Segredo

1728 Words
Ryan narrando Antes de continuar, deixa eu explicar uma parada que eu deixei passar nos outros capítulo. Porque tem coisa que a gente não conta logo de cara, tem coisa que a gente guarda, observa, vê no olho de quem tá ouvindo. Eu sou o dono, isso mesmo, o dono do morro da liberdade. O tal que comanda o tráfico, que dá as ordem, que decide quem sobe e quem desce, o que todo mundo procura mas ninguém conhece. Porque ser Dono não é sair por aí com corrente de ouro e fuzil na mão igual novela, ser Dono é ficar na sombra, observar, deixar os outro pensar que mandam. O Sandro, por exemplo, todo mundo acha que ele é meu braço direito, que ele que dá as carta, e ele é, de certa forma, mas quem manda mesmo, quem decide mesmo, quem segura o corre inteiro nas costa é eu. Desde os quinze. Meu coroa sumiu quando eu tinha doze. Minha coroa ficou sozinha com três filho, sem estudo, sem dinheiro, sem futuro. Eu vi ela chorar escondida no quarto, vi ela vender as coisa do barraco pra comprar leite pro meu irmão mais novo, vi ela passar fome pra gente comer. Aos treze, comecei a fazer entrega pequena. Só levar um negócio aqui, buscar outro ali. Aos quatorze, já tava vendendo na boca. Aos quinze, o Dono antigo morreu de bala perdida, acerto de conta, sei lá. Só sei que ele caiu e o morro ficou sem cabeça. Os mais velho tentaram assumir, brigaram e morreram, em três mês, o morro perdeu sete homem. Até que um dia, eu tava no meio do fogo cruzado, escondido atrás de um carro, e pensei: se eu não fizer alguma coisa, minha coroa vai perder tudo. Minha irmã vai crescer nessa bagunça, e meu irmão vai morrer cedo igual os outro. Quando o tiroteio acabou, eu fui atrás de quem restou. Chamei os mais velho, os mais novo, os que tinham juízo. Falei: a partir de hoje, as regra muda, aqui não vai ter guerra por ponto, não vai ter matança sem motivo, aqui vai ter ordem. Eles riram, moleque de quinze ano querendo mandar. Mas aí eu mostrei que não tava brincando, fiz aliança com quem precisava, tirei quem atrapalhava e coloquei o Sandro na linha porque ele era braçal mas não tinha cabeça, em dois ano, o morro da liberdade virou o lugar mais organizado da região. Hoje, com dezenove, eu sou respeitado, não porque eu mato muito, mas porque eu penso antes. Porque eu cuido dos meu. Porque aqui não entra PM sem eu saber, não entra rival sem eu autorizar, não morre criança inocente igual em outros morro. Mas tem um preço. O preço é que ninguém pode saber que sou eu, o dono tem que ser invisível, se me descobrem, me matam, prendem e minha família vai pro alvo. Então deixa o Sandro aparecer, deixo ele dar as cara, fazer as negociação, levar fama de brabo, eu fico na minha, observando, decidindo, foi assim por quatro ano, até a noite do baile. Até ela. Agora continua a história de onde parei. Ela tava na minha frente, na porta de casa, a menina do olho verde. Ana Clara. — Quer... quer entrar? — perguntei, sem jeito. — Tomar uma água? Ela pensou um segundo, olhou pra trás, pro morro, como se tivesse pesando alguma coisa, depois olhou pra mim. — Quero. Entrei primeiro, segurando a porta, ela passou na minha frente e eu senti o cheiro do cabelo dela, cheiro de morango, ou coisa doce, até hoje lembro. Meu barraco é pequeno. Dois cômodos: sala com cozinha e dois quarto, minha coroa tava no trabalho, meu irmão mais novo na escola, só a Elisa em casa, e ela já tinha se enfiado no quarto, provavelmente de ouvido colado na porta. — Senta aí — apontei pro sofá, era velho, desbotado, mas limpo. Ela sentou, eu fui na cozinha, peguei dois copo de água, quando voltei, ela tava olhando as foto na parede. Eu, minha coroa, meus irmão, a única foto do meu pai, cortada. — Sua família? — ela perguntou. — É. Ela pegou o copo, agradeceu, bebeu devagar, me olhando por cima do copo. Ficamos em silêncio, eu não sabia o que falar, não tô acostumado com visita, nem tô acostumado com menina bonita no meu sofá. — Desculpa — ela falou primeiro. — Eu não queria invadir sua casa assim, é que... eu precisava agradecer de verdade, do fundo do peito. — Já agradeceu. — Não tô falando de palavras, tô falando de olhar nos olhos e falar: você salvou minha vida, eu podia ter morrido naquela noite, e você não me deixou. O jeito que ela falou me pegou desprevenido. Os olho verde dela tava brilhando, mas não de choro, de verdade, mas sinceridade. Desviei o olhar. — Não precisava disso tudo não, qualquer um faria o mesmo. — Não faria, você viu, todo mundo filmou, só você ajudou. Ela tava certa, mas eu não sabia lidar com isso. — Tu tem diabetes desde quando? — perguntei, mudando de assunto. — Sete anos. — Pô, desde