Com certeza estou tendo alguma reação alérgica ao medicamento ou coisa do tipo.
—Isso é inacreditável — Alves verbalizou.
— Inacreditável? Isso é um absurdo! Como poderem deixar um erro médico grotesco deste acontecer logo comigo — disse revoltado— No mínimo farei um processo milionário. Este médico nunca mais vai trabalhar na vida— completei furioso.
—Médico? Que médico? — ela questionou confusa.
—Por que estou alucinando com você, Alves? — perguntei.
—Acho que eu que estou alucinando— a mesma comentou. Levando as mãos em minha direção.
Opa! Que folga é essa?! Sinto a mesma encostar em minha cabeça. Movendo os dedos pelo meu rosto e minha orelha. O que irrita-me profundamente.
—Parece tão real— a mesma verbalizou alisando-me.
— Você deve estar zombando de mim. Quanto tempo mais terei que aturar esse pesadelo— digo.
—Até como um gatinho fofo você é m*l humorado— ela disse revirando os olhos.
— Primeiramente, eu sou seu chefe, então pare de me alisar, sua indecente. Segundo e mais importante, em nenhuma hipótese junte a minha pessoa e a palavra fofo na mesma frase, não importa o contexto— disse irritado.
A mesma caiu na gargalhada.
—Qual o seu problema sua maluca? — questionei.
— E-eu simplesmente não consigo te levar a sério. Olha isso é um gatinho gesticulando. Como está bravo Sr.Lange. Nunca tinha percebido que você gesticulava tanto falando— Alves ri.
Eu não gesticulo falando!
—Olha aqui! Quando eu sair desse pesadelo terei prazer em demitir você— disse e olhei para baixo notando que apontava a pata peluda para a mesma como se fosse minha mão, ou espera, talvez seja.
— Acho que você não devia ser tão marrento sendo tão pequeno— ela disse abaixando para ficar a minha altura de maneira ameaçadora.
—Não duvide das minhas capacidades, Alves imaginaria— disse.
— Relaxa! Eu não faria nada com você. Mesmo estando indefeso— ela disse se afastando — afinal de conta o que aconteceu com você? — questionou.
— Bem a última coisa de que me lembro foi a voz estranha e …— comecei a lembrar-me — É isso! Este deve ter sido o momento em que bati a cabeça ou tive um ataque de estresse e fui levado para o hospital, onde os incompetentes erraram a medicação— conclui.
— Você não foi para hospital nenhum. Você se quer saiu da sua sala— ela disse seriamente.
— Isso seria impossível. Como estaria tendo esse sonho então…— disse.
— Isso não é um sonho ou como estaria o tendo também— ela disse.
— Está sugerindo que isso tudo é real? Nem pensar— disse.
— Então como explica minha presença aqui? — ela questionou.
—Você é um fruto da minha mente querendo me induzir ao erro— disse.
— E o mundo gira ao seu redor— ela disse.
—Teorizando que este seja o mundo real. Em teoria, o que explicaria meu estado atual? — perguntei.
—Nem tudo na vida tem explicação. Coisas sobrenaturais acontecem— ela disse.
— Pensei que fosse mais esperta Alves— disse.
—Sabe outra coisa que explicaria sua mente maluca— ela disse abaixando para ficar a minha altura novamente— Drogas— ela disse.
—Está incinerando que eu utilize entorpecentes? Pois saiba que eu não utilizo nada— disse irritando-me com sua ousadia ao sugerir tal coisa.
— Álcool? Medicamentos? — ela questionou.
— Não e não. Eu não preciso de bobagens para lidar com meu sistema hormonal. Sou completamente racional. Não prejudicaria meu sistema nervoso com uso descontrolado de nada— disse sentindo minha raiva se transformar em uma necessidade estranha de arranhar algo. Não ela, obviamente. Mesmo que sua existência me tire do sério. Eu não sou um Neandertal.
Tudo bem, que vez ou outra, raramente, a***o da cafeína e utilizo energéticos. Porém isso está longe de justificar alucinações tão intensas e desconexas.
— Espera, mesmo que eu tivesse usado qualquer coisa, ou se tivesse sido drogado. Como você estaria dividindo essa alucinação comigo? — questionei.
A mulher me encarou com confusão evidente.
