Inadequada

2001 Words
Os dias se passavam quase sem que nada ocorresse de diferente, mesmo com o casamento estando tão perto da data, os dias de Sauvage se dividiam em acordar antes do amanhecer e orar com seu pai antes de se dirigirem para o escritório. Enquanto Dinís resolvia os assuntos do clã, a jovem ficava sentada em uma mesa, próxima a ele, no escritório estudando tudo sobre política, estratégia, filosofia e o que, mas seu pai e o tutor que lhe visitava três vezes na semana lhe ensinavam alegremente. Sauvage era muito inteligente e esforçada, aprendia tudo de forma fácil, sentia falta de ter outros materiais para ler e sentia-se limitada algumas vezes em seus conhecimentos, porém mantinha suas queixas para si e seus companheiros felinos. As tardes, Sauvage mantinha-se treinando com seu pai e os soldados, desejava que em algum momento Marcel viesse novamente treinar, mas aquilo não aconteceu mais. Dinís estava orgulhoso da habilidade da filha com a espada, era até mesmo mais hábil que Arthur, seu primogênito. A garota não possuía medo dos adversários, enfrentava e vencia fosse quem fosse, demonstrava habilidades com montaria e caçada também. Era como as Sauvage da lenda, uma mulher que jamais dependeria de um homem para se proteger ou sobreviver, aos olhos de Dinís era a herdeira perfeita para seu clã, o povo a amava e a respeitava, poderia morrer tranquilo e deixar seu povo aos cuidados daquela matriarca, com a certeza de que Sauvage os protegeria. Marcel não deixou de ir até às terras do Clã Bienveillant, mas cada vez que lá chegava, Clara e as mulheres de sua família o cercavam. A jovem havia obviamente percebido o interesse do noivo pela bela filha do patriarca, mas estava decidida que colocaria Sauvage em seu lugar, ninguém lhe tiraria Marcel, apenas desistiria dele se Henry a pedisse em casamento. Algumas vezes, Marcel observava Sauvage e as outras mulheres costurando e bordando, às vezes tinha sorte de vê-la apenas acompanhada de seus dois felinos e brincando com as crianças, mas sempre se mantinha longe, não podia confiar em suas ações perto dela. As noites, Sauvage se juntava à mãe e às outras mulheres do clã para costurar e bordar o enxoval de Inês. Aquela era a tradição em Lívia, o clã do noivo oferecia o enxoval para a noiva. Aquelas noites, as mulheres conversavam sobre amenidades, as mais velhas contavam casos engraçados, as que estavam noivas falavam de seus relacionamentos e de suas expectativas com matrimônio e as solteiras dividiam seus sonhos românticos em encontrar um homem valoroso e honrado. Sauvage estava curiosa sobre Clara, mas a moça raramente se sentava com o grande grupo, normalmente preferia ficar sentada perto da irmã e de duas amigas, conversavam baixo entre elas e às vezes risos altos eram ouvidos em suas conversas. Sauvage não se importava por pensar que se tratava apenas de timidez por parte de Clara, até aquela noite, em que Júlia, uma mulher de meia-idade, perguntou tão curiosa quanto Sauvage e a maioria das mulheres do clã. Todas tinham a mesma curiosidade, o futuro casamento com Marcel. Júlia questionou divertida: — Então, logo teremos outra festa de casamento, não é mesmo, Clara? Quando será a cerimônia com o seu Salazar? A moça de rosto bonito, como o de uma boneca de porcelana, levantou os olhos para as demais, olhando de cima do ombro, soltou um riso baixo, respondendo: — Por Marcel nos casaríamos hoje mesmo, mas ainda gostaria de esperar um pouco... Júlia sorriu alfinetando: — Esperar o quê? O patriarca Salazar decidir casar-se com você? Menina, se continuar irá perder o Salazar que está em sua mão... As mulheres riem em uníssono e Clara também ri constatando: — Até agora, os deuses estão ao meu favor, não é? Da humilhada amante do patriarca Salazar, me tornei a respeitável noiva do próximo patriarca... — Cuidado, sua sorte pode ter fim uma hora ou outra... — Qual o problema, senhora Júlia? Tudo isso é