pequena, deve ser f**a. Ela deu de ombros. — Acostuma ou aprende a viver com isso, não tem escolha. — E o que aconteceu naquela noite? O que deu errado? Ela suspirou. — Bebi refrigerante normal, não devia, refrigerante comum sobe a glicose, mas depois cai rápido, e com o calor, a dança, o corpo consumiu mais rápido, quando vi, já tava caindo, vacilo meu que eu sei que não pode. — Mas tu tava com os bagulho? Insulina e tal? — Tava, mas quando cai, não dá tempo de pegar, a mente apaga antes. Fiquei pensando. — Então tu vive com isso todo dia? Sabendo que pode apagar a qualquer hora? Ela me olhou. — Todo dia, mas a gente não pensa nisso, pensa em viver. Na hora, aquilo me pegou, viver, ela vivia com a morte espreitando no canto e ainda assim escolhia viver, eu vivia escondido, com medo de morrer, com medo de matarem minha família, com medo de tudo. Quem era o mais forte ali? — E você? — ela perguntou. — Eu o quê? — O que você faz? Além de salvar menina em baile? Quase ri, se ela soubesse. — Faço uns corre, nada demais. Ela me olhou de um jeito estranho, como se soubesse que eu tava escondendo coisa. — O Sandro é seu amigo? — É, trabalha comigo. — Trabalha fazendo o quê? Ela foi direto, gostei disso, não ficava rodeando. — Entrega, logística, coisa de morro. Ela entendeu na hora, não precisou de desenho. — É perigoso? — perguntou. — É. — E você gosta? Pensei antes de responder. — Não é sobre gostar, é sobre precisar. Ela ficou em silêncio, depois falou: — Eu entendo, também não gosto de espetar dedo todo dia, mas preciso. Naquele momento, alguma coisa mudou, não sei explicar, mas ela me entendeu, ela entendeu que às vezes a gente faz o que precisa, não o que quer. — Tu é diferente — falei, sem pensar. Ela riu. — Diferente como? — Diferente das mina daqui, tu fala sério, olha nos olho, não fica de joguinho. Ela corou, foi a primeira vez que vi ela corar, ficou bonita. — Você também é diferente — ela respondeu. — Como? — Você salvou minha vida e não quis nada em troca, só sumiu, a maioria das pessoas ia querer fama, agradecimento, aparecer, você só... foi embora. — Não sou de aparecer. — Eu percebi. Ficamos nos olhando de novo. Dessa vez, o silêncio não era estranho. Era confortável. Até que a Elisa apareceu na porta do quarto. — Vocês vão ficar se olhando assim pra sempre ou vão comer alguma coisa? Tô com fome. Nós dois rimos ao mesmo tempo. — Cala a boca, Elisa — falei, mas tava rindo. Ana Clara levantou. — Preciso ir, minha mãe vai me matar se souber que vim aqui. Levantei também. — Quer que eu levo até no seu barraco? Ela pensou. — Melhor não, sua fama... quer dizer, seu nome... — Entendi. Ela foi até a porta. Parou, virou. — Ryan? — Hum? — Obrigada, de novo, e... espero que a gente se veja mais. Olhei nos olho verde dela. — Também espero. Ela saiu, eu fiquei na porta, vendo ela descer a ladeira. O cabelo castanho balançando, a mochila de ursinho nas costas. A Elisa apareceu do meu lado. — Você gostou dela. — Tô vendo. — Vai atrás? Olhei pra minha irmã. — Não posso. — Por quê? Porque eu sou o Dono, minha vida é perigosa, se alguém descobrir que ela importa pra mim, ela vira alvo. — Porque não dá — respondi. E voltei pra dentro. Mas naquela noite, deitado no quarto, eu não conseguia tirar ela da cabeça, o cheiro do cabelo, jeito que ela falava sério, os olho verde me encarando sem medo. Bati no teto com a mão. — p***a. No dia seguinte, o Sandro apareceu cedo. — E aí, chefe — ele falou, baixinho, entrando em casa. — Tem novidade. Sentei na cama. — Fala. — O Nichollas andou perguntando demais sobre tu, sobre quem manda de verdade, acho que tão desconfiado. Meu sangue gelou. Nichollas era de confiança, trabalhava comigo desde o começo, se ele tava desconfiado, alguém tava plantando ideia na cabeça dele. — Fica de olho — mandei. — E não fala nada, deixa ele pensar que sabe. — E se ele descobrir? Pensei. — A gente cruza essa ponte quando chegar. O Sandro saiu, eu fiquei pensando. Nichollas desconfiar era problema, mas tinha coisa pior, se alguém descobrisse que o dono era eu, minha vida acabava, se descobrissem que eu tava interessado numa menina direita, a vida dela também. Olhei pro teto. Ana Clara. Eu devia esquecer ela, devia apagar da cabeça e seguir minha vida de sombra e deixar ela na dela. Mas quando fechei os olho, vi ela de novo, sorrindo e corando, dizendo espero que a gente se veja mais. Abri os olho. — p***a. E naquele dia, eu soube: tava ferrado. Não pelo corre. Tava ferrado porque, pela primeira vez na vida, eu queria alguém do meu lado, e querer alguém, nesse mundo, é a coisa mais perigosa que existe.
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