Capítulo 10 – O Fio da Traição

1304 Words
O som das teclas ecoava pelo escritório escuro. Kemal Demir observava o monitor enquanto uma sequência de notícias se atualizava em tempo real. O nome dele — outrora símbolo de poder e respeito — agora surgia em manchetes acompanhadas por palavras como fraude, corrupção e escândalo. O velho empresário respirou fundo, mantendo a expressão fria. Ao seu lado, Elif observava em silêncio, o rosto pálido sob a luz azulada do computador. — Você devia estar satisfeita — disse Kemal, sem desviar os olhos da tela. — Conseguiu o que queria. Elif cruzou os braços. — Eu queria ele, não isso. — E, no entanto, é isso que você terá. — Ele se virou para encará-la. — Arkan escolheu a mulher errada, e agora vai pagar por isso. Ela hesitou. — O senhor não entende. Ele nunca vai perdoar. Kemal se aproximou. — Perdão é coisa de fracos. E meu filho sempre quis provar que era forte. Vamos dar a ele uma chance de mostrar isso… até o fim. Ela desviou o olhar, perturbada. — O senhor está planejando algo. Kemal sorriu, um sorriso duro. — Estou apenas garantindo que a história seja contada do jeito certo. No canto da sala, um dossiê estava sobre a mesa — cópias de passaportes, extratos e uma lista de endereços. Na primeira linha, lia-se: Valéria Paula Mancinni – Localização Atual: Desconhecida. --- Do outro lado da cidade, Valéria acordou com o som do celular vibrando. Arkan ainda dormia ao seu lado, exausto da noite anterior. O apartamento em que estavam era um refúgio improvisado — pequeno, discreto, alugado sob outro nome. Ela atendeu. — Alô? A voz do outro lado era de Emre, o jornalista. — Valéria, preciso avisar. A matéria saiu. E… já estão reagindo. — Reagindo como? — O senhor Kemal abriu um processo formal contra você por difamação e vazamento de informações confidenciais. Ele está te acusando de espionagem corporativa. Valéria sentiu o chão desaparecer sob os pés. — Isso é absurdo! — Eu sei — disse Emre. — Mas eles têm dinheiro, advogados e influência. E se você continuar em Istambul, eles vão te encontrar. Ela desligou devagar, o coração acelerado. Arkan despertou, notando a expressão dela. — O que aconteceu? — Seu pai me acusou de espionagem. Ele se sentou, incrédulo. — O quê? — E disse que eu vazei informações sigilosas da empresa. Arkan respirou fundo, tentando conter a raiva. — Isso não vai ficar assim. — Arkan… — Ela o olhou, aflita. — Se eles quiserem me prender, conseguem. Ele se levantou e segurou as mãos dela. — Então nós vamos sair daqui. Agora. — Fugir? — Sobreviver — corrigiu ele. — Até provarmos a verdade. --- Horas depois, o carro cruzava as avenidas que levavam à periferia da cidade. O trânsito era pesado, o ar carregado de tensão. Valéria observava as ruas passarem pela janela, a mente confusa entre medo e esperança. — Pra onde estamos indo? — perguntou. — Tenho um amigo em Bursa — respondeu Arkan. — Antigo funcionário da empresa. Alguém que devo um favor. Ela assentiu em silêncio. Durante o trajeto, notou as mãos dele apertando o volante com força. — Você está tremendo — disse ela. — Não é medo — respondeu. — É raiva. Ela o observou por um instante. — Raiva do seu pai? Ele assentiu. — De mim mesmo, por ter demorado tanto a ver quem ele realmente é. — E quem ele é? — perguntou, suavemente. Arkan olhou para o horizonte. — Um homem que confunde poder com amor. E que acha que tudo pode ser comprado… até a verdade. Valéria colocou a mão sobre a dele. — Então prove a ele que está errado. Ele olhou para ela, e naquele instante, algo mudou em seu olhar. Não era apenas paixão — era aliança. E, talvez pela primeira vez, Arkan Demir