Visita

1577 Words
Ana Clara Quando cheguei em casa, minha mãe tava na porta. Braços cruzados e olhar penetrante. Aquele jeito que só mãe tem de saber que a filha fez algo errado antes mesmo de abrir a boca. — Cadê a Carol? — ela perguntou. Merda. — Ela... não tava bem, acabou não rolando o estudo. — Hum, e onde você estava então? Olhei pro chão, pro teto e pés, qualquer lugar menos nos olhos dela. — Andando, conhecendo o morro. Minha mãe bufou. — Ana Clara, pelo amor de Deus. Você sai de casa dizendo que vai estudar, some por três horas, e volta com essa cara de quem esconde coisa, o que foi? — Nada, mãe. Ela se aproximou, colocou a mão no meu queixo e levantou meu rosto. — Sua cara é sua cara, filha. Mas teu olho é meu, e seu olho tá mentindo. Era impossível esconder dela. Suspirei. — Fui agradecer o menino que me salvou. Ela piscou duas vezes. — O Ryan? — É. O silêncio durou uns cinco segundos, depois ela passou por mim, entrou em casa, e falou sem olhar pra trás: — Entra, vamos conversar. Entrei com o coração na mão. Ela sentou na mesa da cozinha, encheu dois copos de água, e apontou pra cadeira na frente dela, sentei. — Me conta tudo, desde o começo, e não omite nada. Contei, do aceno no ponto de ônibus, da conversa com o Seu Jorge, decisão de agradecer, a irmã dele, a Elisa. Quando terminei, ela ficou em silêncio por um longo tempo. — Você gostou dele — ela falou, não era pergunta. — Mãe... — Gostou, tô vendo na sua cara, no teu olho, você gostou do menino que te salvou. Olhei pra baixo. — Não sei, talvez, é confuso. Ela suspirou fundo. — Ana, eu não vou mentir pra você, esse menino é envolvido, todo mundo sabe. O Sandro, o Nichollas, esses nomes que você falou... isso é coisa pesada, muito pesada. — Eu sei. — Sabe mesmo? Sabe que ele pode morrer amanhã? Que pode ser preso? Que pode arrastar você pra um buraco que você não vai conseguir sair? Olhei pra ela. — Sei, mas também sei que ele me salvou, ele podia ter deixado eu morrer no meio daquele baile e ninguém ia culpar ele, mas ele não deixou. Minha mãe apertou os olhos. — Isso não faz dele santo. — Não, mas faz dele humano, e faz dele alguém que escolheu fazer o certo numa noite em que todo mundo escolheu filmar. Ela ficou me olhando, depois desviou. — Você é teimosa igual seu pai. — Você sempre fala isso como se fosse defeito, mas ele também era teimoso e você amou ele até o fim. Ela não respondeu, ficamos em silêncio. Depois de um tempo, ela levantou, foi até o fogão, e começou a preparar o jantar. — Vou fazer macarrão, seu favorito. Levantei e fui abraçar ela por trás. — Obrigada, mãe. Ela colocou a mão sobre a minha. — Não me agradece ainda filha, essa história tá longe de ter final feliz. Naquela noite, deitei e fiquei pensando em tudo. No Ryan, o jeito que ele me olhou, na casa simples dele, a irmã que não parava de espionar a gente, e na conversa sobre viver com medo. Ele disse que entendia, e eu acreditei. Porque quando a gente vive com uma condição que pode te matar a qualquer momento, a gente aprende a reconhecer quem também carrega um peso, não importa qual seja o peso, a gente reconhece. Ele carregava alguma coisa, algo pesado, que ele não contou, mas eu vi nos olhos dele. E, estranhamente, isso me fez querer conhecer ele mais. No domingo, acordei com mensagem da Carol. — AMIGA ME CONTA TUDO SOBRE O BOY. Ri sozinha. — Que boy? — O RYAN SUA MENTIROSA TODO MUNDO VIU VOCÊ DESCENDO A LADEIRA ONTEM. Puta que pariu, morro pequeno é f**a. — Como assim todo mundo?" — A Elisa postou story, vocês dois na porta da casa dela. JÁ TEM PRINT Fechei a cara e abri, a Elisa tinha postado um story rápido: eu e o Ryan na porta, ela escreveu meu irmão e a visita, tinha uns cinquenta views. — Mãe, eu tô ferrada — murmurei. A Carol continuava mandando mensagem. — ELE É LINDO AMIGA, QUE OLHAR, CARA DE m*l, CONTA TUDO. Respondi: — Não tem nada pra contar, fui agradecer só. — Uhum, e por que demorou 3 HORAS pra agradecer? Merda, ela descobriu o horário do story. — Carol, pelo amor de Deus — VAI TER QUE CONTAR TUDO AMANHÃ NO CURSINHO. Suspirei, minha vida tava virando uma