Capítulo 12 – A Voz do Passado

1316 Words
O sol subia preguiçoso no horizonte, tingindo o céu de dourado e cobre. O rio murmurava baixo, e o vento frio fazia o casaco de Valéria dançar como um lençol leve. Arkan se afastou da ponte e caminhou até o carro parado a poucos metros dali. Pegou uma pequena caixa de madeira no banco de trás — antiga, com as bordas desgastadas e o brasão da família Demir gravado no tampo. Valéria o observava, curiosa. — O que é isso? — Era da minha mãe — respondeu ele, abrindo com cuidado. Dentro, havia um colar simples com um pingente em forma de olho turco, um retrato desbotado e um envelope amarelado. — Eu nunca consegui abrir isso antes — confessou Arkan. — Ela morreu quando eu tinha treze anos. Meu pai guardou tudo, mas Mehmet conseguiu recuperar quando ele achou que ninguém mais se importava. Valéria tocou o retrato com delicadeza. A mulher na foto era bela, de olhos claros e sorriso sereno. — Ela parece… em paz. — Era o que dizia ser o amor — respondeu Arkan, com um sorriso triste. — Paz. Ele abriu o envelope. Dentro, havia uma carta escrita em uma caligrafia elegante, mas trêmula pelo tempo. Arkan respirou fundo e começou a ler em voz alta: --- "Meu querido Arkan, Se esta carta chegar até você, é porque eu já não posso estar ao seu lado. Há verdades que o tempo tenta esconder, mas que o amor insiste em revelar. Antes de conhecer seu pai, eu amei alguém. Um homem que lutava contra o sistema que sustentava famílias como a dos Demir. Ele era estrangeiro, um sonhador, e acreditava que o amor podia mudar o mundo. Eu também acreditei. Mas esse amor custou caro. Seu avô nos separou, e aquele homem foi embora levando apenas uma promessa: que um dia protegeria a mulher e a filha que eu deixei para trás. O nome dela era Paula Mancinni. Ela era como uma irmã para mim, uma mulher com fogo no olhar e bondade no coração. Quando tudo desmoronou, pedi a ela que fugisse. E pedi a Mehmet que garantisse que você, meu filho, nunca esquecesse o que significa amar de verdade. Se algum dia você encontrar alguém que te faça sentir o mesmo que senti por aquele homem… não a perca por medo, nem a destrua por orgulho. O amor é o único legado que vale a pena herdar. Com todo o meu coração, Sua mãe, Leyla Demir." --- O silêncio que se seguiu era quase sagrado. O som distante do rio, o vento entre as árvores, e o bater acelerado de dois corações. Valéria piscou, sentindo as lágrimas escaparem. — Paula Mancinni... Arkan assentiu, com a voz embargada. — Era sua mãe. — Isso significa que… — ela hesitou. — Nossos destinos estavam ligados antes mesmo de nascermos. — Sim — respondeu ele. — E que talvez o que estamos vivendo agora não seja coincidência. Ela se sentou na beira da ponte, o olhar perdido no horizonte. — Minha mãe nunca me contou nada. — Talvez estivesse tentando te proteger — disse Arkan, sentando-se ao lado dela. — Ou tentando proteger você — murmurou Valéria. Arkan se virou para encará-la. — O que quer dizer? — Se o seu pai soubesse que minha mãe ajudou a mulher que ele amava… talvez o ódio dele não fosse apenas contra mim. Talvez fosse contra a lembrança do que ele perdeu. Ele ficou em silêncio, refletindo. As palavras dela faziam sentido — um sentido c***l, mas verdadeiro. --- Horas depois, eles estavam na antiga hospedaria que Mehmet mencionara. O lugar era simples, com paredes de pedra e o aroma suave de chá de maçã no ar. Uma mulher idosa, de lenço colorido e olhos gentis, os recebeu. — Vocês são os amigos de Mehmet? — perguntou. — Sim — respondeu Valéria. — Então estão seguros aqui — disse