não estava lutando sozinho. --- Enquanto o casal seguia em direção à fronteira da cidade, Elif observava um mapa no monitor do tablet. Um ponto vermelho piscava sobre uma estrada. — Eles estão indo para o sul — disse ela, tensa. Kemal a olhou de relance. — Como sabe disso? — Eu ainda tenho acesso ao rastreador do carro dele. Ele nunca trocou o sistema de segurança. Kemal ergueu uma sobrancelha. — Então nos adiantemos. Ela o olhou, confusa. — O que vai fazer? — O que sempre fiz — respondeu ele, seco. — Proteger o nome Demir. Elif respirou fundo, inquieta. — Isso vai destruí-lo. Kemal cruzou os braços. — Ele já se destruiu quando escolheu ela. Mas, no fundo, a expressão dela revelava algo que nem ele percebia: arrependimento. O ódio que alimentara começava a se confundir com culpa. --- No caminho para Bursa, a chuva começou a cair forte. O som das gotas batendo no para-brisa preenchia o silêncio entre eles. Valéria se encostou no banco, observando o perfil dele — os olhos fixos na estrada, o maxilar tenso. — Você acha que vai dar certo? — perguntou ela. — Não sei — respondeu. — Mas, se eu aprender alguma coisa nesta vida, é que a verdade pode demorar, mas sempre chega. Ela sorriu de leve. — Você fala como se não tivesse medo. — Tenho medo — admitiu. — De perder você. Ela virou o rosto na direção dele. — Não vai. Por um instante, o tempo pareceu parar. Ele estendeu a mão e entrelaçou os dedos aos dela. Foi um gesto simples, mas cheio de promessas silenciosas. --- Horas depois, chegaram a uma casa isolada, cercada por oliveiras e montanhas. O homem que os recebeu, Mehmet, era alto, grisalho e de olhar honesto. — Arkan, meu velho amigo — disse ele, abraçando-o. — Faz tempo que não te vejo. — Preciso da sua ajuda — respondeu Arkan. — E não posso explicar tudo agora. Mehmet assentiu. — Você não precisa. Sua mãe me pediu, há muitos anos, que eu cuidasse de você se um dia algo desse errado. E parece que esse dia chegou. Ele olhou para Valéria, com gentileza. — A senhora é o motivo dessa confusão, imagino. Valéria sorriu, sem graça. — É o que dizem. — Então fique tranquila. — Mehmet piscou. — Aqui ninguém vai encontrá-los. --- Naquela noite, Valéria saiu para o terraço da casa. O ar era frio, mas a vista era serena — um mar de colinas e o céu pontilhado de estrelas. Ela fechou os olhos, respirando fundo. Arkan se aproximou, em silêncio. — Conseguiu dormir? — perguntou ele. — Não. — Ela o olhou. — Fico pensando se valeu a pena. — Valeu — respondeu ele, sem hesitar. — Porque, pela primeira vez, não estamos fugindo da verdade. Ela sorriu. — Mesmo que o mundo esteja desabando? — Mesmo assim. Ele se aproximou mais, o rosto a poucos centímetros do dela. — Eu te prometo, Valéria. Eu vou acabar com isso. E quando tudo terminar… quero começar de novo. Com você. Ela o olhou por um longo momento. — Promessas são fáceis de fazer, Arkan. — Mas difíceis de quebrar — respondeu ele, antes de beijá-la. O beijo foi lento, intenso — não de paixão cega, mas de cumplicidade. Ali, entre o medo e a esperança, nascia algo novo: a certeza de que o amor deles era mais forte do que o poder de qualquer império. --- Enquanto isso, em Istambul, Kemal recebia uma ligação anônima. — “Senhor Demir, eles foram localizados. Estão escondidos na região de Bursa.” O velho olhou para o telefone, os olhos brilhando com uma mistura de ira e orgulho. — Então acabe com isso — ordenou. Do outro lado da linha, uma voz respondeu: — “Como desejar, senhor.” E, no mapa iluminado pelo reflexo da tela, um ponto vermelho começou a se mover na direção do esconderijo.
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