capítulo 2 Patrícia

1487 Words
CAPÍTULO 2 – A PATY DE LUXO Narrado por Patrícia Godoy Luz vermelha. Corpo colado. Vodca gelada queimando na garganta. Era sexta, mas podia ser terça. O tempo se dobra quando você não precisa prestar contas pra ninguém. A boate vibrava sob meus pés. Gente rica, gente metida, gente tentando ser alguma coisa no flash dos stories. Mas ali, no meio daquele aquário de egos e perfumes caros, eu era o centro. Cabelo loiro escovado. Pele iluminada. Decote gritando. Vestido curto da Balmain. Salto fino da Louboutin. Boca vermelha da Chanel. E o mundo inteiro engolindo minha presença sem conseguir mastigar. Patrícia Godoy. Filha do Juiz Federal Augusto Godoy. Vinte e dois anos. Linda. Rica. Mimada. Rebelde. Impossível. Nunca precisei pedir nada. Nunca ouvi “não”. Porque meu sobrenome pesa mais que qualquer farda. E eu uso isso como salto. Pra pisar onde eu quiser. — “Mais uma rodada de gin pra mesa da Paty Godoy!” — gritou a hostess. — “Deixa vir, amor! Hoje eu quero descer até o chão… de consciência!” — respondi, rindo alto. A música subia. A bebida descia. E eu dançava como quem não deve nada pra ninguém. Só que a noite gira. E quando gira demais… o mundo cobra. [...] Acordei com a cabeça latejando e gosto de vômito na boca. A luz do sol invadia meu quarto como se tivesse raiva de mim. Me virei na cama. Toda torta, ainda de vestido. A maquiagem borrada. Um cílio colado na testa. — “Mas que merda...” — murmurei, com a voz rouca. Levantei cambaleando. A casa era silêncio de cemitério… o que significava uma coisa: meu pai tava puto. Joguei água no rosto. Escovei os dentes com raiva. Olhei meu reflexo. Eu ainda era um espetáculo. Só mais bagunçada. Desci as escadas e lá estava ele. Augusto Godoy. Terno alinhado. Gravata azul-marinho. Olhar de pedra. Juiz federal há vinte e oito anos. Temido, respeitado e absolutamente obcecado por controle. E eu? O caos na forma de filha. — “Bom dia, pai.” — soltei, sentando na cadeira com um sorriso debochado. Ele fechou o jornal. Devagar. Aquilo já era um aviso. As mãos firmes. O maxilar travado. — “Você chegou em casa às cinco e meia da manhã.” — “Melhor que não ter voltado.” — dei de ombros. Ele ignorou. Continuou, seco: — “Recebi fotos suas dançando em cima do bar. De novo.” — “Ué. Pelo menos eu tava dançando. Pior seria se eu tivesse caído do salto.” — dei um gole no café, amargo como ele. — “Você tem noção do que carrega no nome, Patrícia?” — “Tenho. Carrego desde que nasci. E, sinceramente, já enjoei do peso.” — levantei da cadeira, indo pegar meu celular. — “Você vai acabar estragando tudo! Sua imagem, seu futuro, o meu nome!” — a voz dele subiu. Eu parei. Virei de frente. Encostei no balcão da cozinha. — “Meu futuro, pai? Eu não sou tua campanha. Eu não sou tua bandeira. E teu nome… só pesa porque tu vive escondendo sujeira debaixo da toga.” Silêncio. Foi ali que vi. Ele me odiava um pouco por ser parecida demais com ele. Cruel. Rápida. Letal com palavras. — “Você vai mudar.” — disse ele, baixo. — “Não vou.” — respondi, firme. — “Ou eu te corto.” — “Corta. E eu levo teu nome pro inferno comigo.” Ele saiu. A porta do escritório bateu. Eu fiquei parada, sorrindo de canto. Essa sou eu. Patrícia Godoy. Não fui feita pra obedecer. Fui feita pra provocar. E o mundo ainda vai aprender a se curvar… ou me odiar tentando. Subi pro quarto de novo. Tinha gosto de veneno na boca e culpa entalada na garganta. Entrei no banheiro e me despi devagar, como quem tira uma armadura. O vestido caiu no chão como um corpo morto. Me olhei no espelho. A maquiagem borrada, os olhos vermelhos, o cabelo bagunçado. Eu ainda era linda. Mas tinha algo errado com a beleza quando ela carregava dor. Liguei o chuveiro. A água quente caiu nas costas e, pela primeira vez em semanas, eu quis chorar. Mas não chorei. Princesas não choram. Elas endurecem. Elas endurecem até trincar por dentro. --- — “Café da manhã na