A arrogância precede a queda

1691 Words
            Após o momento um tanto constrangedor, terminei a sessão de fotos e retornei com Alves para o escritório. Agora a garota parecia ainda mais desconfortável e aérea. Ao atravessar a porta do último andar Souza vem em minha direção disparando em tagarelar minha agenda. Esta cuja, eu já possuía conhecimento e que estava completa no meu celular, sendo atualizada em tempo real.   — Já avisei que não precisa me informar minha agenda completa diariamente — Disse a ela que se calou.               Segui para meu escritório, sendo seguido pela Alves.   — Terminou a atualização? — questionei ela. — Estou trabalhando nos detalhes finais — ela disse. — Ainda não terminou?! Deixe-me ver assim mesmo — disse pegando o celular de sua mão. — Grosso— sibilou. — O que disse? — questionei. — Nada — ela disse fingindo distração. — Lembre-se que dentro dessas quatro paredes você realiza todas as minhas vontades — disse.               Dei uma rápida olhada no que ela havia feito. Estava bom, nada demais. Funcionará, é isso que importa. Então voltei a trabalhar no aplicativo e deixei que a mesma terminasse o que começou.             Horas depois, recebo a notificação de e-mail. Como costume vejo o remetente e percebendo que se trata de Pereira, um dos acionistas. “Chegou ao meu conhecimento sobre o vazamento de informações confidenciais. Espero que já esteja resolvendo o assunto”. Vazamento?   — SOUZA — grito e a mesma rapidamente entra em meu escritório. — Sim, senhor? — ela disse fazendo uma reverencia. — Poderia me dizer algo sobre vazamento? — questionei e percebi a mesma ficar nervosa. — Desculpe, senhor. Pensei que já tinha lhe alertado. O Sr. Silva esteve aqui mais sedo encanto estava na entrevista. Ele lhe trouxe um envelope— ela disse. — Quando exatamente pretendia me informar sobre isso? — questionei irritado. — Erro meu, senhor — ela disse correndo para fora da sala retornando segundos depois com o envelope. Abro o mesmo percebendo que se trata do novo aplicativo. Como ela pode se esquecer de algo assim? — Isso não vai se repetir — ela disse envergonhada. — Realmente não vai. Você está demitida. Pegue suas coisas e siga para o R.H. Eu lhes informarei sobre seu caso— disse ainda avaliando as folhas em minhas mãos. — Desculpe, mas, senhor, eu não entendo. Eu juro que jamais cometerei este erro novamente. Eu não sei o que me ocorreu para me esquecer de algo tão importante — ela parecia aponto de começar a chorar.                 Meu celular vibra freneticamente em minha mesa. Vejo surgindo na tela, matérias em sites de fofoca. “I9 tem lista de acordos comerciais vazada”. Eu vendo segurança de dados. Não posso ter meus próprios documentos confidencias vazados. Isso vai ter terríveis consequências e não posso ignorar o fato de que se ela tivesse lidado corretamente com o fato eu poderia ter impedido tudo isso. — Ainda está aqui? Eu já disse recolha suas coisas — disse enquanto digitava um e-mail para o R.H. anunciando a demissão. Junto a isso respondi os acionistas que estavam pânico. Dizendo que cuidaria do assunto imediatamente. Souza abandona minha sala aos prantos, sendo seguida por Alves que se quer me lembrava da presença.             Sigo buscando acalmar o caos que se estabeleceu de e-mails. A cada segundo minha caixa de entrada pipocava em notificações. Logo Alves retorna a minha sala.   — Você não devia ter feito isso, seja lá o que houve não foi culpa dela— Alves disse irritada. Provavelmente compadecida da situação da colega, mas eu não tenho tempo para a empatia. Tenho problemas para resolver e eles não terminaram com está demissão. — Ela cometeu um erro— disse sem interesse em me justificar para ela. — E quem não erra? — ela disse irritada. — Esteja ciente que o simples fato de levantar a voz para mim, já está colocando você a um passo mais próximo de se juntar a ela. Quer se juntar a ela, Alves? — disse voltando meu olhar a garota.               Como o esperado ela se calou. Pegou sua bolsa de um ombro e abandonou minha sala com sua já costumeira cara emburrada, batendo a porta com mais força que o necessário ao sair. Pouco me importei. Segui respondendo os e-mails e analisando os papeis dispostos no envelope.             Minutos depois, o som da porta alertou-me da presença de mais alguém. Imaginando se tratar da emburradinha, segui com minhas tarefas. Acabou que os acionistas decidiram por uma reunião amanhã cedo. Tenho que ter algo para acalmar as feras até lá.   — Espero que tenha se lembrado do seu lugar. Além disso ainda não vi a atualização completa — disse sem levantar os olhos. — Quanta soberba — ouvi a voz desconhecida. Imediatamente levantei o olhar assustando me ao me deparar com a sala vazia.               Era só o que me faltava agora. Estou ouvindo coisas. Deve ser o excesso de trabalho, ou as horas m*l dormidas. Na verdade se tratava da ausência de sono. Tentei me lembrar quando foi a última vez que dormi e quantas horas foram. Acho que já estou a dois dias acordado. Tirei apenas um cochilo de ontem para hoje. Isso com certeza explica alucinações. Apesar disso não me sinto cansado a ponto de meu cérebro começar a apresentar tal sintoma. Passo as mãos pelo rosto nervosamente.   — Sabia que aquela mulher trabalha para você a mais de 5 anos não é? — a mesma voz ecoou pelo cômodo. Abro os olhos buscando sua origem.               Estou completamente lucido. Então isto deve se tratar de alguma pegadinha de mau gosto. Entretanto quem seria o responsável por tal ato.   — Alves? — questionei, porém não obtive resposta.               Segundos de silencio e então uma risadinha rompe o silencio. Bufo. É por isso que não contrato crianças. Ela deve ter achado que seria interessante me dar uma lição. Já que reprova meus atos.   — Isto não tem graça alguma, vamos, acabou o show — disse irritando-me. — Sabe, aquela senhora tinha uma família que dependia de seu salário. Quatro filhos. Mãe solteira — a voz se pronunciou. — Pare de drama Alves. Ela terá o auxílio desemprego. Isso lhe fornecerá uma segurança até que encontre outro emprego — disse começando a perder a paciência. — Ela te amava como a um de seus filhos. Não sente-se envergonhado — a voz ecoou pela sala novamente. — Jamais pedi nenhum sentimento do tipo a ninguém — comentei, analisando o vazio com atenção. Devia ter algum alto-falante em algum lugar... — Bem, talvez você precise mudar de perspectiva para enxergar aqueles ao seu redor melhor — a voz irritante falou.               Disparei pelo meu escritório revirando cada coisa em busca do maldito alto-falante ou alguma caixa de som. Vasculhei as cadeira, o sofá e até removi cada uma de suas almofadas e nada. Não havia, com exceção do meu, nenhum aparelho celular ali também. Alves havia levado consigo aquilo em que estava trabalhando. Questionei-me onde estaria a mesma. Analisei o piso branco e a estante de livros. Nada parecia nem minimamente fora do lugar.             Irritado voltei a minha cadeira. Relaxei o corpo na mesma. Devo estar enlouquecendo mesmo. Talvez esteja com carência de alguma vitamina. Devo passar na farmácia no caminho de casa.             Levei a mão ao rosto novamente me permitindo fechar os olhos e tentar limpar a mente. Ignorar o caos das últimas horas, na verdade dos últimos dias e focar em reorganizar meus pensamentos. Sempre que o lançamento de um novo produto se aproxima minha paciência e alto controle são levados ao limite. Como se o universo estivesse me testando. Claro que isso é uma completa bobagem. É como acreditar em signos e horoscopo. Se você internaliza muito algo isso se torna mais próximo de sua realidade. A ciência já debate a teoria a anos. Isso tudo é só o desdobrando de algo que vem me incomodando.             A recém demissão não seria suficiente, mas talvez conciliada a todos os outros fatores tenham gerado essa consequência inusitada e incomum. Enquanto debatia comigo mesmo sentia um formigamento estranho pelo corpo. Nada realmente incomodo. Porém impossível de se ignorar por completo. Entretanto recuso-me a abrir os olhos e começar a alucinar novamente. Devo organizar meus pensamentos primeiro.             Isso porém não foi possível já que quase imediatamente a esse pensamento, a porta de mogno é aberta, chamando minha atenção. Por ela atravessa uma Alves ainda emburrada. Deve estar frustrada com os desdobramentos de sua brincadeira infantil. Afinal eu não cai em suas bobagens. Duvido que a mesma considerava que eu sentaria em meu lugar e ficaria aqui sem fazer nenhum show perante sua encenação.   — Imagino que tenha cansado de brincar — disse irritado.               A mesma porém não pareceu me ouvir.   — Para onde ele foi? — ela disse passando o olhar muito acima de onde me encontrava. — Olhe para baixo sua anta — disse já extrapolando em irritação. — Um gato — a mesma disse encarando me diretamente com certo espanto e encanto no olhar. Está garota é bipolar. — Eu sei que sou fisicamente atraente, mas não se esqueça que este é um ambiente de trabalho — disse, choque dominou a sua face. Parecia que a mesma acabava de ver um fantasma. — O gato falou — ela disse embasbacada. — Do que está falando i****a — resmunguei sinto-me cada vez mais irritado. — Sr. Lange? — a mesma questionou. — Quem mais séria? — disse irritado, ela mudou de brincadeira então...irritante. Tenho que me livrar dela o mais rápido possível. Esqueça os 3 meses. — Oh meu deus — ela quase caiu para trás — O que aconteceu com você? — ela questionou.               Comigo?                           Olho ao redor notando pela primeira vez como minha mesa aparenta estar muito mais alta e maior. Tudo parece tão grande. Desço meus olhos e quando eles vão as minha mãos, espanto-me ao encontrar no seu lugar patas peludas de um felino. Eu estou dormindo. Isso só pode ser o efeito de um ataque de estresse. Devo ter sido levado as presas a um hospital e as doses de morfina foram exageradas ao ponto de ter sonhos dignos de um drogado.
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