inveja porque nenhum homem a quis enquanto era jovem? Apenas lhe restou ser essa velha solteirona e amarga... Rose se intrometeu, alertando: — Clara, tenha mais respeito com Júlia. Todas sabemos por que ela não se casou. Não tolerarei isso em minha casa, senhorita. Clara fez uma expressão de desprezo, levantando-se rapidamente e ajeitando a saia, disse olhando para sua irmã e as amigas, revirando os olhos: — Perdoe-me, matriarca. Preciso ir agora, estou um pouco cansada... Rose assentiu com sua cabeça, sem sequer olhar para o grupo de mulheres que saíram debochando do que havia ocorrido. Sauvage observava aquela situação, olhou para o rosto da mãe, mas Rose apenas preferia ignorar as atitudes de Clara, era aquilo que a paciente matriarca do clã fazia, jamais discutia ou entrava em disputas, apenas ignorava. Sauvage tentou se imaginar no lugar da mãe, não sabia como agiria se ela fosse a matriarca, voltou seus olhos para o bordado, aquela não seria uma preocupação que precisaria ter, jamais haveria um homem que a pediria em casamento, jamais herdaria o matriarcado de sua mãe, aquela seria herança de Arthur ou de um de seus inúmeros filhos. Suspirou cansada, sentindo Marrant acariciar sua panturrilha com a cabeça, antes de correr atrás de um dos novelos de algodão que as mulheres usavam para fiar, riu do felino brincalhão e da luta da mulher para salvar o novelo das grandes patas ágeis, sem muito sucesso. Os dias passaram rápido, já era o dia do casamento e da festa, todo o clã estava envolvido nos preparativos para aquela cerimônia, os clãs vizinhos também estariam presentes para presenciar aquela união. Rose contava com a ajuda de Sauvage para organizar as tarefas das servas e a recepção dos convidados. Darlan passou o dia em seu quarto, não tinha interesse em conversar com ninguém. Sauvage estava ocupada com as tarefas que sua mãe a havia incumbido quando Dinís entrou na casa principal, procurou a filha com os olhos, mas a jovem o percebeu primeiro e foi em sua direção questionando gentilmente: — Algo errado, meu pai? — Nada de errado, apenas vim pedir que me acompanhasse. Iremos à casa para onde seu irmão e a esposa residirão. — Claro, pai. Levaremos alguns guerreiros conosco? — Sim, embora não acredite que haja algum risco. Avise sua mãe, não iremos nos demorar. Sauvage fez um sinal positivo com a cabeça e saiu rapidamente para avisar a mãe que se ausentaria um pouco para acompanhar o pai, Rose apenas sorriu e assentiu. A jovem subiu até o quarto, pegou seu arco e flechas, a espada e chamou o casal de felinos preguiçosos que haviam passado a tarde dormindo no quarto. Desceu rapidamente para se encontrar com seu pai e seus homens. Com eles, levaram uma pequena carroça com alguns itens que ainda faltavam na casa, não demoraram muito a chegar, a casa que Darlan e sua esposa ocuparia não ficava distante das terras de Dinís, era apenas necessário cruzar as terras do Clã Salazar e lá estava o belo pedaço de terra verdejante. Sauvage desceu rapidamente, seguida pelo casal de onças e assim que cruzou as portas de entrada ouviu a voz de Clara, ficou parada ouvindo a conversa dela com as demais mulheres. Clara riu dizendo: — Essa louça é realmente muito bonita... Ao menos a roliça terá coisas bonitas para se entreter enquanto o marido procura diversão em outros lugares... — Não sei como o patriarca aceitou o casamento de Darlan com aquela porca... Ela é nojenta. Sauvage estreitou os olhos. Inês não era nenhuma porca, bem pelo contrário era uma pessoa muito agradável e gentil, ouviu outra dizer exagerada: — Pobre Darlan... Que castigo horrível... — Meyre?! Por favor, uma noiva mais bonita para Darlan seria um desperdício... Sabemos que ele jamais irá tocar um dedo na esposa... Exceto se ela fosse um belo jovem. Todas gargalham, Clara acrescenta: — Se a filha do patriarca não fosse irmã dele, seria perfeita para a posição... — É, poderia... Dizem que o patriarca