Em quatro patas

1515 Words
                  Não demorou muito para que o ônibus chegasse, porém não era um lugar agradável. Tinha muitos cheiros ruins, além de gente aleatória e esquisita. Alves passou o caminho todo de pé, já que o ônibus estava lotado. Mesmo na bolsa eu já estava cansado disso. Quando finalmente saímos daquele lugar terrível, pensei que estava liberto do sofrimento e do cheiro de suor fortíssimo. Pelo contrário saímos do ônibus para seguimos diretamente para o metro. Que superou minhas péssimas expectativas ao respeito se mostrando um lugar ainda pior. Já que a estação tinha cheiro de urina. Tinha lixo no chão, baratas e vozes. Muitas irritantes vozes. Choro de criança e resmungos de malucos.             Alves se encolheu em seu lugar e assim que o metro chegou ela adentrou o transporte. Assumiu um dos poucos lugares vagos deixando a bolsa em frente ao corpo. Não sabia que isso se tratava de cuidado comigo ou medo de assalto. Que horas seriam? Talvez fosse realmente perigoso estar em um transporte público a essa hora. Não tenho nenhuma noção de tempo nesta forma. Percebi uma movimentação inesperada. Porém percebo que se trata de Alves ter levantado para ceder o lugar para uma senhora desconhecida. Ela não era uma idosa não havia necessidade disso, mas eu não questionaria em público.             Minutos mais tarde, finalmente caminhávamos pela rua. Eu não sabia se devia me sentir feliz, de não ser mais obrigado a sentir tantos cheiros horríveis, ou me preocupar com o fato de estar escuro e ela caminhar pela cidade aparentemente sozinha. Os pontes não fornecerem grande iluminação e os sons altos permaneceram. Olhava pela fresta do zíper da bolsa e a aparência daquele local não me agradava nem um pouco. As pessoas esquisitas, m*l vestidas e m*l encarradas. A maioria olhava meio de lado para ela, por vezes olhavam torto. Pensei na possibilidade de dois homens em uma moto surgirem do nada e a assaltarem. Me espantei a considerar que a possibilidade não era tão remota como deveria ser. Não faço ideia de onde estamos. Nunca me incomodei com o fato de não saber o nome de todas as ruas de São Paulo, afinal podia ver no GPS. Porém me questionei pela primeira vez como é esquisito me sentir perdido na cidade que morei a vida toda. Alves parecia familiarizada com a região. Não tranquila. Mas familiarizada. Vejo em uma das placas o nome da rua. Forço a memória e o máximo que consigo é supor que estamos na região noroeste da cidade.             As ruas se tornaram mais movimentadas por crianças e famílias. Questiono-me se eles deviam estar fora de casa a essa hora, mas se seus pais não se importam quem sou eu para julgar. Escuto Alves dar alguns cumprimentos singelos direcionados a duas crianças e uma velha. Logo, ela se aproxima de uma casa de tijolos expostos, não de maneira proposital mas como serviço inacabado, com a massa corrida sem acabamento em algumas áreas, um portam de barras grossas de ferro lembram uma prisão. Um uno antigo se encontra na garagem. Sinto suas mãos invadirem a bolsa e reclamo. — Desculpa, esqueci-me de você — Ela disse e não a respondi.               Dei uma rápida olhada ao redor encontrando ao meu lado uma chave com mais chaveiros do que chaves. Lhe ofereci o objeto e a mesma a pegou sibilando um agradecimento antes de leva-la a fechadura. A casa da frente tinha as janelas gradeadas abertas permitindo ver o homem de meia-idade que se encontrava sentado no sofá. Também era possível ouvi-lo xingar sozinho, levando a conclusão que o mesmo falava com televisão. Havia uma porta que deve dar acesso aquela sala, porém Alves passou direto por ela. Continuamos seguindo pelo corredor lateral, passando por uma janela onde uma mulher gritava com a filha adolescente sem se importar que provavelmente o bairro todo podia ouvi-la.             Percebi que ali atrás da primeira casa continha uma escada que levava a outra casa. Está que diferente da primeira possuía acabamento que escondia os tijolos e uma pintura amarela que apesar de inteira possuía manchas e áreas descascando. Era tão diferente da anterior que cheguei me questionar se o acesso único ali era realmente apenas o portão de ferro pelo qual passamos. Alves não subiu a escada, ela seguiu em frente pelo corredor e parou em frente a porta de madeira a frente. Percebi que o corredor porém segui-a e questionei-me quantas casas podiam existir ali.             Meus pensamentos focaram novamente em Alves, quando a mesma, depois de perder alguns segundos, conseguiu destrancar a porta a sua frente. Ela adentrou o local sendo recebida por uma mulher mais velha que ela. A semelhança das duas era óbvia, porém era difícil saber se aquela era sua mãe ou irmã. O cheiro se tornou mais agradável e tomei conhecimento que nos encontrávamos na cozinha.   — Chegou — a mulher disse sem nenhum animo. — Sim, mãe — Alves sessou minhas dúvidas.               A mulher me parecia jovem demais para ter uma filha de 24 anos. O que indicava duas possibilidades, ou ela é bem cuidada, ou foi mãe sedo demais. Julgando o bairro que nos encontrávamos imaginei se tratar da segunda opção. Quando mais duas crianças surgiram correndo pela cozinha, está ideia se reforçou em minha mente. Alves cumprimentou os irmãos animadas e começou a se mover.   — Onde pensa que vai? — a voz da mãe dela era de irritação. — Para o meu quarto — Alves disse docemente. Questionei onde estava a altiva que sempre me enfrentava. — Não demore. Você tem que troca-los— a mulher apontou os dois meninos. — Tudo bem, apenas tenho que trocar de roupa— ela disse. — Não esqueça de fazer, o arroz e se quiser usar aquele vestido amanhã. Acho melhor que o lave, você mesma. Você fica toda cheia de frescura com essas suas roupas — a mãe dela comentou. — Não é frescura. Eu paguei caro nelas — Alves respondeu, ainda mantendo um tom doce demais para meu gosto. — Espero que essa bosta desse emprego, te de algum dinheiro. Até agora só vi você gastando. Para que essas roupas. Eles não tem um uniforme? Que tipo de empresa grande e famosa não tem um uniforme — a mulher comentou irritada. — Mãe, não é o tipo de lugar que as pessoas usam uniforme — Alves comentou pacientemente. — Tanto faz, vai logo — a mulher disse e tratou de dar atenção aos dois meninos que ainda corriam na cozinha com dinheiro de papel nas mãos. Corrigindo, dinheiro de papel claramente falso. — Mamãe, vem jogar Imobiliário com a gente— o menor pediu.               Ele quer dizer Monopoly? Não pude me certificar, Alves seguiu pelo corredor passando por uma porta de um quarto pequeno aberto e depois por um banheiro depois pela sala. Que planta mais esquisita. Essa casa não tem logica alguma. Quando Alves entrou no quarto e colocou a bolsa em cima de uma cama. Ela abriu a mesma com uma feição preocupada.   — Você ainda está vivo, que bom — ela disse suspirando aliviada e um silencio constrangedor se instalou — Desculpe pela minha mãe, ela não sabe o que diz— ela disse.                   Após alguns segundos percebi que além da cama onde nos encontrávamos havia no apertado cômodo uma beliche. Ela divide o quarto com os irmãos, nessa idade. Quer dizer, ela ainda mora com os pais. Pior de tudo, este quarto é menor que meu escritório. Isso se a casa completa não for. Talvez esteja exagerando, mas não imaginei que ela era tão pobre.   — Você perdeu a capacidade de falar? Talvez só eu que tenha ficado doida— ela disse encarando-me. — Não, ou talvez esteja, no caso seriamos dois malucos — disse e percebi que ela conteve a risada. —Você se importa de esperar aqui, quietinho. Minha mãe não pode ver você. Ela não é fã de animais — Alves pareceu suplicar. — Duvido que ela não goste de um gato falante, mas fique tranquila. Serei imperceptível — disse. — Obrigada — ela disse levantando-se da cama em um salto.                   Ela abriu uma cômoda que se encontrava no canto ao lado da porta pegando algo dentro dela e partindo. Meus olhos viajaram pelo quarto todo. Debaixo das camas havia uma caixa de plástico transparente contendo o que imaginei serem brinquedos. Nas paredes estavam dispostas várias colagens que iam de adesivos de bichinhos a imagens impressas em folhas sulfite e pôsteres de bandas e filmes. Não conhecia nenhum deles. A única coisa reconhecível para mim era Alves em cinco das sete imagens. Ela se encontrava sozinha em uma delas, sorrindo com uma flor aleatória no cabelo. Em outra ela estava ao lado de três garotas de sua faixa etária em alguma festa. Imaginei se tratar de suas amigas. Na imagem ao lado, ela estava com os irmãos, sendo que um deles ainda era um bebé. Ao lado desta se encontrava a imagem ao lado de um garoto. Perguntei-me se seria este o namorado dela? Havia mais uma foto com pessoas aleatórias e duas de seus irmãos sem a presença dela.
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