novela. Segunda-feira, no cursinho, a Carol me esperava na porta, cabelo loiro armado, óculos de sol, cara de quem vai interrogar um criminoso. — Senta aqui — ela apontou pro banco do lado. Sentei. — Vamos lá, do início e sem mentira. Contei tudo de novo. Quando terminei, ela tava com os olhos arregalados. — Amiga, você tá apaixonada. — Tô nada. — Tá sim, você descreveu o olhar dele com detalhes, lembrou o cheiro do cabelo dele, disse que o silêncio era bom. Apaixonada. — Carol... — Não, não, deixa eu falar, eu nunca te vi assim, você sempre foi a certinha, a focada, a que tem plano, e agora você tá com esse brilho no olho falando de um menino do morro que te salvou, isso é lindo. — É perigoso. Ela parou. — É, É perigoso, mas desde quando coisa boa não é perigosa? Olhei pra ela. — Carol, ele é envolvido, trabalha pro Dono. Ela franziu a testa. — O Dono? Ninguém sabe quem é o Dono, é lenda. — Todo mundo sabe que existe, e ele trabalha com o Sandro. O Sandro, Carol, aquele que tem fama pesada. Ela pensou. — Tá, é pesado, mas ele te salvou, isso conta alguma coisa, não conta? — Minha mãe disse que isso não faz dele santo. — Tua mãe é tua mãe, mas você é você, o que você sente? Fiquei em silêncio. O que eu sentia? Confusão, medo, atração e curiosidade, vontade de ver ele de novo. — Sinto que quero conhecer ele mais — respondi. — Mas sinto medo também. Ela colocou a mão no meu ombro. — Então conhece, com cuidado, calma, e comigo do lado. Sorri. — Você é doida. — Sou, mas sou sua amiga, e amiga vai junto. Na volta pra casa, desci do ônibus e parei no ponto. Olhei pro lado, pro muro onde ele tava naquela manhã, lugar onde nossos olhos se cruzaram. Nada. Claro que nada, fui andando, devagar, passei na vendinha do Seu Jorge, ele tava lá, na cadeira, com a cerveja. — Ei, menina — ele chamou. Parei. — Senta aqui. Sentei no banco do lado. — Vi que você foi lá — ele disse. — O senhor vê tudo mesmo. Ele riu, baixinho. — Nessa idade, a gente vê o que quer, e eu gosto de ver os novo se achando. Fiquei sem resposta, ele virou pra mim. — Gostou dele, né? — Todo mundo pergunta isso hoje. — Porque todo mundo vê, não precisa ser gênio, você tem cara de quem gostou. Olhei pra frente. — É complicado. — A vida é complicada, mas o coração é simples, ele quer o que quer. — E se o que ele quer for perigoso? Seu Jorge deu um gole na cerveja. — Tudo é perigoso, menina. Atravessar a rua é perigoso, comer pão com manteiga todo dia pode entupir veia, viver é perigoso, a questão não é o perigo, é se vale a pena. — E o senhor acha que vale? Ele me olhou por cima do copo. — Acho que você só vai descobrir se tentar. Fiquei pensando nisso o caminho inteiro até casa, viver é perigoso, mas não viver também. E eu tava cansada de só existir, de só seguir o plano, só fazer o que esperam. Talvez fosse hora de viver de verdade, mesmo que fosse perigoso. Na terça-feira, tomei coragem. Peguei o número da Elisa com uma amiga em comum e mandei mensagem. — Oi, Elisa, aqui é a Ana Clara, tudo bem? Ela respondeu na hora. — OI GATA TUDO E VC. — Tô bem, queria saber se... se seu irmão tá em casa hoje à tarde. — Pq vc tá rindo. — VOCÊ QUER VER ELE. — ….quero — ELE TÁ SIM VAI CHEGAR UMAS 5. — Obrigada. — DE NADA VOU ATÉ SUMIR DE CASA PRA DEIXAR VOCÊS SOZINHOS. — ELISA. — BRINCADEIRA, MENTIRA VOU FICAR DE OLHO. Ri sozinha no ônibus, a irmã dele era muito gente boa, cinco horas, eu ia estar lá. Dessa vez sem mentira pra minha mãe, falei a verdade: — Vou ver ele de novo. Ela não gostou, mas também não proibiu. — Só toma cuidado, Ana, e me avisa quando chegar. — Prometo. Desci a ladeira com o coração acelerado, parei na frente da casa dele e bati na porta. Ninguém. Bati de novo. Nada. Suspirei, tinha viajado? Esquecido? Foi quando ouvi uma voz atrás de mim. — Tá procurando alguém? Virei. Ele tava ali, subindo a ladeira, a camiseta branca suada, cabelo molhado, boné na mão, tinha acabado de correr, ou algo assim. — Tô — respondi. — Procurando você. Ele parou e me olhou, e dessa vez, o sorriso apareceu antes de qualquer palavra. — Então achou.
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