varanda, Cidoca.” — falei, descendo com um short de moletom e camiseta larga da Balenciaga. Ela já sabia. Já tava lá com a bandeja pronta. Pão sem glúten, ovo mexido e suco detox que eu detestava, mas fazia pose de que amava no i********:. — “Você vai comer ou só posar pro story?” — ela perguntou, com aquele ar de quem já me viu crescer com o demônio no sangue. — “Vou comer, né? Nem tudo pode ser filtrado nessa vida.” Ela sentou na outra cadeira. Me olhou. Aqueles olhos castanhos que sempre me lembravam lar. O único lar de verdade que eu conheci. — “Ele brigou contigo de novo?” — “Quando ele não briga, Cida? Meu pai só sabe mandar. Amar que é bom, ele esqueceu como faz.” Ela ficou em silêncio. — “Às vezes… eu acho que ele me culpa pela morte da minha mãe.” — confessei, com um sussurro que quase não era meu. — “Não fala isso.” — “É verdade. Desde que ela morreu, ele virou pedra. E eu virei o espelho rachado dela. Ele olha pra mim e vê o que não conseguiu salvar.” Ela respirou fundo. — “Tua mãe te amava, Paty. Mas era fraca. E teu pai… ele te ama também. Só não sabe como. O problema é que vocês dois vivem numa guerra onde ninguém abaixa a arma.” — “Eu não vou abaixar a minha.” — falei, encarando o céu. — “Se ele quiser paz, vai ter que ajoelhar primeiro.” Ela balançou a cabeça. Se levantou. — “Só cuidado pra não virar tudo aquilo que você jura que odeia.” Eu fiquei ali. Sozinha. Na cadeira. Com o suco amargo e a consciência mais ainda. Abri o i********: de novo. Mil curtidas, mil comentários, mil elogios. Todo mundo me queria. Todo mundo me invejava. Mas ninguém sabia que por dentro… eu tava caindo. Caindo de salto alto, maquiagem perfeita e alma fodida. Deslizei a tela do i********: mais uma vez, só pra ver os números subindo. Curtidas. Comentários. Gente que me idolatra sem nunca ter me olhado nos olhos. Fechei o app. Levantei devagar e fui até o closet. Atrás das caixas da Chanel, tinha uma caixinha azul-marinho, toda empoeirada. Abri com cuidado. Fotos antigas, dobradas, algumas borradas com o tempo. E ali estava ele. Matheus. O meu irmão mais novo. Quatro anos mais novo. Aos sete, ele desapareceu. Simples assim. Uma tarde comum, uma babá distraída, uma rua sem câmera. E ele sumiu. Nenhuma ligação. Nenhum resgate. Nenhuma pista. A polícia abafou. A mídia foi silenciada. Meu pai usou cada contato que tinha no judiciário pra proteger o nome Godoy da vergonha. E eu? Fui ensinada a fingir que ele nunca existiu. Apaguei os álbuns. As fotos. Os brinquedos. O nome. Mas nunca esqueci. Matheus era quieto. Olhos grandes. Riso fácil. Vivia pendurado em mim. “Você é minha heroína, Pati…” ele dizia, com aqueles dentinhos tortos de leite. E eu jurei proteger ele. E falhei. Aos onze anos, eu aprendi o que era perder. Mas o pior não foi a perda. Foi o silêncio. O esquecimento forçado. A ordem dentro de casa: “nunca mais fale o nome dele.” — “Ele não sumiu. Ele foi arrancado.” — murmurei, olhando a foto. — “E ninguém nunca fez nada.” Meu pai abafou o caso. Minha mãe afundou nos remédios. E eu? Eu virei o que sou hoje. Um buraco cheio de luxo. Um trauma maquiado. Porque o mundo inteiro me vê como Patrícia Godoy, a insuportável. Mas ninguém sabe que todo esse salto, esse deboche, essa boca suja… só existe pra esconder a culpa que eu carrego desde aquele dia. Fechei a caixa. Voltei a escondê-la. Como sempre. Cida apareceu na porta. Ficou em silêncio. Ela sabia. Ela lembrava. Ela viu o que fizeram comigo. — “Hoje faz onze anos, né?” — ela perguntou, baixo. Assenti. — “Faz.” — “Você ainda sonha com ele?” — “Todas as noites.” Ela se aproximou. Me abraçou pelas costas. Fiquei imóvel. Eu não sabia mais como era ser abraçada sem querer fugir. — “Um dia você vai encontrar paz, menina. Ou alguém vai te trazer de volta pra ela.” Soltei o ar devagar. Mas dentro de mim? A única certeza era que paz… era coisa que eu não sabia mais reconhecer.
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