Capítulo 5

1287 Words
No dia seguinte, cheguei para trabalhar ainda carregando comigo todo o peso do que tinha acontecido. Passei boa parte da noite anterior arrependida, repassando cada segundo na minha cabeça e tentando entender como eu tinha conseguido ultrapassar tantos limites de uma vez. Disse a mim mesma que daquele dia em diante seria diferente. Eu entraria naquele quarto, faria meu trabalho e trataria Daniel exclusivamente como meu paciente. Nem sequer tive a oportunidade. Assim que cheguei à mansão, foi a mãe dele quem me recebeu. Ela estava séria, embora continuasse educada como antes. — Mônica, eu queria conversar com você. Meu coração apertou imediatamente, perguntei. — Aconteceu alguma coisa? — Não. Está tudo bem. É só que nós não vamos mais precisar dos seus serviços. Fiquei sem reação. — Como assim? Ela respondeu contando notas de cem reais. — Daniel vai passar um tempo na casa da avó. Decidimos ontem. Lá já tem quem possa ajudar nos cuidados dele, então achamos melhor assim. — Ah... — Falei apreensiva. Foi a única coisa que consegui responder. Tentei procurar algum sinal no rosto dela de que sabia o que tinha acontecido, mas não encontrei nada. Ainda assim, uma sensação horrível começou a crescer dentro de mim. Com certeza tinha descoberto ou Daniel havia contado. — Eu posso pelo menos me despedir dele? — Ele já não está aqui. — Ela disse. Aquilo me atingiu de um jeito que eu não esperava. Não pude nem me despedir. Recebi a mais pelos dias trabalhados, peguei minhas coisas e fui embora sem entender direito o que tinha acontecido. Durante todo o caminho para casa, senti um aperto estranho no peito. Eu deveria estar aliviada. Depois da loucura que tinha cometido, aquela provavelmente era a melhor coisa que poderia acontecer. Daniel sairia da minha vida, eu procuraria outro trabalho e tudo aquilo acabaria se transformando em uma lembrança vergonhosa que, com o tempo, talvez perdesse a importância. Mas não foi assim que me senti. Eu me senti m*l, inferiorizada. Por mais que tentasse não pensar daquela maneira, uma voz dentro de mim insistia que eu tinha sido boa o suficiente para satisfazer uma curiosidade escondida dentro de um quarto, mas não para fazer parte da vida dele. No fundo, aquela velha insegurança voltou com força. Daniel era Daniel. Eu continuava sendo eu. No dia seguinte, meu celular começou a receber mensagens dele. Primeiro, Daniel perguntou por que eu tinha me demitido. Aquilo me confundiu, depois vieram outras. Ele disse que não estava entendendo nada, perguntou por que eu tinha ido embora sem falar com ele e acabou se desculpando por ter insistido tanto para que alguma coisa acontecesse entre nós. Admitiu que tinha ultrapassado limites e que talvez tivesse me deixado desconfortável. Só que, sendo Daniel, obviamente não conseguiu permanecer sério por muito tempo. Logo começou a dizer que não parava de pensar em mim, no meu corpo e na nossa i********e. Disse que queria me ver novamente e pediu que eu fosse visitá-lo, nem que fosse apenas como amiga, para conversarmos. Não respondi, fiquei olhando para aquelas mensagens por muito tempo. Então bloqueei Daniel, era melhor assim. Eu estava arrependida demais do que tinha feito e precisava colocar aquilo para trás. Pelo menos foi o que tentei fazer. Os dias viraram semanas. E as semanas começaram a virar meses. Nesse período, descobri que aquele único momento de loucura tinha deixado uma consequência que mudaria completamente a minha vida. Eu estava grávida, no começo, não consegui acreditar. Fiz um teste, depois outro. Quando finalmente procurei um médico e confirmei a gestação, fiquei durante muito tempo olhando para o resultado sem saber se chorava de medo ou de felicidade. Eu sempre sonhei em ser mãe. Só nunca imaginei que aconteceria daquela maneira. E muito menos que o pai seria justamente Daniel. Não contei para ele. Na verdade, escondi a gravidez de praticamente todo mundo durante os primeiros meses. Guardei