O sol subia preguiçoso no horizonte, tingindo o céu de dourado e cobre.
O rio murmurava baixo, e o vento frio fazia o casaco de Valéria dançar como um lençol leve.
Arkan se afastou da ponte e caminhou até o carro parado a poucos metros dali.
Pegou uma pequena caixa de madeira no banco de trás — antiga, com as bordas desgastadas e o brasão da família Demir gravado no tampo.
Valéria o observava, curiosa. — O que é isso?
— Era da minha mãe — respondeu ele, abrindo com cuidado.
Dentro, havia um colar simples com um pingente em forma de olho turco, um retrato desbotado e um envelope amarelado.
— Eu nunca consegui abrir isso antes — confessou Arkan. — Ela morreu quando eu tinha treze anos. Meu pai guardou tudo, mas Mehmet conseguiu recuperar quando ele achou que ninguém mais se importava.
Valéria tocou o retrato com delicadeza.
A mulher na foto era bela, de olhos claros e sorriso sereno.
— Ela parece… em paz.
— Era o que dizia ser o amor — respondeu Arkan, com um sorriso triste. — Paz.
Ele abriu o envelope. Dentro, havia uma carta escrita em uma caligrafia elegante, mas trêmula pelo tempo.
Arkan respirou fundo e começou a ler em voz alta:
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"Meu querido Arkan,
Se esta carta chegar até você, é porque eu já não posso estar ao seu lado.
Há verdades que o tempo tenta esconder, mas que o amor insiste em revelar.
Antes de conhecer seu pai, eu amei alguém. Um homem que lutava contra o sistema que sustentava famílias como a dos Demir. Ele era estrangeiro, um sonhador, e acreditava que o amor podia mudar o mundo. Eu também acreditei.
Mas esse amor custou caro. Seu avô nos separou, e aquele homem foi embora levando apenas uma promessa: que um dia protegeria a mulher e a filha que eu deixei para trás.
O nome dela era Paula Mancinni.
Ela era como uma irmã para mim, uma mulher com fogo no olhar e bondade no coração. Quando tudo desmoronou, pedi a ela que fugisse. E pedi a Mehmet que garantisse que você, meu filho, nunca esquecesse o que significa amar de verdade.
Se algum dia você encontrar alguém que te faça sentir o mesmo que senti por aquele homem… não a perca por medo, nem a destrua por orgulho.
O amor é o único legado que vale a pena herdar.
Com todo o meu coração,
Sua mãe,
Leyla Demir."
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O silêncio que se seguiu era quase sagrado.
O som distante do rio, o vento entre as árvores, e o bater acelerado de dois corações.
Valéria piscou, sentindo as lágrimas escaparem. — Paula Mancinni...
Arkan assentiu, com a voz embargada. — Era sua mãe.
— Isso significa que… — ela hesitou. — Nossos destinos estavam ligados antes mesmo de nascermos.
— Sim — respondeu ele. — E que talvez o que estamos vivendo agora não seja coincidência.
Ela se sentou na beira da ponte, o olhar perdido no horizonte. — Minha mãe nunca me contou nada.
— Talvez estivesse tentando te proteger — disse Arkan, sentando-se ao lado dela.
— Ou tentando proteger você — murmurou Valéria.
Arkan se virou para encará-la. — O que quer dizer?
— Se o seu pai soubesse que minha mãe ajudou a mulher que ele amava… talvez o ódio dele não fosse apenas contra mim. Talvez fosse contra a lembrança do que ele perdeu.
Ele ficou em silêncio, refletindo.
As palavras dela faziam sentido — um sentido c***l, mas verdadeiro.
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Horas depois, eles estavam na antiga hospedaria que Mehmet mencionara.
O lugar era simples, com paredes de pedra e o aroma suave de chá de maçã no ar.
Uma mulher idosa, de lenço colorido e olhos gentis, os recebeu.
— Vocês são os amigos de Mehmet? — perguntou.
— Sim — respondeu Valéria.
— Então estão seguros aqui — disse ela, abrindo um sorriso. — Nada de homens maus atravessa esta porta.
