclinando a cabeça buscando o rosto escondido naquele amontoado de cobertas.
— Ca-Capitão?
Apesar de sua voz sair exitante, fora ela soar pela casa que finalmente pudera enxergar o rosto sonolento e pálido de Nicolas. Seus olhos escuros e opacos tinham olheiras, mas estavam caídos. Suas bochechas estavam levemente rosadas devido a febre, e os cabelos escuros escapavam do cobertor que cobria sua cabeça.
— Oh...— Nicolas olhara Milles de cima a baixo e então um sorriso manhoso surgia em seu rosto — Pedaço de fezes gigante!
Queria ir embora.
Seu capitão estava bem.
Queria dar as costas e fingir que não gastara seu tempo se preocupando com aquele baixinho maldito quando ele tinha energia o suficiente para xingá-lo. E estava prestes a fazê-lo quando Nicolas agarrara seu braço o puxando para dentro da casa sem qualquer cerimônia.
Quando o encarara, se arrependera de imediato.
Ele parecia feliz.
Nicolas Howard estava feliz abraçando seu braço.
Que merda era aquela?
— Finalmente veio, seu grandalhão! Waaah.
— Ca-Capitão...
O rapaz fora interrompido pelo indicador de Nicolas, que se encostara em seus lábios. Piscando aturdido, o alfa percebia que o seu capitão estava fazendo um bico... Fofo.
— Me chame pelo nome, seu i*****l.
— Quero te matar. — Rosnava o alfa.
— Isso, isso bom garoto. — Ria Nicolas, finalmente se soltando do braço de Milles, seguindo até a sala onde se jogara no sofá.
Estava delirando por acaso?
Aquele não era o Nicolas de sempre?
Ele estava enroscado nas cobertas e sorria para o nada. Além de ter abraçado o seu braço. ABRAÇADO! Pelos céus, nunca que o capitão faria algo assim, mesmo que desejasse vencer a disputa deles.
Olhando em volta tentando recuperar sua consciência, Milles percebia que o caos do lado de fora não se alastrara para dentro da casa. Haviam poucos móveis de aparência velha, mas bem cuidados. Não havia bagunça e o cheiro era gostoso. Bem... Isso se devia ao cheiro de Nicolas estar impregnado na casa.
Respirando fundo, Milles sentia todo o seu corpo regozijar com o aroma adocicado. Aquele era o cheiro de Nicolas. Estar doente o fizera exalar mais e mais, assim como pensara mais cedo. Nesse ponto fizera certo em visitá-lo.
— Veio me ver? Está preocupado comigo? Ou veio pra me beijar de novo?
Milles retirou a bolsa das costas e a deixou ao lado do sofá, escolhendo se sentar no outro estofado ficando de frente ao capitão.
— Não vou te beijar nesse estado.
— Mas queria, não é? — Murmurava Nicolas com um sorriso malicioso, que irritara ainda mais Milles. — Está escrito na sua testa que me deseja. Seu grandalhão tarado!
— Só vim fazer companhia até o Biel chegar.
Imediatamente Nicolas fizera uma carranca. Milles arqueava a sobrancelha sem saber o que esperar daquelas reações tão estranhas. O que havia com ele?
— Não preciso dele! Pega pra você, ó xô xô! — Resmungava o ômega, balançando a mão como se expulsasse um mini Gabriel da mesa de centro.
Milles percebia que abria um sorriso pequeno e afetado. Certo... Estava fazendo aquilo pelo seu melhor amigo que chegaria dali algumas horas. Só precisava manter os olhos no baixinho. Era tudo.
Missão cumprida.
— Até eles chegarem, por que não vai dormir?
— Perdi o sono. — Resmungava Nicolas se levantando do estofado dando a volta na mesa de centro, para chegar até o sofá onde Milles estava sentado. Jogou-se ao seu lado e encostara a cabeça em seu braço, já que a baixa estatura não lhe permitia alcançar o ombro do alfa. — Culpa sua.