aquilo para mim enquanto tentava entender o que faria da minha vida e como criaria coragem para contar a verdade. Enquanto isso, Daniel se recuperava. Quando finalmente melhorou o suficiente para voltar a sair de casa sozinho, uma das primeiras coisas que fez foi procurar por mim. Eu não sabia disso. Por isso, quando dei de cara com ele novamente depois de tantos meses, meu corpo inteiro congelou. Daniel também parou. Por alguns segundos, nenhum dos dois falou absolutamente nada. O olhar dele desceu lentamente pelo meu corpo. Até parar na minha barriga. Já não havia como esconder. Eu estava grávida de alguns meses. Quando Daniel levantou os olhos novamente, toda aquela expressão brincalhona que eu conhecia tinha desaparecido. — Mônica... Meu coração disparou, falei com a voz trêmula. — Oi, Daniel. Ele olhou outra vez para minha barriga. — Você está grávida? Engoli em seco. — Estou. O silêncio seguinte pareceu durar uma eternidade. Então ele perguntou aquilo que eu sabia que perguntaria: — É meu? Meus olhos se encheram de lágrimas. Eu poderia ter mentido. Poderia ter fugido novamente. Mas já tinha fugido durante tempo demais. — É. Daniel ficou completamente imóvel. A surpresa no rosto dele foi tão grande que comecei a ficar ainda mais nervosa. — Eu não contei porque... — Por que você não me falou? — Ele perguntou. — Porque eu não sabia o que você queria comigo! — respondi. — Aquilo aconteceu daquele jeito, depois eu cheguei para trabalhar e sua mãe simplesmente disse que vocês não precisavam mais de mim. Você sumiu. Eu achei que... — Eu não sumi. Você me bloqueou! — Ele respondeu rindo nervoso. Fiquei calada pois era verdade. Daniel passou a mão pelo rosto, ainda tentando assimilar tudo. — Eu procurei você. — Ele disse. — Eu estava com medo. — Respondi. Ele levou a mão a minha barriga, falou pensativo. — E achou que eu não ia querer saber que vou ser pai? — Eu não sabia o que pensar. Ele respirou fundo. Depois olhou novamente para minha barriga, e alguma coisa em sua expressão mudou. — Posso levantar a camisa? Demorei alguns segundos para entender. Então percebi que ele estava perguntando se podia olhar minha barriga. Assenti. Daniel aproximou-se levantou e colocou a mão gelada sobre ela. Meu coração apertou. Aquele homem que eu tinha conhecido como o garoto mais popular do colégio, reencontrado anos depois completamente dependente de cuidados e tentado desesperadamente esquecer agora estava diante de mim descobrindo que seria pai do meu filho. — Eu quero participar — ele disse. Olhei surpresa. — Daniel... não precisa se preocupar. Ele interrompeu eufórico. — Estou falando sério. Eu quero conhecer você de verdade, Mônica. Não daquele jeito i****a que aconteceu. Quero conhecer você. Não havia deboche, nenhuma provocação. Ele parecia sincero, e foi assim que começamos novamente. Dessa vez, sem quarto escondido, sem relação entre cuidadora e paciente e sem precisar fingir que não nos conhecíamos. Daniel começou a me acompanhar durante a gravidez. Aos poucos, começamos a conversar sobre tudo aquilo que nunca tínhamos conversado. Ele conheceu minhas inseguranças, meus medos e meu sonho antigo de ser mãe. Eu conheci um Daniel muito diferente daquele garoto popular e convencido que tinha guardado na memória. A aproximação acabou virando encontros. Os encontros viraram namoro. E o que tinha começado da maneira mais improvável possível acabou se transformando em algo que nenhum de nós havia planejado. Às vezes, Daniel ainda gostava de brincar dizendo que eu tinha mentido descaradamente quando falei que não me lembrava dele. E eu continuava negando. Só que agora ele sabia a verdade. Eu lembrava muito bem. Só nunca poderia imaginar que aquele crush lindo que eu observava de longe no colegial, anos depois, se tornaria o homem que eu amaria e o pai do meu filho. Fim!!
Free reading for new users
Scan code to download app
Facebookexpand_more
  • author-avatar
    Writer
  • chap_listContents
  • likeADD