Capítulo 2

1168 Words
Eu fiquei bastante constrangida com o comentário dele. Por alguns segundos, permaneci parada ao lado da cama, segurando o material necessário para fazer o procedimento e tentando lembrar a mim mesma de que estava ali para trabalhar. Daniel podia falar o que quisesse. Eu precisava agir como profissional. Respirei fundo, coloquei o material sobre a mesa de cabeceira e comecei a organizar tudo cuidadosamente. — Eu vou começar, está bem? Com licença. Abri a embalagem das luvas e fui colocando uma de cada vez, tentando me concentrar exclusivamente no procedimento. Eu sabia exatamente o que precisava fazer. Já tinha passado por situações constrangedoras trabalhando como cuidadora, principalmente porque cuidar de alguém temporariamente dependente significava lidar com a i********e daquela pessoa. Não deveria existir malícia naquilo. O problema era que Daniel parecia determinado a colocar malícia em absolutamente tudo. Quando comecei o procedimento e precisei tocar nele, meu constrangimento aumentou. Ele realmente era grande e estava parcialmente e******o, algo que tentei simplesmente ignorar. Mantive os olhos concentrados no que estava fazendo e procurei não demonstrar qualquer reação. Daniel, é claro, percebeu. Ele ficou me observando durante alguns segundos e falou com aquele deboche irritante: — Essa é a minha ereção matinal... ou talvez eu esteja com t***o em você. Meu rosto queimou. — Daniel... — O quê? — perguntou, inocentemente, como se não tivesse acabado de falar um absurdo. Continuei o procedimento. — Tem certeza de que a gente não se conhece? — insistiu. — Seu rosto não é estranho. Eu estava completamente vermelha e desconcertada, mas me recusei a encará-lo. — Não. A gente não se conhece. Você deve estar me confundindo com alguém. Eu tenho um rosto bastante comum. Daniel soltou uma risadinha. — É... o rosto até pode ser comum, mas essa sua b***a eu lembraria. Fechei os olhos por um segundo. Meu Deus. Eu tinha acabado de começar naquele emprego. — Você é muito bonita, sabia? — acrescentou. Não respondi. Continuei séria, mantendo toda a postura profissional que ainda conseguia reunir. Se dependesse de mim, aquelas gracinhas entrariam por um ouvido e sairiam pelo outro. Só que não era tão simples. Daniel era muito bonito. Mesmo naquela situação, todo machucado, preso à cama e dependendo de outra pessoa para praticamente tudo, conseguia me intimidar e me deixar nervosa. Talvez porque eu ainda enxergasse nele alguma coisa daquele garoto do colégio. O garoto popular que parecia sempre cercado de gente, que recebia atenção sem precisar pedir e que provavelmente nem sabia quem eu era naquela época. Ou talvez soubesse. E essa possibilidade estava começando a me preocupar. Terminei de cuidar da sonda e descartei o material utilizado. — Pronto. Tirei as luvas e higienizei as mãos. — Agora vou buscar seus medicamentos e servir seu café da manhã. — Só isso? Olhei para ele. — Como assim, só isso? — Você não conversa? — Estou trabalhando. — Dá para trabalhar e conversar. Ignorei. Comecei a conferir novamente minhas anotações enquanto ele tentava puxar assunto. Perguntou havia quanto tempo eu trabalhava como cuidadora, onde eu morava, se gostava daquele trabalho. Algumas perguntas eram perfeitamente normais, mas eu estava tão desconfiada das intenções dele que respondia tudo da maneira mais curta possível. — Você é sempre quieta desse jeito? — Quando estou trabalhando, sim. — Sei... Daniel começou a rir sozinho. Olhei para ele desconfiada. — O que foi? — Nada. — Então por que está rindo? — Porque você está muito nervosa. — Não estou nervosa. — Está sim. — Daniel, eu tenho coisas para fazer. Virei de costas e comecei a abrir as cortinas do quarto para deixar entrar mais claridade. A luz da manhã imediatamente invadiu o ambiente, iluminando aquele quarto enorme que parecia mais um quarto de hotel do que o dormitório de uma casa. Foi quando ouvi: — Mônica? — O quê? — Eu preciso tomar banho. Parei com a mão ainda na cortina. Eu já sabia disso. Fazia parte dos cuidados que Alan havia explicado. Como Daniel não podia se levantar para ir ao chuveiro, seria necessário fazer sua higiene na cama. — Eu sei. Está na sua rotina. — Então você vai ter que dar banho em mim. Respirei fundo. — Sim, Daniel. — Vai ter que passar o paninho no meu corpo todo... Virei imediatamente para ele. Daniel estava sorrindo. — Não começa. — Só estou explicando. — Eu sei perfeitamente como fazer higiene no leito. — Ah, sabe? — Sei. — Então vê se não fica com a buc.eta molhada, porque senão vou ter que ajudar você também. Meus olhos se arregalaram. Daniel levantou a única mão que não estava machucada. — Ainda tenho uma funcionando. E, como se o comentário já não fosse suficientemente absurdo, mexeu o dedo do meio de maneira sugestiva. Fiquei extremamente constrangida. Dessa vez, porém, o constrangimento rapidamente virou irritação. — Se você continuar, eu não volto mais aqui para trabalhar! — respondi, séria. — Você está ficando louco, seu pervertido? Isso é um absurdo. Eu estou aqui para ajudar você. Meu tom finalmente fez alguma coisa mudar na expressão dele. Daniel parou com o deboche. Por alguns segundos, apenas me encarou. Então falou: — Ah, para, vai... Eu sei que você está gostando. — Não estou. — Está sim. — Daniel... — Você curtia tudo que eu postava antes. Todas as minhas fotos. Meu estômago afundou. Dessa vez, fiquei muda. Ele percebeu. Claro que percebeu. A expressão convencida voltou lentamente para seu rosto. — Fala a verdade. Você lembra de mim, não lembra? — Não. — Como você não vai lembrar? Desviei os olhos e comecei a mexer nas coisas sobre a mesa, mesmo sem precisar arrumar absolutamente nada. — Eu já disse que você está me confundindo. — Não estou, não. Daniel parecia cada vez mais satisfeito com a própria descoberta. — Você era minha fã. Aquilo me fez olhar diretamente para ele. — Eu não era sua fã. — Ah, então lembrou? Droga, percebi a armadilha no mesmo instante. Daniel começou a rir. — Eu sabia! — Eu não falei isso. — Não precisava. Peguei meu bloquinho e conferi o horário dos medicamentos apenas para ter alguma coisa em que concentrar os olhos. — Você está confundindo as pessoas. Eu não me lembro de você. — Mentirosa. — Daniel, eu vou buscar seu café. Caminhei em direção à porta. — Mônica! Continuei andando. — O quê? — Quando voltar, pode admitir. Eu prometo não contar para ninguém que você era minha fã. Olhei por cima do ombro. Ele estava sorrindo. Aquele mesmo sorriso convencido que eu conhecia muito melhor do que estava disposta a admitir. — Vai sonhando. Saí e fechei a porta atrás de mim. Assim que fiquei sozinha no corredor, parei. Respirei fundo. Meu coração estava acelerado demais para alguém que simplesmente tinha acabado de cuidar de um paciente. — Que inferno... — murmurei. Passei as mãos pelo rosto, tentando diminuir o calor das minhas bochechas. Eu lembrava dele. É claro que lembrava. E esse era justamente o problema.
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