ela, abrindo um sorriso. — Nada de homens maus atravessa esta porta. Arkan agradeceu com um leve aceno, e eles subiram para o pequeno quarto no andar de cima. Lá dentro, a luz do fim da tarde entrava em tons alaranjados. Valéria sentou-se na cama e tirou o colar do bolso. — O olho turco — murmurou. — Dizem que protege contra a inveja e o m*l. — Minha mãe usava o tempo todo — respondeu Arkan. — Ela acreditava que o amor também precisava de amuletos. Ela o observou por um momento. — Você acredita nisso? Ele deu um meio sorriso. — Não. Eu acredito em pessoas. — Pessoas erram. — Justamente por isso — respondeu ele, aproximando-se —, é nelas que o amor faz mais sentido. Ela ficou em silêncio, sentindo o coração apertar. Ele a tocou no rosto, os dedos deslizando até o queixo. — Eu prometi a mim mesmo que não deixaria o passado decidir por nós — disse Arkan. — E eu não vou. — Mesmo que isso signifique enfrentar seu pai? — Mesmo que isso signifique enfrentar o mundo inteiro. O beijo veio devagar, como uma prece dita em silêncio. Mas, dessa vez, havia algo diferente — não era só paixão, era um pacto. --- Naquela mesma noite, em Istambul, Elif entrou no escritório de Kemal sem ser anunciada. Ele estava diante da janela, olhando para a cidade iluminada. — O senhor mandou eles morrerem, não é? — perguntou ela, fria. Kemal virou-se devagar, o olhar glacial. — Cuidado com o tom, Elif. — Eu vi as mensagens. — A voz dela tremia. — Eu vi as instruções que o senhor deu. — Você está me espionando agora? — Estou tentando impedir que o senhor destrua o próprio filho! Kemal caminhou até ela. — Você não entende. Ele destruiu a si mesmo quando escolheu aquela mulher. — Não! — Ela deu um passo à frente, a raiva tomando conta. — Ele apenas escolheu amar alguém de verdade. Kemal a olhou com desprezo. — Amor é fraqueza. — Amor é o que a sua esposa teve por você! — gritou Elif. — E o que você nunca foi capaz de devolver! Por um instante, o silêncio tomou o ar. Apenas o tique-taque do relógio preencheu o espaço entre eles. Kemal respirou fundo. — Cuidado, menina. Há linhas que não podem ser cruzadas. Elif ergueu o queixo. — Já cruzei faz tempo. Ela virou-se e saiu, o som dos saltos ecoando no corredor. Lá fora, o ar noturno a envolveu, e ela pegou o celular com as mãos trêmulas. Digitou uma mensagem curta e hesitou antes de enviar: > "Eles vão te encontrar. Saia daí. — E" De volta à hospedaria, Valéria acordou com o som de uma notificação no celular. A tela piscava com o número desconhecido. Ela abriu a mensagem e sentiu o sangue gelar. Arkan, sonolento, levantou-se. — O que foi? Ela mostrou o celular. — “Eles vão te encontrar. Saia daí.” Ele pegou o aparelho, os olhos se estreitando. — Quem enviou isso? — Não sei… mas acho que é alguém que não quer nos ver mortos. Arkan pensou por um instante e, sem dizer nada, começou a arrumar as coisas. — Vamos sair agora. — Arkan, o sol ainda nem nasceu! — Justamente por isso. Ela o olhou, tentando conter o medo. — Pra onde vamos? Ele parou por um instante, encarando-a com firmeza. — Para o único lugar onde meu pai jamais procuraria. — Onde? — A casa da minha mãe. Enquanto o carro se afastava pela estrada, Valéria olhou pelo retrovisor. O céu começava a clarear, e por um momento, ela pensou ver o reflexo de alguém observando da colina — uma silhueta solitária, de lenço e olhos marejados. Era Elif. E, quando o carro desapareceu no horizonte, ela murmurou baixinho: — “Talvez ainda haja tempo para salvar o que resta.” Mas o tempo, como o amor, raramente espera.
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