Ana Clara

1874 Words
Ana Clara narrando Três dias depois do baile, minha mãe ainda não deixava eu sair de casa sozinha. — Mãe, eu tenho dezoito anos — reclamei no café da manhã, enquanto passava margarina no pão. — E eu tenho cinquenta e oito de preocupação — ela respondeu, igual sempre. — Enquanto você morar no meu teto, minhas regras valem. Ela tava de costas, lavando a louça, mas eu sabia que tava de olho em mim pelo reflexo da janela. Minha mãe tem olhos nas costas, juro. — Já falei com a enfermeira do posto — ela continuou. — Disse que você tem que medir a glicose de duas em duas horas essa semana, e andar com bala sempre. E nunca mais ir em baile sozinha. — Eu não tava sozinha, tava com a Carol. — A Carol quase deixou você morrer. Isso doeu, não porque era mentira, mas porque era verdade. A Carol tinha chorado tanto no posto que a enfermeira quase chamou um psicólogo pra ela, ficou se culpando, dizendo que devia ter prestado mais atenção, que era a pior amiga do mundo, eu tive que consolar ela, sendo que era eu quem tinha apagado. — Mãe, a Carol não teve culpa. Minha mãe virou, me olhou com aqueles olhos castanhos que enxergam fundo demais. — Eu sei, filha, mas custa nada ter cuidado. Ela voltou pra louça, eu terminei meu café em silêncio. Mas tinha uma coisa que eu não contei pra ela, uma coisa que eu não conseguia tirar da cabeça. Ryan. Toda noite, antes de dormir, eu via ele. O rosto perto do meu, a mão firme segurando minhas costas, a voz grave falando fica comigo. Acordava com o nome dele na cabeça. Ryan. Bobagem, eu sabia, foi um momento, um susto, uma coincidência, não foi um encontro, nem foi um conto de fadas, foi só um acidente. Mas meu coração não tava entendendo isso. Na quinta-feira, minha mãe finalmente deixou eu voltar pro cursinho, acordei cinco e meia, medi a glicose: 128, tava boa, tomei café, apliquei insulina escondida no banheiro, ainda tenho vergonha de fazer na frente dela, mesmo depois de onze anos, e fui pro ponto de ônibus. O dia tava nublado, daquele jeito que parece que vai chover mas nunca chove, eu tava com minha mochila de ursinho no ombro, fone de ouvido, prestando atenção em nada. Até que olhei pro outro lado da rua. E vi ele. Ryan. Tava encostado num muro pichado, com mais dois caras, um deles eu reconheci de vista, o Sandro, que mora lá na baixada, tem fama pesada, o outro eu não conhecia. Ele tava diferente de dia, menos ameaçador, mais... gente, usava uma camiseta branca simples, bermuda preta, boné da Oakley virado pra trás, o cabelo crespo aparecia por baixo do boné, e a luz do sol fazia ele brilhar de um jeito que eu não esperava. Ele tava conversando, com a mão nas costas da nuca, aquele jeito relaxado que homem tem quando tá entre iguais, tava rindo de alguma coisa. Ele virou a cabeça, nossos olhos se encontraram. Meu coração deu um pulo tão grande que eu juro que senti no ouvido, ele parou de rir na mesma hora, ficou me olhando, sem expressão, mas sem desviar. Eu devia ter desviado, seguido minha vida, entrado no ônibus e esquecido, fingido que não vi nada. Mas não desviei. Em vez disso, levantei a mão e acenei. Ele demorou um segundo, depois levantou a mão também, um aceno pequeno, quase discreto, mas foi um aceno. O cara do lado Sandro, olhou pra ele, depois pra mim, e falou alguma coisa, Ryan respondeu, balançando a cabeça, e desviou o olhar. Meu ônibus chegou, entrei, passei a catraca, sentei na janela. Quando olhei de novo, ele ainda tava lá, me olhando. Fiquei o caminho inteiro pensando naquilo, na mão levantada, no olhar e aceno. Cheguei no cursinho completamente distraída, na aula de química, a professora perguntou uma coisa e eu não fazia ideia do que era, hora do intervalo, fiquei no celular, pesquisando Ryan Morro da liberdade, no redes sócias, não achei nada. — Tá procurando alguém? — a voz da Carol do meu lado me fez pular. — CAROL! Que susto! Ela riu, sentou do meu lado, colocou a cabeça no meu ombro. — Desculpa, amiga, tô dodói ainda pela outra noite. — Já falei que não foi culpa sua. — Sei, mas enfim, quem você tava procurando? Desliguei o celular rápido demais. — Ninguém. Ela me olhou com aqueles olhos azuis que enxergam mais do que deviam. — É o menino que te salvou, né? Não respondi. — Achei o nome dele — ela continuou. — Ryan, mora lá no alto, perto da laje do Seu Jorge, tem um irmão mais novo e uma irmã, o pai sumiu. E... — E o quê? Ela baixou a voz. — E ele é o Dono. Meu estômago embrulhou. Dono, todo mundo no morro sabe quem é o Dono, não pelo nome, não pelo rosto, mas pelo que ele representa, tráfico, arma, morte e perigo. — Carol... — Tô só falando o que ouvi. Cuidado, amiga, ele pode ter te salvado, mas isso não faz dele santo. Fiquei em silêncio. Eu sabia que ela tava certa, sabia que devia agradecer mentalmente e seguir minha vida, que menino que é o Dono não é menino pra mim, mas eu não conseguia esquecer o jeito que ele me segurou, a voz calma, mão firme. Será que santo precisa ser perfeito? Ou será que santo pode ser só alguém que