— Que besteira, você sempre dorme só de encostar a cabeça no colo do teu amigo.
Então, Milles se arrependera de ter dito aquilo.
Arrependera-se no mesmo instante, pois, Nicolas virou os olhos escuros em sua direção. Como uma criança inocente que quer comer doce, mas tem medo de pedir, ele ousava lhe encarar com aquele brilho pueril.
— Você vai me dar colo?
O coração de Milles errara algumas batidas.
— Cala a boca! Deita aí e dorme de uma vez.
— Malvado.
Nicolas deitara no estofado, mesmo que o espaço disponível fosse pequeno ele conseguira curvar seu pequeno corpo ali. Claro que ele não perdera a oportunidade de empurrar Milles com os pés, só para irritá-lo. O alfa revirava os olhos dando tapinhas nos pés de Nicolas, que parecia se divertir com sua nova brincadeira.
Os dois se atazanaram por um bom tempo, até que Milles irritado se levantou do estofado e cruzara os braços ficando de frente para o capitão.
Pela segunda vez ele se arrependeu.
Nicolas estava todo bagunçado nas cobertas, mas estava adorável. Os cabelos bagunçados, até mesmo a regata que usava parecia grande demais tendo a alça caindo revelando seus ombros magros e branquinhos. Os braços dispostos na frente do corpo também eram tão finos, que Milles temia quebrá-lo com um toque.
Pela segunda vez seu coração errara uma batida.
Maldito fosse.
Nicolas estava adorável.
— O que foi, Milles?
Oh... Céus.
Pela terceira vez o seu coração errava uma batida.
Nicolas chamara o seu nome daquele jeito, manhoso, baixo...
O sangue pulsava por suas veias.
Que tivesse forças o suficiente para lidar com aqueles golpes baixos.
Um estômago roncando salvara Milles dos estímulos. Nicolas levantou-se do sofá se livrando das cobertas, andando para a cozinha não muito longe dali. Milles o observava cambalear de um lado para outro, parecendo cair a qualquer momento.
Até se mantivera próximo o suficiente para socorrê-lo caso necessário. Não fazia a menor ideia do que poderia fazer para ajudar Nicolas. Na verdade, nunca cuidara de uma pessoa doente em toda a sua vida. Isso o tornava uma pessoa mimada? Era tão desconfortável não saber o que fazer.
Nicolas pegara uma panela e dera dois passos para trás cambaleando. Apoiou-se de imediato na geladeira, girando pelos calcanhares para ir até o fogão deixar a panela ali. Revirou os armários tentando procurar algo pra comer, mas não alcançava as prateleiras mais altas.
Tentara ficar nas pontas dos pés, esticando seu corpo o tanto que podia, sem poder alcançar o que desejava. Então, ele virou a cabeça sobre o ombro, olhando pedinte tal como o Gato de Botas no segundo filme do Shrek.
Pela quarta vez o coração de Milles errava uma batida.
Suspirando derrotado, o alfa fora até ele silenciosamente onde pudera alcançar alguns pacotes de miojo. Ficava atrás dele, sentindo o corpo esguio do seu capitão encostar-se completamente ao seu. Um arrepio percorrera todo o seu corpo como uma corrente elétrica passasse.
Baixando a cabeça deparou-se com aqueles olhos escuros o observando atentamente. Mesmo com o rubor em suas bochechas e a respiração quente, levemente ofegante batendo em sua barriga, Milles sentia a intensidade daqueles olhos.
Um de seus braços se movera por conta própria, baixando-se para envolver a cintura fina do garoto e o abraçar. Fora um movimento estranho e desconhecido para Milles, como se o seu corpo ousasse fazer algo sem um comando consciente. Ainda assim, a sensação que tinha de ter aquele corpo encostado ao seu não fora tão estranha quanto imaginara.
— Por acaso você sabe fazer um miojo? — Questionava Milles rouco, tentando tornar aquele momento em algo normal.
— Não.
