Capítulo 11 – No Limiar do Perigo

1327 Words
A madrugada em Bursa trazia uma quietude enganosa. O vento soprava entre as oliveiras, balançando os galhos como se a natureza sussurrasse segredos antigos. Lá dentro, na casa de pedra, Arkan dormia no sofá, a cabeça apoiada nas mãos. O rosto, sereno, contrastava com a tensão que ainda pulsava em seu corpo. Valéria, de pé junto à janela, observava o céu escuro e sem estrelas. Não conseguia dormir. Algo dentro dela dizia que o silêncio daquela noite escondia um aviso. Ouviu passos leves atrás de si. Era Mehmet, segurando uma xícara de chá fumegante. — Insônia? — perguntou, com um sorriso cansado. Ela assentiu. — Costumo ter quando algo está prestes a acontecer. — Acontecer o quê? — Não sei. — Ela olhou de novo para o céu. — Mas sinto como se estivéssemos sendo observados. Mehmet ficou em silêncio por um instante. — Você tem bons instintos, menina. — Ele se aproximou da janela. — Este lugar é seguro, mas o medo não obedece à geografia. Valéria sorriu levemente. — Arkan diz que sou ansiosa. — Não — respondeu ele, pensativo. — Você é alguém que perdeu o direito de confiar no óbvio. Isso é diferente. Ela abaixou os olhos, tocando a xícara. — Acha que ele vai conseguir enfrentar o próprio pai? Mehmet suspirou. — Arkan é o filho de Kemal, mas tem a alma da mãe. E isso é o que mais o assusta. Valéria ergueu o olhar, curiosa. — A mãe dele? O homem assentiu. — A mulher mais forte que já conheci. Ela acreditava no amor, e isso quase a destruiu. — O que aconteceu com ela? Mehmet fitou o horizonte distante. — Ela morreu tentando proteger alguém que amava. Valéria sentiu um arrepio. — Arkan sabe disso? — Não da maneira certa. — Ele a olhou nos olhos. — E talvez esteja na hora de você ser a primeira pessoa a mostrar a ele o que é amor verdadeiro… não o tipo que prende, mas o que liberta. Valéria respirou fundo, tentando guardar aquelas palavras dentro de si. Antes que pudesse responder, o som de um motor distante cortou o ar da madrugada. Mehmet parou. — Ouviu isso? Ela assentiu, o coração acelerando. — São carros? Ele pegou o celular do bolso, olhou para a tela e franziu o cenho. — Nenhum sinal de rede. O som aumentava. Faróis começaram a brilhar entre as árvores. — Arkan! — gritou Valéria, correndo para a sala. Ele se levantou num salto, os olhos imediatamente atentos. — O que foi? — Estão vindo. Arkan correu até a janela, viu as luzes se aproximando pela estrada de terra e entendeu tudo sem precisar de explicações. — Precisamos sair daqui — disse ele. — Agora. --- Em Istambul, Kemal Demir observava o mapa digital em sua tela. O ponto vermelho piscava mais rápido — o rastreador indicava movimento. Ele acendeu um charuto, a fumaça subindo em espirais preguiçosas. — O filho pródigo foge mais uma vez — murmurou, com desprezo. Elif entrou na sala, o rosto pálido. — Eles estão indo embora. Kemal não respondeu. — O senhor mandou pessoas atrás deles? — insistiu ela. — Mandei homens — corrigiu ele. — Homens que sabem o que fazer quando a verdade ameaça destruir um império. Ela o olhou, incrédula. — Isso é loucura. — É justiça. — Justiça? — Ela riu, amarga. — Não existe justiça nisso. É vingança. Kemal a encarou com frieza. — Você fala como se fosse diferente de mim. — Eu sou. — Não, Elif. — Ele se levantou, aproximando-se dela. — Você é exatamente igual. Você quer que ele sofra, tanto quanto eu. Ela recuou um passo, tremendo. — Quis. No passado. — E agora? Ela hesitou. — Agora… eu só quero que ele viva o suficiente para entender o que perdeu. Kemal estreitou os olhos. — Isso é compaixão, ou culpa? — Talvez os dois. Ele riu baixo, com desdém. — Cuidado, menina. A culpa não apaga o sangue. Elif respirou fundo e saiu, o coração acelerado. Lá fora, no