Entrevista

2245 Words
            Impaciente com as suposições que sabia que estavam circulando pela empresa ao meu respeito relacionadas a nova assistente. Dedico-me a livrar-me da incomoda garota o mais rápido possível. Passando a ela diariamente uma extensa lista de tarefas trabalhosas e complexas que fazem a tal da Alves correr de um lado para o outro, sempre abarrotada de trabalho.             Em dias, a garota vista inicialmente pelos demais com uma suspeita. Passou a ser vista como pobre coitada. Da mesma forma que meus assistentes anteriores. Chegou ao meu conhecimento que muitos funcionário se ofereceram para ajudá-la, porém a mesma recusou. Por que essa garota simplesmente não se demite?   — Senhor ?! — a Sra.Souza chamou minha atenção. Ela se encontrava na minha sala com uma expressão de empolgação. — O que é? — questionei. — O pessoal da Forbes se encontra na sala de espera — ela disse animada.           Meu olhar viaja para meu celular onde o evento “entrevista para Forbes” piscava. Havia me esquecido que tinha marcado isso para hoje. Reviro os olhos não gosto nem um pouco de participar desse tipo de evento, porém os acionistas adoram melhorar minha imagem, muda-la de gênio incompreendido para jovem gala era parte importante do plano. A suposição deles de que minha boa aparência é uma vantagem a ser explorada me irrita. Apesar disso, abri mão de manter uma postura honesta perante a mídia em troca de liberdade criativa. Era basicamente um acordo silencioso entre mim e eles. — Vou recebe-los — disse pegando meu telefone. É impressionante como posso manter-me trabalhando com apenas ele. Tenho ciência que anos atrás alguém de meu porte deveria andar com uma pasta lotada de documentos e precisaria de um grande aparato tecnológico para conseguir trabalhar.               Alinho o punho do meu terno grafiti e sigo para a sala de espera. Porém no caminho vejo a menina Alves, ela carrega uma caixa transparente com diversos modelos de smartphone. d***a! Já havia me esquecido que havia mandado a mesma traze-los para mim.   — O senhor não vai mais precisar dos ... — ela começou a falar mas a interrompi. — Pegue os três modelos mais populares. Você vem comigo— disse simples. — Mas a sua secretaria me informou que você tem uma entrevista agora — ela disse confusa. — E? — questionei seguindo meu caminho. Não gosto de perder tempo e não existe nada que impeça que ela fique ao meu lado fazendo o teste de desempenho do software, enquanto eu respondo as perguntas levianas desses jornalistas. — Ok — ela disse desconcertada.               Percebi a mesma abaixar a cabeça assim que entramos na sala de espera. Onde se encontravam uma dupla de jornalistas. Um homem e uma mulher de meia-idade. A mulher claramente tinha implementação de Botox, Bichectomia, Rinoplastia e uma lista longa de outros procedimentos estéticos. Está mulher deformou sua configuração muscular e óssea para se adequar a um padrão inalcançável. O homem ao seu lado usava uma peruca para esconder a calvície e fez uma sequência de alterações faciais conhecida como harmonização facial. Algo que não consigo compreender é a necessidade humana pela aceitação estética. Um crime para qualquer amante de anatomia. Um crime contra evolução. Tender a um padrão é burrice. Alves pareceu desconcertada com as figuras, mas diferente de mim pareceu cair na armadinha estética e admirar a "beleza" fabricada de ambos.   — Bom dia Sr. Lange. É um prazer finalmente conhece-lo— A mulher se apressou para apertar minha mão. — Bom dia, ... — disse abrindo espaço para que a mesma se apresentasse. — Perdoe minha parceira, Eu sou José Bernardo, editor-chefe e está é Rebecca Silva, redatora— O homem tomou a frente. — Está seria sua namorada? — Rebecca questionou empolgada o que deixou Alves corada. Uma composição agradável a sua face. — Não, assistente — ambos respondemos rapidamente, o que apenas fez Alves corar ainda mais violentamente. Qual o problema dela? —Que pena. Seria divertido sermos os primeiros a noticiar — Bernardo comentou deixando evidente seu interesse real ali era apenas uma história. — Bem, temos uma reserva no Rubaiyat, acho que seria de bom tom realizar a entrevista em um ambiente mais confortável — disse já cansado de perder meu precioso tempo. — Claro — concordaram prontamente.               