Ryan

1640 Words
Ryan narrando Meu nome é Ryan, tenho dezenove anos e, se tu me ver na rua, provavelmente vai desviar o caminho. Não tô falando isso por drama não, é fato. Sou moreno, corpo magro e com músculo, mas resistente, esses de quem cresceu correndo de tudo e de nada ao mesmo tempo. Tenho um corte no supercílio esquerdo, daqueles que já cicatrizou mas fica marcado, e uma tatuagem nas costas da mão direita que eu mesmo fiz com agulha e nanquim quando tinha quinze: uma estrela de cinco pontas, torta, mas é minha. Moro no morro da liberdade desde que nasci. Aprendi cedo que o mundo não dá nada de graça e que respeito se conquista na base do olho no olho, ou, quando necessário, na base do que precisa ser feito. E aqui, o que precisa ser feito, às vezes é coisa que não dá pra contar em detalhe não. Na noite do baile, eu não tava lá por farra não. Tava de olho, sempre tô. Tava dando uma geral, ver quem tava circulando, se tinha gente nova vendendo por conta, se a PM ia dar pt, coisa de sempre. Cheguei umas dez e meia, botei minha jacketa preta, bermuda jeans, um boné da Oakley virado pra trás. Fiquei num canto, encostado na parede, só observando, é o que eu faço de melhor: observo, escuto, guardo. Foi quando eu vi ela. Uma mina, mais ou menos da minha idade, cabelo castanho comprido preso num coque, vestido preto simples, mochila de ursinho no ombro, ela tava encostada na grade do outro lado, mexendo no celular, com cara de quem não queria estar ali. Olhei por cima, ela levantou a cabeça e me encarou, olho verde e dos claros, que brilha mesmo no escuro. Desviei primeiro, sempre desvio. Pensei: — É patricinha perdida, deve ser amiga de alguém, e parei de prestar atenção. Mas meu olho voltava sozinho. Ela tava deslocada, não dançava, não bebia, só ficava ali, no canto, igual eu. Duas pessoas no canto da mesma festa, cada uma por um motivo diferente. Depois veio a loira, amiga dela, arrastou ela pro meio da pista, eu voltei pro meu camarote, falei com o Sandro, confirmei umas parada, tava de boa. Até que não tava mais, a mina do vestido preto começou a tremer. Primeiro eu pensei: — Só mais uma bebendo demais. Mas quando ela levou a mão no peito e o olho dela revirou, eu entendi que não era isso, ela ficou branca igual papel, as perna começaram a bambear, e ninguém tava vendo. Geral dançando, filmando, rindo, ninguém viu ela caindo. Eu podia ter deixado, não era meu problema, nem era meu corre, ela não era minha mina, não era minha conhecida, não era nada minha. Mas quando ela caiu, meu corpo agiu antes da cabeça pensar, corri no meio da multidão e segurei ela antes que batesse a cabeça no chão. Ela tava mole, pesada, tremendo igual vara verde, os olho dela tavam abertos mas não tavam vendo nada. Eu segurei ela no colo, sentei no chão com ela no meu braço. — EI, QUAL É O PROBLEMA DELA? — alguém gritou. — FILMANDO! FILMANDO AÍ! — ACHO QUE É DROGA, MANO! Filmar, só sabem filmar, ninguém faz p***a nenhuma. — O que tu tem? — perguntei perto do ouvido dela. — Fala, o que tu tem? Ela tentou falar mas não saía nada, os lábio dela tava tremendo e a mão gelada. — Mano, ela tá convulsionando! — um moleque gritou do lado. — NÃO É CONVULSÃO, p***a! — gritei de volta. — EU SEI O QUE É ISSO! Não sabia p***a nenhuma, mas eu vi uma vez, um moleque na boca, quando eu era menor. Começou a tremer igual, caído, e os mais velho gritaram: — AÇÚCAR! DÁ AÇÚCAR PRA ELE! — E salvou. Sei lá se era a mesma parada, mas era a única coisa que eu tinha. — AÇÚCAR! — gritei. — ALGUÉM TRAZ AÇÚCAR! Ninguém moveu. — VAI, p***a! CORRE! Um menino correu pro bar, eu fiquei com ela, segurando, tentando manter ela acordada. — Fica comigo — falei. — Fica comigo, não apaga. Ela apagou. Os olho verde fechou, o corpo relaxou, e por um segundo eu achei que ela tinha morrido no meu colo. — NÃO APAGA, p***a! — apertei ela. — ACORDA! O menino voltou com um copo de refrigerante, eu virei ela um pouco, tentei colocar o líquido na boca dela, ela não engolia, escorria tudo. — MANO, ELA VAI MORRER! Nisso, a amiga loira apareceu desesperada. — O QUE FOI QUE VOCÊ DEU PRA ELA? — ela gritou, puxando meu braço. Olhei pra cara dela com ódio. — Eu não dei nada, doida, ela passou m*l, parece ser problema de saúde. Saúde. A loira ficou branca. — É o diabetes dela — ela falou, chorando. — Ela tem diabetes, precisa de açúcar, rápido! — TÔ TENTANDO, p***a! ELA NÃO ENGOLE. Aí lembrei, minha coroa, quando meu irmão era pequeno e não queria tomar remédio, passava no dedo, na gengiva, absorvia mais rápido. Passei o dedo no refrigerante, passei na gengiva dela, fim umas três vezes, depois um pouco debaixo da língua. Ela tossiu e abriu os olho. Olho verde, e vidrado, perdido, mas aberto. — Fica — eu falei, mais calmo agora. — Fica que já vem ajuda. Alguém chamou ambulância, a loira tava do lado, chorando igual criança, eu continuei ali, com ela no colo, até chegar o socorro. Quando os paramédico chegaram, mediram o açúcar dela, tava onze, não sei se é muito ou pouco, mas eles falaram: — Hipoglicemia grave, por pouco não perde essa menina. Olhei pra ela, tava pálida ainda, mas viva. Antes de subirem ela na maca, ela me olhou, não falou nada, só me olhou com aqueles olho verde. E eu fiquei sem saber o que fazer. — Vem com a gente? — a loira perguntou. Balancei a cabeça. — Fico aqui. Elas foram, a multidão se dispersou, o baile continuou, porque aqui a vida não para por nada. Eu fiquei sentado no chão, suado, tremendo um pouco. O Sandro apareceu depois. — Que p***a foi essa, mano? — ele perguntou, sentando do lado. — Não sei, ela passou m*l, eu ajudei. Ele me olhou estranho. — Tu virou herói agora? Olhei pra frente. — Não virei nada, só tava no lugar certo. Fiquei mais um tempo ali, depois levantei, comprei um refrigerante no bar, sentei na calçada. Foi quando o Seu Jorge, o porteiro aposentado, sentou do meu lado. — Você fez o certo, moleque. — Não fiz nada. — Fez sim, hoje você salvou alguém, amanhã você pode ser salvo também, a vida é roda. Quase ri. — Minha roda não gira assim não, Seu Jorge. — Gira, sim, você só não tá vendo, mas vai ver. Terminei a cerveja, levantei, fui embora. Mas antes de virar a esquina, olhei pra trás, pro lado que levaram ela. Não sei por que olhei, não sei por que pensei nela no caminho de casa, nem sei por que, deitado no meu quarto, com o teto de madeira olhando pra mim, eu ainda via aqueles olho verde fechando. Minha irmã, a Elisa, entrou no quarto sem bater. — Ry, você tá doente? — Tô não, princesa. — Então por que essa cara? Demorei pra responder. — Elisa, tu já salvou alguém? — Como assim? — Tipo... alguém que ia morrer, tu já impediu? Ela pensou. — Não, nunca, mas você salvou? Olhei pro teto. — Acho que sim. Ela sorriu, deitou do meu lado igual fazia quando era pequena. — Então essa pessoa deve tá em dívida com você. — Não quero dívida não, só quero que ela fique bem. Ela ficou em silêncio um tempo e depois perguntou: — Ela era bonita? — Quem? — A pessoa que você salvou. Não respondi. Ela riu. — Tô indo dormir, mas Ry? — Hum? — Se ela for bonita mesmo, você vai ver ela de novo, certeza. Ela saiu, eu fiquei olhando pro teto. Bonita? Era, cabelo loiro, olho verde, um jeito calmo mesmo no meio do caos, bonita. Mas não era sobre isso. Era sobre a mão gelada dela na minha, o corpo tremendo, ela abrir os olho e me ver primeiro. Era sobre sentir que, naquele segundo, eu não era o Ryan do morro, o dono. Eu era só um cara segurando uma menina que ia morrer. E ela não morreu. Fiquei com isso na cabeça a noite inteira. No outro dia, acordei e fiz o de sempre, levantei, comi, fui pra boca, mas alguma coisa tava diferente. Um peso no peito que não era peso r**m, era tipo... responsabilidade, cuidado. Coisa que eu não tava acostumado a sentir. No caminho, passei na frente do posto de saúde, parei e olhei. Pensei em entrar, perguntar se ela tava bem, mas entrei? Claro que não, não sou de me meter onde não fui chamado. Só que, no fundo, eu queria ver. Queria saber se aqueles olhos verde ainda brilhavam igual na festa, saber se ela lembrava de mim. Mas lembrar pra quê? Eu não sou nada, sou só o Ryan, mais um no morro, mais um número na estatística. Ela deve ter acordado, visto a mãe, esquecido de mim. É assim que funciona, só que não foi. Porque dias depois, no ponto de ônibus, eu tava lá com o Sandro e os cara, e quando olhei pro lado, ela tava do outro lado da rua. Olhos verde fixo em mim. Levantou a mão. Acenou. E eu, que não aceno pra ninguém, levantei a mão também. Naquele momento, o Sandro do lado: — Quem é a mina? Balancei a cabeça. — Ninguém. Mas não era ninguém, era ela. E eu sabia, no fundo, que a partir dali nada ia ser igual.
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