corredor escuro, encostou-se na parede. Por um instante, pensou em avisar Arkan. Mas sabia que, se o fizesse, estaria assinando a própria sentença. --- De volta a Bursa, Arkan e Valéria corriam até o carro. Mehmet foi atrás, carregando uma mochila. — Sigam pela estrada de ferro velha — orientou ele. — Depois do túnel, há uma trilha que leva a uma antiga hospedaria. Vocês estarão fora do alcance por algumas horas. Arkan o abraçou. — Obrigado por tudo, meu amigo. — Vá — respondeu Mehmet, empurrando-o suavemente. — A liberdade não espera por indecisos. O carro arrancou, as rodas lançando lama e cascalho. Atrás, as luzes dos perseguidores se aproximavam. Valéria olhava pelo espelho retrovisor, o coração martelando. — Eles estão vindo rápido. Arkan apertou o acelerador. — Confie em mim. — Eu confio — disse ela, a voz trêmula. — É por isso que estou com medo. O vento entrava pelas frestas das janelas, misturando-se ao som dos pneus. Cada curva parecia mais perigosa, cada sombra mais ameaçadora. Então, de repente, um clarão. Um dos carros atrás deles explodiu em chamas. Valéria gritou, assustada. — O que foi isso?! Arkan desviou o olhar rapidamente. — Pneus estourados, talvez. Mas, no fundo, ele sabia que não era. Aqueles homens não estavam apenas perseguindo — estavam preparados para matar. --- Horas depois, quando o sol começou a nascer, o carro parou perto de uma ponte abandonada. Arkan desligou o motor e ficou em silêncio. Valéria olhou ao redor. — Por que paramos? — Porque eles vão esperar que sigamos adiante. — Ele a olhou com intensidade. — E porque eu preciso te dizer algo antes que tudo piore. Ela franziu o cenho. — O quê? Ele respirou fundo. — A razão pela qual meu pai te odeia… não é apenas por mim. — Como assim? — Ele conheceu sua mãe. Valéria congelou. — Minha mãe? — Anos atrás, em Istambul. Antes de você nascer. — Isso é impossível. — Não é. — A voz dele era grave. — Mehmet me contou há pouco, antes de sairmos. Ele disse que minha mãe ajudou uma mulher a fugir da Turquia — uma mulher chamada Paula Mancinni. O nome soou como um eco distante na mente dela. — Isso significa que… — Ela parou, confusa. — Que nossas famílias se cruzaram antes? Arkan assentiu. — E que meu pai perdeu algo por causa disso. — O quê? Ele hesitou. — O controle. Por um instante, o silêncio os envolveu. Duas gerações de segredos e cicatrizes colidiam ali, entre a névoa da manhã. Valéria o olhou nos olhos. — Então talvez seja isso que ele não suporta: ver o passado se repetindo. — Talvez. — Ele estendeu a mão, tocando o rosto dela. — Mas, desta vez, eu não vou deixá-lo vencer. Ela segurou a mão dele e a beijou, suavemente. — Então lute, Arkan. Por nós. Ele sorriu, triste. — Por nós… e por tudo que eles destruíram antes de nós existirmos. --- No alto de uma colina próxima, um drone pairava, registrando tudo. Em uma van estacionada alguns quilômetros adiante, um dos capangas de Kemal ajustava o fone de ouvido. — “Alvo localizado. Aguardando instruções.” A resposta veio em segundos: — “Não atirem. Apenas sigam. O senhor quer vê-los cair por conta própria.” O homem sorriu. — “Entendido.” E, enquanto o drone recuava lentamente, o casal, alheio à vigilância, caminhava de mãos dadas até a borda da ponte — dois fugitivos unidos por um amor que desafiava impérios. Lá embaixo, o rio corria impiedoso, refletindo o primeiro raio dourado do amanhecer. Valéria fechou os olhos e murmurou: — “Às vezes, é preciso se perder para finalmente se encontrar.” Arkan olhou para ela, emocionado. — “Então vamos nos perder juntos.” E, pela primeira vez em muito tempo, o medo deu lugar à fé.
Free reading for new users
Scan code to download app
Facebookexpand_more
  • author-avatar
    Writer
  • chap_listContents
  • likeADD