Arkan agradeceu com um leve aceno, e eles subiram para o pequeno quarto no andar de cima.
Lá dentro, a luz do fim da tarde entrava em tons alaranjados.
Valéria sentou-se na cama e tirou o colar do bolso.
— O olho turco — murmurou. — Dizem que protege contra a inveja e o m*l.
— Minha mãe usava o tempo todo — respondeu Arkan. — Ela acreditava que o amor também precisava de amuletos.
Ela o observou por um momento. — Você acredita nisso?
Ele deu um meio sorriso. — Não. Eu acredito em pessoas.
— Pessoas erram.
— Justamente por isso — respondeu ele, aproximando-se —, é nelas que o amor faz mais sentido.
Ela ficou em silêncio, sentindo o coração apertar.
Ele a tocou no rosto, os dedos deslizando até o queixo.
— Eu prometi a mim mesmo que não deixaria o passado decidir por nós — disse Arkan. — E eu não vou.
— Mesmo que isso signifique enfrentar seu pai?
— Mesmo que isso signifique enfrentar o mundo inteiro.
O beijo veio devagar, como uma prece dita em silêncio.
Mas, dessa vez, havia algo diferente — não era só paixão, era um pacto.
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Naquela mesma noite, em Istambul, Elif entrou no escritório de Kemal sem ser anunciada.
Ele estava diante da janela, olhando para a cidade iluminada.
— O senhor mandou eles morrerem, não é? — perguntou ela, fria.
Kemal virou-se devagar, o olhar glacial. — Cuidado com o tom, Elif.
— Eu vi as mensagens. — A voz dela tremia. — Eu vi as instruções que o senhor deu.
— Você está me espionando agora?
— Estou tentando impedir que o senhor destrua o próprio filho!
Kemal caminhou até ela. — Você não entende. Ele destruiu a si mesmo quando escolheu aquela mulher.
— Não! — Ela deu um passo à frente, a raiva tomando conta. — Ele apenas escolheu amar alguém de verdade.
Kemal a olhou com desprezo. — Amor é fraqueza.
— Amor é o que a sua esposa teve por você! — gritou Elif. — E o que você nunca foi capaz de devolver!
Por um instante, o silêncio tomou o ar.
Apenas o tique-taque do relógio preencheu o espaço entre eles.
Kemal respirou fundo. — Cuidado, menina. Há linhas que não podem ser cruzadas.
Elif ergueu o queixo. — Já cruzei faz tempo.
Ela virou-se e saiu, o som dos saltos ecoando no corredor.
Lá fora, o ar noturno a envolveu, e ela pegou o celular com as mãos trêmulas.
Digitou uma mensagem curta e hesitou antes de enviar:
> "Eles vão te encontrar. Saia daí. — E"
De volta à hospedaria, Valéria acordou com o som de uma notificação no celular.
A tela piscava com o número desconhecido.
Ela abriu a mensagem e sentiu o sangue gelar.
Arkan, sonolento, levantou-se. — O que foi?
Ela mostrou o celular. — “Eles vão te encontrar. Saia daí.”
Ele pegou o aparelho, os olhos se estreitando. — Quem enviou isso?
— Não sei… mas acho que é alguém que não quer nos ver mortos.
Arkan pensou por um instante e, sem dizer nada, começou a arrumar as coisas.
— Vamos sair agora.
— Arkan, o sol ainda nem nasceu!
— Justamente por isso.
Ela o olhou, tentando conter o medo. — Pra onde vamos?
Ele parou por um instante, encarando-a com firmeza. — Para o único lugar onde meu pai jamais procuraria.
— Onde?
— A casa da minha mãe.
Enquanto o carro se afastava pela estrada, Valéria olhou pelo retrovisor.
O céu começava a clarear, e por um momento, ela pensou ver o reflexo de alguém observando da colina — uma silhueta solitária, de lenço e olhos marejados.
Era Elif.
E, quando o carro desapareceu no horizonte, ela murmurou baixinho:
— “Talvez ainda haja tempo para salvar o que resta.”
Mas o tempo, como o amor, raramente espera.