escolhe fazer o certo numa noite em que todo mundo escolheu filmar? No fim da tarde, na volta pra casa, desci do ônibus e fui andando devagar. O sol tava se pondo, pintando o morro de laranja, eu tava cansada, com sono, e ainda com a cabeça longe. Quando passei na frente da vendinha do Seu Jorge, ele tava lá, sentado na cadeira de plástico, tomando cerveja. — Oi, Seu Jorge — falei, passando. — Ei, menina, você é a filha da Maria, né? A do diabetes? Parei. — Sou. Ele me chamou com a mão. — Senta aqui um pouquinho. Sentei no banco do lado dele, meio sem entender. — Tua mãe tava desesperada outro dia — ele disse, sem me olhar. — Correndo que nem doida no meio da rua, nunca vi ela daquele jeito. — Eu sei, sinto muito. Ele balançou a cabeça. — Não é culpa sua, menina, doença não escolhe hora, mas tem coisa que eu queria te falar. Olhei pra ele. — O menino que te salvou, o Ryan. Meu coração acelerou. — Ele não é do tipo que faz essas coisas, não é do tipo que se mete, ele vive num mundo que ensina a gente a não olhar pro lado, a não ajudar, a deixar quem tá caído no chão, porque se envolver é perigoso. Ele virou pra mim. — Mas ele se envolveu, podia ter deixado você ali, no meio do baile, que ninguém ia culpar ele, mas não deixou. — Eu sei, eu sou muito grata. — Gratidão não é o ponto, o ponto é que, quando ele te segurou, alguma coisa mudou nele, eu vi, tava na janela, vi tudo. Fiquei em silêncio. — Você vai ver ele de novo — Seu Jorge continuou. — Morro pequeno, gente se esbarra, e quando ver, lembra: às vezes a gente salva alguém sem querer, e às vezes, a gente é salvo de volta. Ele levantou, pegou a cerveja, e entrou na vendinha. — Boa noite, menina, vai com Deus. Fiquei sentada mais um tempo, processando. Salvo de volta? Do que ele tava falando? Levantei, fui pra casa. No caminho, passei na rua de baixo, onde tinha visto o Ryan de manhã, olhei pro muro pichado, pro ponto de ônibus vazio, lugar onde ele tava. Nada. Óbvio que nada, fui dormir pensando nas palavras do Seu Jorge. No dia seguinte, acordei com uma decisão: eu precisava agradecer ele direito, não de longe, nem com aceno, precisava olhar nos olhos dele e falar. Parecia simples, mas não era. Porque agradecer significava encontrar ele, e encontrar ele significava entrar num mundo que não era o meu, mas eu precisava. Não sei explicar por que, mas eu precisava. Sábado de manhã, inventei uma desculpa pra minha mãe: ia na casa da Carol estudar, ela desconfiou, mas deixou. Desci o morro, fui até a região perto da laje do Seu Jorge, fiquei andando, olhando, procurando. Nada. Até que ouvi uma voz. — Você tá perdida? Virei. Era a menina, mais nova, uns quinze, dezesseis anos. Cabelo cacheado, olhar desconfiado, me olhava de cima a baixo. — Tô procurando alguém — falei. — Quem? — Ryan. Ela franziu a testa. — Meu irmão? Por quê? Meu irmão. Essa era a irmã dele. — Eu... eu sou a Ana Clara, ele me ajudou outro dia, no baile, eu vim agradecer. Ela me estudou por um segundo. Depois o rosto dela mudou. — Você é a menina do diabetes? — Sou. Ela sorriu, um sorriso aberto, sincero. — Ele não para de falar de você. Meu coração parou. — Como assim? — Salvei uma mina, Elisa, ela quase morreu no meu colo, fala disso toda hora, minha mãe já tá até cansada de ouvir. Eu ri, sem jeito. — Ele tá em casa? Ela balançou a cabeça. — Saiu cedo, mas volta pro almoço, quer esperar? Pensei. Minha mãe ia me matar se soubesse que eu tava na casa de um desconhecido, mas a vontade de ver ele era maior. — Posso esperar aqui fora? — Pode, mas se quiser subir... — Melhor não! Obrigada. Ela sentou no muro do lado de fora, e eu sentei também, ficamos em silêncio um tempo, depois ela perguntou: — É verdade que você quase morreu? — É. — E meu irmão salvou você? — Salvou. Ela ficou pensativa. — Meu irmão é bom, mesmo que ele não saiba. Olhei pra ela. — Eu sei. Ficamos mais um tempo, o sol esquentando, o morro movimentando, e eu esperando, até que ele apareceu. Subindo a ladeira, de cabeça baixa, fone no ouvido, camiseta preta, bermuda jeans, boné pra trás, o mesmo de sempre. Quando levantou a cabeça e me viu, parou. Tirou o fone. — O que tu tá fazendo aqui? A voz não era brava, era confusa. Levantei. — Vim te agradecer direito. Ele me olhou, depois olhou pra irmã, depois pra mim de novo. — Não precisava. — Precisava sim. Ficamos nos olhando. E pela primeira vez, eu vi ele sorrir, um sorriso pequeno, quase escondido, mas era um sorriso. — Então... obrigado? — ele falou, sem graça. — Eu que agradeço. A Elisa riu atrás da gente. — Pelo amor de Deus, vocês dois são muito estranhos. E entrou correndo em casa. Ficamos eu e ele, sozinhos. — Quer... quer entrar? — ele perguntou, sem jeito. — Tomar uma água? Pensei na minha mãe, pensei no Dono, em tudo que a Carol falou. Mas olhei pra ele, olhos escuros e sorriso escondido. — Quero. E naquele momento, entrando na casa dele, eu não sabia ainda, mas tava entrando numa história muito maior do que eu imaginava.
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