Mais uma vez o estômago de Nicolas roncara. Certo, ele estava com muita fome ao que parecia. Miojo não era saudável, mas quebraria o galho. Mandaria uma mensagem ao Gabriel para trazerem algo que preste quando viessem.
Soltando a cintura de Nicolas, o empurrara para longe do fogão. Alcançara a panela e enxera com água.
— Vaza daqui, eu faço.
Obedientemente Nicolas regressara para a sala. Vez ou outra Milles o observava por cima do ombro, percebendo que ele se esforçava para ficar acordado. Quão febril Nicolas estava? Precisava dar alguma coisa pra ele?
Enquanto aguardava a água ferver, Milles andara pela sala encontrando um termômetro dentro de um copo na cristaleira. Sem se importar com as regras de etiqueta que algum dia aprendera com sua família, ele abrira a cristaleira e retirou o termômetro verificando se ainda funcionava. Em seguida fora até Nicolas ajeitando o objeto debaixo de seu braço, ouvindo reclamar como um filhote de gato manhoso.
Enquanto segurava seu braço para ajeitar o termômetro, Milles notara a tentativa silenciosa, e talvez inconsciente, de Nicolas tentar esfregar sua bochecha na mão do alfa.
Estaria ele querendo... Carinho?
De Milles?
Aquele pensamento o assustara por um instante.
Garantindo que Nicolas não se moveria, o alfa afastou-se retornando para a cozinha buscando refúgio. Enquanto quebrava o miojo e tirava os temperos do pacote, tentava acalmar seu coração que batia desenfreado.
Quantas visões estava tendo naqueles quarenta minutos em que chegara na casa de Nicolas? Estaria ele tão doente a ponto de agir fora do normal?
Que merda.
Não conseguia não pensar que o maldito era adorável.
Estaria o próprio Milles ficando doente também?
Quando o termômetro apitara, Milles fora até Nicolas verificar a temperatura, que permanecia febril. Suspirando pesado, o rapaz retornara na sua missão de fazer um miojo quente. Tudo o que poderia, e saberia, fazer era colocar o capitão para dormir até que Theodore chegasse.
Esperava que o outro ômega fosse mais útil que ele.
Dali alguns minutos, o miojo quentinho estava pronto sendo servido em uma cumbuca de sopa. Milles tivera todo o cuidado de arrumar a mesa antes de chamar Nicolas, que acabara adormecendo sentado no sofá.
— Acorda... Ei! Capitão, acorda tá na hora de comer.
E nada.
Suspirando baixo, lembrou-se do pedido manhoso de outrora.
— Acorda Nicolas. — Falou rouco.
Os olhos se abriram em um estalo, Nicolas erguera a cabeça farejando o ar sentindo o cheiro do miojo. Pela terceira vez seu estômago roncava, e o rapaz já umedecia os lábios secos com a ponta da língua.
— Baixinho miserável... Venha comer.
Quando Milles dera as costas, sentira algo agarrar sua blusa do uniforme. Virando a cabeça sobre o ombro, percebia Nicolas se desenroscar da coberta o usando como apoio. E aquela visão fora linda para o alfa. Nicolas parecia uma criança tentando se virar para mostrar a independência, mesmo segurando algo para garantir ajuda caso não conseguisse.
No caso, ele esperaria a ajuda de Milles, certo?
Então ele fora andando lentamente pela casa até chegar na cozinha, sentindo aquela mão segurar sua blusa ser a única conexão com o corpo doente de seu capitão. Fora devagar para não cansá-lo, já que sua respiração estava no foco de atenção do alfa.
Sentado, Nicolas comera o miojo como se fosse um grande prato apresentado por um famoso chef de cozinha. Milles cruzava os braços o assistindo com um ligeiro sorriso no rosto, imaginando que o baixinho estaria realmente esfomeado a ponto de se digladiar com um miojo.
Terminado o prato, Nicolas tornava a lamber os lábios avermelhados. Milles entregara um copo de água para ele, já incomodado com sua boca seca. Por acaso ele teria pulado quantas refeições pra ficar naquele estado?