a achou abandonada no mato como um animal. — Acredito que nem mesmo Darlan se interessou naquela b***a. Coitadinha, jamais arranjará ninguém que se interesse por ela... Meyre reflete um pouco dizendo: — Não que a filha do patriarca seja uma mulher feia, mas ela é tão grosseira e desajeitada... Muitos homens poderiam desejá-la em sua cama, mas para ser a senhora de sua casa... Não, aí seria demais. — Querê-la na cama? Com aquela pele escura que parece estar morrendo? Não me faça rir, nenhum homem teria coragem... Sauvage estava em silêncio na soleira da porta imóvel, olhando para o chão e ouvindo o que as mulheres de seu clã falavam sobre ela. Enquanto riam e a imitavam, Dinís aproximou-se da filha para verificar do que se tratava e ouviu o que elas diziam. Antes que pudesse se aproximar, ouviu o esturro do par de onças velozes indo na direção das mulheres que estavam se divertindo, mas foi Foncé que subiu sobre a mesa, ostentando os assustadores caninos para Clara, a jovem apavorada tentou espantá-la derrubando a mesa, mas a furiosa onça apenas bateu com uma de suas patas, acertando a lateral do rosto dela, causando lhe um grande ferimento, enquanto ela gritava e as demais mulheres se desesperavam correndo e gritando. Para a surpresa de Dinís, que imaginava que a filha sairia correndo e chorando ou acudiria as garotas, ela apenas olhou na direção dos grandes felinos, dizendo como se nada de mais estivesse acontecendo: — Foncé! Marrant! Não temos tempo para isso agora, vamos. Sauvage subiu para o segundo andar, seguida pelos dois felinos e nem sequer entrou no cômodo onde as mulheres gritavam. Dinís ficou surpreso com a frieza que a filha tratou as mulheres, ele foi até o local onde as garotas gritavam vendo o ferimento no rosto de Clara, a moça tremia tentando estancar o sangue de seu ferimento. Dinís olhou o grupo, uma delas veio na direção do patriarca gritando: — Senhor, precisa fazer algo, uma daquelas feras que andam com sua filha fugiu e nos atacou... — Os gatos de Sauvage são inofensivos... Tem certeza de que não os provocaram? — Não, meu senhor, estávamos apenas trabalhando... — Devo deixar claro que ouvi o que diziam sobre minha filha... Sauvage também. A mulher abriu e fechou a boca, seu rosto ficou vermelho, ela baixou seus olhos para o chão e saiu da frente do patriarca do clã. Nesse momento, Sauvage parou novamente na porta de entrada da casa avisando ao pai: — Está tudo em ordem, meu pai. Necessita de mim para algo mais? — Não, pode voltar para casa. Ela fez um sinal de positivo indo na direção de sua montaria, deixando que o par de onças fosse correndo pelo chão. Antes de sair, falou com um dos homens de seu pai, pediu-lhe que desse uma olhada aos arredores da casa para ter certeza de que tudo estava certo. À medida que cavalgava, a cabeça de Sauvage se esvaziava, os filhos do patriarca eram apenas uma piada para seu próprio clã, suspirou pensando o que os demais clãs deveriam pensar e dizer deles pelas costas. Assim que chegou na casa principal, subiu para seu quarto, ficou sentada no chão, em frente a porta. Na hora do casamento ouviu as batidas em sua porta, respondeu: — O quê? — Sauvage, estamos aguardando que venha para o casamento de seu irmão. — Claro... Disse ela, se levantando lentamente do chão. Seu rosto não demonstrava o quanto estava magoada com as pessoas de seu clã, desceu alguns degraus da escada, ficou observando a cerimônia. Inês estava radiante em um belo vestido branco, a coroa de flores brancas enfeitava sua cabeça, deixando os cabelos castanhos ainda mais belos, suas bochechas estavam ruborizadas. O olhar de Darlan para ela demonstrava afeição, seu irmão não parecia indiferente à noiva. Assim que a cerimônia terminou, Sauvage voltou para seu quarto, não tinha ânimo para comemorar nada. As duas onças nada lhe disseram apenas a observaram até que ela adormeceu.
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