Seguimos para o elevador e em minutos nos encontrávamos no restaurante. Durante todo o percurso notei a atenção extra e os olhares curiosos. Tenho conhecimento que a causa não era os jornalistas, afinal era comum que eu andasse por ai na companhia deles. Não deveria chamar atenção a presença de um assistente também. Porém todos meus assistentes anteriores eram homens. Não apenas isso como também todos eram muito mais velhos que eu. Deveria fazer uma investigação para descobrir como Alves acabou nessa posição. Entretanto ainda não tive tempo para isso. A questão é que, aos olhos alheios, a mesma parecia minha namorada como a própria Rebecca sugeriu e isso me incomoda demais. Se já não gosto das suposições sobre mim sugerindo relacionamentos secretos que jamais dei indícios, ou suposições sobre minha sexualidade. Odeio ainda mais que tenham qualquer motivo mesmo que mínimo para levantar o assunto.             Assumimos nossos acentos e Alves ainda parecia desconfortável.   — Inicie o teste de velocidade processamento com o aplicativo em stand-by — ordenei e a mesma confirmou com a cabeça. — Bem, vamos conversar e depois podemos desfrutar de uma boa refeição— disse em direção aos jornalistas. — Sim, claro, como preferir— Bernardo disse sorrindo para mim.               Peguei meu próprio celular e passei a dividir a atenção entre a tela e eles. Não me importava se soaria rude ou incomodo. A opinião destas pessoas pouco me importa. A matéria com certeza já está pronta antes mesmo desta entrevista, conforme o pago.   — Então como surgiu a ideia de criar a i9? — Rebecca questionou. — Precisava de um empresa para registrar a patente do meu aplicativo — Informei. Era uma pergunta que já respondi diversas vezes. Então sua resposta veio automaticamente. Enquanto isso notei que havia um pequeno bug na renderização do meu sowftare novo que estava rodando em meu celular. — Sim, estamos falando sobre o Feature, certo? De onde surgiu a ideia para desenvolve-lo? — Ela questionou. Fiz testes para tentar resolve-lo. — Feature é uma rede social que analisa seu perfil e busca pessoas compatíveis a você, que compartilham o mesmo interesse e opinião. A ideia surgiu enquanto via artigos de psicologia sobre a facilidade do ser humano em estabelecer relacionamento com pessoas que compartilhem o mesmo interesse e fazer isso sem muito esforço do usuário foi o que a tornou um viral— disse. — Isso foi genial — Alves comentou. — As pessoas tem bastante curiosidade e a maioria gostou de ver que tinha até mesmo famosos que compartilham ideias similares a deles — Rebecca disse e percebi que basicamente ela estava me interrogando enquanto Bernardo estava apenas fazendo anotações. — As pessoas tratam celebridades como seres superiores ou perfeitos— disse. — Mas logo depois você desenvolveu o Villager. Um aplicativo para manter códigos fontes mais seguros. Isso foi amplamente aclamado por empresas. Afinal o vazamento de dados era algo realmente preocupante— Rebecca comentou. — Eu o desenvolvi para uso pessoal apenas resolvi lucrar com o mesmo — disse. — Até hoje é o melhor aplicativo de segurança de dados— ela comentou. — Constantemente o atualizo. Hacker's são talentosos. — comentei. — Compreendo. Você entende bem disso, afinal foi responsabilizado pelo ataque hacker a sansungue, não foi — Rebecca sugeriu. — Eu tinha 13 anos— disse irritado. As pessoas gostam de me lembrar de meus atos criminosos. Não é como se anos depois eu não tenha confessado o crime e pagado a multa a eles. Claro que só fiz isso porque o desenvolvedor chefe deles teve a ousadia de dizer que eu era apenas um rostinho bonito e gostei de mostrar que já o tinha superado anos atrás. — Bem, agora que já passou de Hacker para desenvolvedor para CEO, quais são seus planos para o futuro? Afinal na sua idade ainda se tem muito pela frente e já colocou a i9 no patamar das gigantes do mercado — ela disse. — Ainda não estamos no patamar das gigantes. Acho que só vou descansar quando o Brasil se tornar uma potência para tecnologia de ponta — disse. — Isso é ambicioso — ela comentou. — Sempre fui muito ambicioso. Até aqui tem funcionado — respondi e vi Alves se mover em minha direção. Ela quer falar algo mas parece receosa sobre atrapalhar — O que é? — questionei a mesma. —Os testes rodaram bem na maioria os aparelhos, menos no isos — ela disse. — Alguma sugestão? — a testei. — Uma atualização especifica para esse modelo. Algo que diminua o gasto de memória — ela disse. — Como? — perguntei. — Podemos fazer que as animações da interface pareçam as mesmas porem tenham menos definição. Algo pequeno. Seria quase imperceptível— ela sugeriu. — Então faça, quero ver o resultado mais tarde— disse e Alves confirmou. — Vamos falar de coisas além do trabalho — Rebecca disse e vi a mesma olhar de soslaio para Alves — Quais são seus planos para o futuro? Namorar? Casar? Filhos? — questionou. — Não — disse apenas começando a perder minha pouca paciência. — Ok, está ciente que planejamos um ensaio para a capa? — Bernardo questionou. — Claro, mas agora vamos almoçar — disse e fiz um sinal ao garçom.   [...]               Depois de comer, seguimos para um dos estúdios. Onde tive que vestir um figurino. Revirei os olhos com isso. Odeio tirar fotos. Era uma camisa estampada florida da Gutti em um azul fraco com um casaco vermelho por cima da mesma marca. Essa calça é desconfortavelmente apertada. Tive que lembrar a mim mesmo porque aceito esse tipo de coisa. — Senhor? — escuto Alves chamar. — Sim— disse me juntando a ela na sala adjacente ao camarim.               Seus olhos me percorreram deixando-me desconfortável. Porém claro que não ia deixar isso transparecer.   — Não babe Alves — zombei. — E-eu...  Eu não! — ela gaguejou e depois se calou parecendo irritada. Isso me divertiu. Ficamos segundos em completo silencio. — Sinto me ridículo — admiti e seus olhos que me evitavam, se voltaram para mim. — Não está! — ela disse corando violentamente.               Não compreendo o que mulheres podem achar atraente nesta combinação. Tons vivos demais para meu gosto. Prefiro os tons neutros.   — Cauã? Está pronto — escuto a voz de Rebecca que entra no cômodo e observa a Alves com curiosidade. Provavelmente se questionando o que teria deixado a jovem tão vermelha. — Não me chame pelo primeiro nome — disse. — Certo, Sr. Lange. Vamos? — ela questionou e sem mais nenhuma palavra a seguimos até onde o fotografo nos aguardava. — Mas que honra. Trabalhar com esta beldade. Esses olhos — o fotografo se exaltou. Ele se aproximou afobado e recuei dois passos. Eles sempre se referem ao meus olhos como se fossem algo sobrenatural. São apenas azuis. — Esses cabelos são naturais? — ele questionou. — Não — disse. É impossível alguém nascer com cabelo platinado. — Lindo, de qualquer jeito— o homem disse embasbacado. — Vamos logo com isso— disse revirando os olhos. — Como quiser bonitão — ele disse rindo.   Segui até o fundo branco infinito.   — Só me deixe ajeitar essa camisa— o homem disse vindo em minha direção e neguei— só vou arrumar ... — ele começou a se explicar. — Ela faz o que quiser, não me toque — disse e apontei para Alves que tinha sua atenção no celular em sua mão provavelmente trabalhando na atualização. — Eu? Ele faz — ela disse rapidamente. — Eu mandei você — disse. Já tenho que passar por essa humilhação, não terei que aturar esse homem tocando em mim. Não me importa a sua desculpa para isso. Ela suspirou e se moveu em minha direção. — O que precisa? — ela perguntou ao fotografo. — Jogue a franja para o lado— Ele disse.              Alves pareceu esperar algo, mas quando isso não aconteceu se aproximou levando seus dedos finos aos meus cabelos evitando me tocar mais que o estritamente necessário. Arrumando-o conforme o fotografo pediu.  — Não, melhor bagunçar. Vai parecer mais natural — o homem comentou encarando-me.              Alves engoliu a seco e fez o que ele pediu se aproximando mais para conseguir mover as duas mãos pelos meus cabelos, bagunçando os fios. Mantive meus olhos presos a sua íris castanha, evitando pensar em como era esquisito ter uma mulher fazendo isso. — Abra alguns botões, os cinco primeiros — o homem comentou. — Eu posso fazer isso eu mesmo — disse e vi Alves ficar aliviada — mas faça — disse apenas para ver a irritação na sua face.              Ela pareceu pensar no que faria e então moveu seus dedos agitados pelos botões. Não sei porque gosto tanto de vê-la desconcertada. Após abrir o segundo botão a mesma suspirou pesadamente como se não conseguisse mais prender a respiração. No terceiro botão seus olhos castanhos encararam os meus quase como se buscando permissão. Ela estava tão embaraçada e isso me deixou feliz por algum motivo. Durante todos esses dias ela apenas estava irritada, mas agora eu não via raiva no seu olhar. — Você se diverte me torturando— ela sibilou. — Muito— confessei.
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