De toda forma, ao menos não estavam discutindo ferrenhamente como sempre faziam.
Até que era bom.
Seu plano fora um sucesso em partes. Nicolas era um ômega obediente quando doente.
「 • • • 」
As horas passavam arrastadas para Milles. Já havia lavado a louça e sua batalha atual era fazer Nicolas dormir. Mas o garoto não fechava os olhos de maneira alguma.
Por que com Theodore ele simplesmente cedia?
Seria algum problema consigo?
Não conseguia ficar relaxado por ser ele quem estaria cuidando? Era o pensamentos mais plausível que conseguia imaginar. Provavelmente o seu capitão estaria em alerta por Milles ficar por perto, mesmo que fraco e febril.
— Não, você não vai jogar vídeo game.
Nicolas formava bico e chutava as cobertas para longe, fazendo uma pequena birra que parecia combinar com sua personalidade caótica.
— Mas eu quero! Não quero dormir, eu quero ficar acordado!
— Você vai dormir.
— Não quero.
— Vai dormir seu porteiro de maquete!
— Mas eu não quero...
A braveza do baixinho dera espaço para olhos escuros e marejados. Parecia uma criança que sabe usar a arte da chantagem emocional.
Contando até dez, Milles afastou-se do meliante e fora até a janela respirar fundo. Precisava se acalmar ou torceria o pescoço daquele ômega. Ele estava doente, provavelmente tão doente ao ponto de sua personalidade ficar... Distorcida, talvez. Precisava ser paciente.
Até Nicolas arremessar uma almofada direto na sua cara.
A veia chegava a saltar na testa do alfa, diante de sua fúria. Mesmo doente, Nicolas tinha uma força imensa para arremessar uma maldita almofada. E ainda fora certeiro em alvejar sua cara.
— Então vai tomar banho!
Nicolas parou a birra, o encarou por alguns instantes e então deixara a sala para seguir o corredor. Milles o assistia silenciosamente, seguindo-o com certa distância tendo receio de que o maldito vídeo game fosse pego.
Surpreendera-se quando o assistiu da porta ir direto para o banheiro se trancar. E permanecera ali atento até ouvir o barulho do chuveiro. Finalmente tendo o capitão lhe obedecendo em alguma coisa, Milles se escorara na parede soltando um longo suspiro cansado.
Aproveitara a chance para vasculhar o quarto do seu capitão, surpreendendo-se mais uma vez com a organização do lugar. Bem, ao menos não estaria morto decompondo no lixo. A janela estava aberta ventilando bem o cômodo, a cama era a única coisa a estar bagunçada, provavelmente onde passara as últimas horas descansando.
O vento balançara as cortinas carregando consigo o cheiro adocicado daquele ômega. Inconscientemente os pés de Milles passaram a porta o levando para a cama, onde o maldito cheiro estava abundantemente impregnado.
Ah... Aquele cheiro. Dentro de si vibrava uma sensação nostálgica que o deixava calmo. Era como se o cheiro de ômega fosse a droga mais viciante que existisse no mundo, e que era perfeita para tornar aquele alfa em seu prisioneiro.
Queria mais.
Lembrava-se das sensações que tivera quando Nicolas tomava a ducha no vestiário da escola. De todas as vezes que quase o atacara ali mesmo, só pra apaziguar aquele desejo insano e crescente.
Queria mais.
Milles segurou o travesseiro de Nicolas o aproximando do rosto. Inalara profundamente sentindo um arrepio percorrer sua espinha. Seus dedos apertavam o travesseiro, afundando o rosto ali uma vez mais para inalar outra vez aquele cheiro.
Seu corpo se aquecia, o sangue pulsava prestes a se acumular em um único ponto. Teria uma ereção em instantes se não tivesse recobrado a consciência e arremessado o travesseiro de volta pra cama, olhando-a exasperado.
— Está ficando maluco, Milles. Maluco...