—Alucinações coletivas! Talvez a água ou o café estavam infectados— disse.
— Claro, isso faz bem mais sentido. É muito provável também. Você disse que se lembrava de uma voz? — ela questionou.
—Ah, sua brincadeira não obteve o resultado esperado, não é mesmo— disse tentando zombar da mesma, mas não sei se minha feição demonstrou o pretendido.
— Que brincadeira? — ela questionou parecendo honestamente confusa. Talvez seja apenas uma boa atriz.
—Aquela que fez logo depois de sair emburrada da minha sala mais cedo— disse.
—Quando sai segui Souza até o R.H. Ela chorava muito. Disse que não sabia como cuidaria dos filhos e netos sem esse emprego— Alves disse cruzando os braços, como se estivesse com frio alisou o próprio corpo.
—Você já me disse— disse irritado.
—Que? Eu acabei de falar com ela— Alves disse confusa.
— Tudo bem, vamos teorizar que não era você. Isso significa que existe grandes chances da voz ser a causadora disso— disse analisando as possibilidades.
—O que a voz disse? — Alves questionou.
—Algo sobre mim. Não dei muita atenção. Pensei que se tratava de uma brincadeira— confessei.
— Bem, acho que o segredo deve ser você descobrir o que aconteceu— ela disse.
Mas antes que a respondesse de maneira sarcástica o relógio que a mesma usava soou um som de sino. Provavelmente um alarme. A mesma encarou o relógio.
— Bem, meu expediente acabou— ela disse arrumando a postura e se aprontando para sair.
—Ei! Onde pensa que vai? — questionei.
— Para casa— ela disse como se fosse óbvio.
— Você não pode me deixar aqui assim. Eu se quer alcanço a maçaneta da porta — Disse me exaltando.
— Bem, isso não é problema meu. Afinal você não disse que ia me demitir — Alves disse arrumando a bolsa em seu ombro.
— Espera, espera — chamei ao vê-la me dar as costas — Eu garanto que não te demitirei. Esqueça os três meses, eu vou te dar um cargo permanente. Des que me ajude a voltar ao normal— disse. Mesmo que exista grandes chances de que tudo isso sejam alucinações não correi o risco de ser abandonado aqui sozinho nesta forma.
— Você me dá sua palavra? — ela perguntou desconfiada.
— Eu assino um contrato se quiser. Obvio quando estiver normal — Falei. Claro que quando voltar ao normal não vou mais precisar desta inconveniente.
— Então temos um acordo — Ela disse se abaixando para ficar da minha altura e pegando minha pata como se estivéssemos fechando um acordo. Um luminoso sorriso surgiu em sua face — Sabe, eu teria te ajudado de qualquer jeito— completou.
— O que? — verbalizei.
— Então senhor gênio, qual é o plano? — ela perguntou.
— Bem, não podemos ficar no escritório para sempre. Então me leve para casa — disse.
— Está maluco. Eu não posso ir na sua casa. Primeiro, porque se quer sei onde fica e segundo não acha aleatório sua assistente do nada aparecer na sua casa com um gato sem nenhum sinal seu. Como eu vou entrar? — ela começou a tagarelar sem parar. Seria um incomodo ter que ouvir os questionamentos e as suposições alheias sobre a presença dela em minha casa. Principalmente por que sempre fui muito reservado. O fato de não gostar de estranhos em meu espaço pessoal é o que me mantém vindo ao escritório ao invés de ficar no home office como qualquer programador.
— Está bem, então faremos assim. Você me leva para sua casa— disse.
— De forma alguma. Como vou explicar a presença do meu chefe na minha casa — ela disse e encarrei refletindo novamente se podia considerar ou não aquela forma de vida como inteligente.
— É realmente necessário para você contar esse detalhe? — questionei sugestivo.
— Por que não seria? — ela pareceu confusa. Revirei os olhos e indiquei para mim mesmo — Aahh! Verdade, tinha me esquecido — ela sorriu envergonhada.
Estava pronto para iniciar uma discussão a respeito quando senti suas mão ao meu redor elevando meu corpo. Sinto uma sensação fortíssima de vulnerabilidade.
— Opa! O que está fazendo? — questionei alarmado.