Ajeitando os cabelos para trás tentando se recompor, o alfa caminhara pelo quarto tentando se acalmar. O que fora muito difícil, já que seu coração insistia em bater acelerado e seus instintos ansiavam cada vez mais aquele cheiro.
Vez ou outra ele encarava a porta do banheiro, onde sabia que Nicolas estava. Imaginara aquele esguio corpo nu se banhando na água quente, deixando a pele pálida em um leve rubor devido a temperatura alta. Os cabelos escuros molhados provavelmente cairiam sobre a nuca e sua testa, e seus cílios longos e escuros com gotículas...
Ah céus... Para onde estava indo?
Sentando-se na cama apoiando os cotovelos nos joelhos, Milles dava pequeno tapas no próprio rosto tentando acordar de seus devaneios. A porta fora aberta e o cheiro típico de ômega, mais o de sabonete, empurravam a consciência de Milles para o precipício.
Virando lentamente a cabeça sobre o ombro, pode ver o seu capitão com a toalha enrolada na cintura ignorar por completo a sua presença e seguir para o guarda-roupa onde abrira uma gaveta para apanhar uma boxer. Ele ainda tivera todo o cuidado de a vestir sem deixar a toalha cair, e então começara a vasculhar o armário.
No final das contas pegara apenas uma camisa gigante para vestir, cobrindo até metade de suas coxas.
Milles tivera a sua quinta morte ali mesmo.
Balançando a cabeça para chacoalhar os fios molhados, Nicolas virou-se para Milles com o semblante sonolento.
— Agora posso jogar vídeo game?
Milles era incapaz de dizer algo. Engolira em seco diversas vezes sem saber exatamente para onde olhar. Seus dedos se fechavam em punho na tentativa frustrada de conter os instintos que insistiam em dominar aquele ômega.
Que merda tinha na cabeça quando fora visitar o capitão?
Não sabia que sua casa estaria impregnada com o seu cheiro? Obviamente seria torturante para um alfa ficar naquele lugar. Queria simplesmente f***r Nicolas até que se partisse ao meio, e provavelmente isso não seria o suficiente para sanar os desejos que só cresciam.
— Pode. — Respondera por fim.
Nicolas sentou-se no tapete de frente para a pequena televisão onde tinha um console instalado. Passou a ignorar a presença do alfa, que agradecia de certa forma já que perdera completamente as ideias.
— Senta aí — Pedia o capitão com sua voz taciturna corriqueira, despertando Milles dos próprios pensamentos.
Meio aturdido, Milles se levantara da cama e se sentara aos pés da mesma, encostando suas costas no acolchoado. Ficara um pouco atrás e afastado de Nicolas, mas perto o suficiente para ainda sentir o seu cheiro.
O que era aquilo? Teria retornado para a sua personalidade distorcida de sempre?
— Libere o seu cheiro. — Pedia novamente o capitão, ganhando os olhos castanhos esbugalhados sobre si.
— Meu cheiro?
A sexta morte daquele alfa veio no rubor daquelas bochechas. Nicolas o encarara ainda febril, cansado e manhoso, parecendo lutar bravamente para manter a consciência. Mas ainda assim o olhara manhoso.
Nicolas Howard estava sendo manhoso com Milles Mckenzie.
— Gosto do seu cheiro, quero sentir de novo igual o que fez domingo.
Sem pestanejar Milles liberara o cheiro que tentara comprimir desde o momento em que entrara naquele quarto. Um alfa sempre iria reagir quando estivesse estimulado por algum ômega. E aquele alfa sentia que aquele ômega era sua alma gêmea.
O instinto de Milles estava cada vez mais sedento para conquistar os instintos de Nicolas. Por isso seu cheiro se tornara cada vez mais intenso e atrativo.
Nicolas respirou profundamente. Milles fora capaz de observar a pele do ômega se arrepiar. Queria ver mais de seus olhos, mas os de Nicolas sempre foram escuros ao ponto de não ser capaz de enxergar suas pupilas. E com ele sentado quase de costas para si, era mais difícil ainda.
O ômega ficara jogando por poucos minutos, seu personagem morria diversas vezes dada a falta de concentração do jogador. Irritadiço, Nicolas desligara a tv e engatinhara até Milles ficando entre suas pernas.
Todo o corpo do alfa enrijecera. O pavor lhe tomava conta.
Onde raios aquele baixinho estava se metendo? Como ele ousava engatinhar na sua direção daquele jeito? Olhando daquela maneira? E justamente no meio de suas pernas?
Seria a sua sexta morte? O coração já havia errado as batidas tantas vezes desde que pisara naquela casa, que perdera as contas.
Mas não seria necessário preocupar-se por mais tempo. Nicolas, perdido em seus delírios febris, exalara o próprio cheiro quando se sentara no colo de Milles.
Exatamente, no colo de Milles.
Ambos os garotos se encaravam intensamente, sentindo o aroma um do outro e perdendo a consciência. Nicolas envolvera os braços em volta do pescoço de Milles e aproximou o rosto ali mesmo para inalar mais de seu cheiro.
Seria uma situação em que nenhum dos dois, certamente, fariam conscientemente. Talvez por orgulho do próprio ego, seus instintos resolveram tomar as rédeas da situação.
Só dessa forma Milles pudera, finalmente, segurar a cintura de Nicolas ao ponto de afundar os dedos e apertá-lo contra si. Ao mesmo tempo em que sua boca procurara a do ômega. Quando os dois lábios se encostaram um ao outro em um beijo singelo e tímido, Milles retomara a consciência, contudo incapaz de se afastar.
Não quando sentia a curiosidade em saber o porquê de se sentir tão e******o e completo com aquele ômega em sua posse.
Aquiescer para os próprios desejos fora o estímulo necessário para que o beijo ficasse ainda mais intenso. Nicolas mordia o lábio de Milles com força, tendo o gosto de ferro se misturando à saliva dos dois garotos. As unhas curtas do ômega arranhavam a nuca do alfa, provocando sensações maravilhosas e excitantes.
Nicolas parecia saber deixá-lo louco.
Milles, por outro lado, não desejava parar.
Quando as duas línguas quentes e úmidas se encontraram, se enroscaram em uma batalha árdua. Principalmente no instante em que Milles sugara a de Nicolas, o fazendo ofegar entre seus lábios. Prontamente aquele alfa ficara sedento por mais daqueles sons excitantes.
O quarto era preenchido com o cheiro daqueles dois. O som do beijo os motivavam a procurar mais e mais daquele toque. Os dedos compridos de Milles desceram para as coxas de Nicolas, já desistindo de esconder a ereção que surgia debaixo de suas calças.
A pele de Nicolas era tão macia, e estava quente devido a febre. Os dedos de Milles simplesmente serpenteavam a tez do ômega, e o puxara com força para que ambas as ereções tivessem o minimo de contato.
Ambos ofegaram, Milles fizera questão de engolir aquele gemido de Nicolas.
Todo o esforço para se controlar se esvaíra. O alfa segurou firmemente do ômega, e desfizera do beijo para trilhar selares por seu pescoço onde sentia o seu cheiro ser emanado.
No entanto, Nicolas não ficara parado. Distribuíra selares molhados pelos ombros de Milles. Seus dedos ardilosamente abriam os botões da camisa social para finalmente entrar em contato com a pele quente do alfa.
Enquanto Milles se refastelava prazerosamente no corpo de Nicolas, uma dor o dominara. Mais precisamente no seu ombro direito.
Imediatamente o alfa parara de se mover, olhando de canto para o que acontecia em seu próprio corpo. Sentia Nicolas fincar os dentes em sua pele, e sugá-lo prazerosamente. Agarrando-se cada vez mais no corpo de Milles, Nicolas afastara o rosto para lamber o local mordido.
A pulsação acelerou. O coração de Milles parecia pular fora do seu peito. Suor surgia prestes a escorrer em sua testa. Seus braços engessaram em volta de Nicolas.
— Que merda você fez... Nicolas?