— Vou precisar esconder você. Não posso ser vista com um gato no prédio. Sabe o CEO é um chato que odeia animais — ela disse colocando-me em sua bolsa.
— Há há. Muito engraçado. Para sua informação eu não odeio animais. Eu sou alérgico a pelos— disse.
— Mas que coisa irônica não— Ela disse zombeira.
—Além do mais quem seria o louco que andaria com animais em um ambiente de trabalho — comecei a debater o assunto. Afinal eu sou um ótimo chefe. Minhas regras são bem lógicas.
—Calado — ela disse fechando a bolsa.
Era estranho estar em um espaço tão pequeno, mas inexplicavelmente confortante. Reconheço o som da porta do meu escritório e sinto que a mesma se move pelo corredor. Em segundos escuto o som do elevador e não demora para que o mesmo pare provavelmente na recepção ou pelo menos é o que imaginava.
— Olá — escuto Alves cumprimentar alguém.
— Oi Duda, está tudo bem? O monstro não está sendo m*l com você não é mesmo— escuto uma voz feminina levemente familiar. Logo percebo se tratar de Diana Monteiro do Rh.
— OH, sim, quer dizer, está tudo bem — Alves pareceu sem jeito.
— Já falamos, se precisar de ajuda é só falar. Nós garotas temos que nos unir — reconheci a voz da Fabiana Lopes do TI.
— Eu agradeço, mas eu consigo lidar com isso — Alves pareceu mais decidida.
— Olha, não te culpamos, sabemos como o Lange pode ser terrível. Você viu o que ele fez a pobre Souza. Ela praticamente o viu crescer e o ingrato a demite por um mísero erro. — Monteiro, do RH, comenta. Sinto que uma veia da minha testa poderia ficar proeminente com esta frase, mas perante as condições atuais duvido que isso tenha ocorrido.
— Aquele cara o que tem de gostoso, tem de maldade— este comentário veio de Lopes, do TI.
— Ele simplesmente me mandou demitir a Souza a menos de 1 hora para o fim do expediente. Como se eu fosse conseguir fazer toda a papelada em minutos. Pelo menos o Senhor Silva me compreendeu e permitiu que terminasse o processo amanhã. Por sorte o Sr. Lange não me cobrou sobre o assunto — Monteiro disse.
— Ele continua te mandando fazer o trabalho de mil e uma pessoas Duda? — Lopes questionou.
— Às vezes — ela pareceu envergonhada — Mas não se preocupem — completou rapidamente.
— Vi vocês saindo antes do almoço. Vocês demoraram para retornar — Lopes disse.
— O Sr. Lange tinha uma entrevista, mas não queria perder tempo de desenvolvimento. Nada demais. Apenas demorou mais do que eu esperava — Alves comentou.
— Deve ser por causa desse transito. Parece que a cada dia São Paulo fica pior — Monteiro comentou.
— Na verdade nós fomos no helicóptero da empresa — Alves disse.
— Wow. Gostaria de andar em um desses um dia — Lopes disse animada.
Porém, antes que o assunto fosse mais longe o elevador parou. Para o bem da minha sanidade. Imagino que devemos estar indo para a garagem, mas com o passar do tempo, começo a estranhar ainda não ter ouvido o som de um carro sendo destravado. Curioso, espremo a cabeça por uma pequena a******a na bolsa e observo o mundo externo. Vejo que na verdade estamos do lado de fora e Alves se movimenta em direção ao ponto de ônibus.
— Espera! Cadê o seu carro? — questiono.
— Shiu! — ela empurrou minha cabeça de volta para dentro da bolsa — Eu não tenho carro.
— Como assim? Você tem 24 anos. Como ainda não tem carteira? — estava verdadeiramente confuso.
— Eu tenho, mas não somos todos milionários com muitos carros na garagem — ela informou ranzinza.
— Mas você trabalha na i9. Meus funcionários são bem pagos — disse incomodado.
— Bem, os que estão em cargos altos sim, mas eu sou uma assistente. Além disso, acabei de começar não recebi salário algum ainda— ela disse e me lembrei que ainda não fazia nem um mês que nos conhecemos. Estranhamente me parecia que muito mais tempo tinha se passado.
— Onde você mora afinal? — questionei.
— Calado, não quero parecer uma maluca falando sozinha — ela disse.