O avião tocou o solo de Istambul sob uma chuva fina. As luzes da cidade refletiam nas asas molhadas, e o coração de Valéria batia num compasso que ela reconhecia bem: medo e desejo.
Três meses haviam se passado desde que Arkan aparecera em Florianópolis. Três meses de promessas, conversas longas ao telefone, e a lenta reconstrução de algo que ambos acreditavam ter perdido para sempre.
Agora, de volta à cidade onde tudo começou, ela sentia que estava prestes a enfrentar não apenas fantasmas do passado, mas a si mesma.
— Está tudo bem? — a voz de Arkan soou suave ao lado dela.
Valéria sorriu de leve, sem tirar os olhos da janela. — Ainda não sei. Mas estou aqui, não é?
Ele pousou a mão sobre a dela. Um gesto simples, mas cheio de significado. — É tudo o que eu preciso.
O motorista os esperava na pista. Do lado de fora, o vento frio trazia o aroma familiar de café e maresia, misturado ao perfume de rosas que parecia sempre acompanhar Istambul.
O carro atravessou a ponte do Bósforo, e Valéria observava o horizonte — as mesquitas douradas pela chuva, o som distante das orações, e o ritmo pulsante da cidade que um dia a fascinara.
Mas havia algo diferente agora.
Não era mais a estrangeira encantada pela exótica Istambul.
Era uma mulher que voltava para enfrentar seu destino.
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O apartamento de Arkan ficava no alto de uma colina, com vista para o estreito. Minimalista, elegante, mas frio — como se o luxo fosse um disfarce para o vazio.
Ele observava Valéria explorar o lugar com curiosidade.
— Você nunca mudou nada? — perguntou ela, tocando um livro sobre a mesa de vidro.
— Mudei o suficiente — respondeu ele, aproximando-se. — Só não consegui me livrar do que me lembra você.
Ela se virou. — Eu sou uma lembrança, Arkan?
— Não — murmurou ele, com a voz rouca. — Você é a única coisa que nunca passou.
O silêncio que se seguiu foi quebrado apenas pelo som da chuva contra o vidro.
Ele a puxou suavemente, e o beijo veio natural, quente, necessário.
Era o reencontro de dois corpos que já se conheciam — mas agora buscavam mais do que desejo. Buscavam redenção.
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Nos dias seguintes, Valéria se adaptou à nova rotina.
Trabalhava à distância com a empresa brasileira e, às vezes, acompanhava Arkan em reuniões. O nome dela havia sido limpo oficialmente — algo que ele fizera questão de resolver com o mesmo rigor com que enfrentara os próprios inimigos.
Mas, aos poucos, sinais sutis começaram a surgir.
Mensagens anônimas, olhares estranhos, sussurros de funcionários.
E então, uma manhã, ao sair do prédio, Valéria viu algo que fez seu sangue gelar: uma rosa vermelha, solitária, deixada sobre o capô do carro.
Junto dela, um bilhete.
> “Ele sempre volta para mim. — E.”
Valéria segurou o papel com força.
Elif.
O nome era uma ferida antiga — e uma ameaça que ela achava enterrada.
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Naquela noite, Arkan a encontrou na varanda, o bilhete ainda nas mãos.
— Por que não me contou antes? — perguntou ele, a voz grave.
— Porque não queria parecer paranoica.
Ele tomou o papel, leu, e o rasgou ao meio. — Elif não vai nos atingir de novo.
— Você tem certeza disso? — perguntou ela, fitando-o. — Porque ela parece pensar o contrário.
Arkan passou as mãos pelos cabelos, exasperado. — Ela está desesperada. O pai dela fugiu do país. Ela perdeu tudo.
— Inclusive você — completou Valéria, amarga.
Ele se aproximou. — Eu nunca fui dela, Valéria.
— Mas ela acredita que sim. E isso a torna perigosa.
Houve um silêncio pesado.
Valéria sabia que Arkan estava tentando protegê-la, mas havia algo que ele ainda não dizia — e isso a assustava mais do que o próprio bilhete.
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Dias depois, durante um evento beneficente da Fundação Demir, o inesperado aconteceu.
Elif apareceu.
Impecável, envolta em um vestido preto que contrastava com o olhar frio e calculado.
A imprensa notou sua chegada e, em poucos minutos, flashes começaram a pipocar ao redor dela.
Valéria estava ao lado de Arkan quando ouviu a voz familiar:
— Ora, ora... a estrangeira voltou.
Elif se aproximou com um sorriso que não chegava aos olhos.
— Deve ter sido difícil perdoá-lo depois de tudo. Ou será que está aqui apenas enquanto ele ainda se sente culpado?
Valéria manteve a compostura. — Não vim disputar nada com você, Elif.
— Disputar? — ela riu, baixo. — Querida, o que é seu nunca foi realmente dele.
Arkan deu um passo à frente. — Basta.
Mas Elif se inclinou ligeiramente, a voz sussurrada entre veneno e charme. — Cuidado, Arkan. Às vezes o passado cobra com juros.
E antes que alguém pudesse reagir, ela se afastou, deixando o perfume e o caos pairando no ar.
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Naquela noite, o silêncio entre Arkan e Valéria era quase palpável.
Ele serviu um copo de uísque e permaneceu olhando o horizonte pela janela.
— Ela está tentando me provocar — disse, finalmente. — Quer me fazer perder o controle.
Valéria o observou. — Então não dê esse poder a ela.
Ele a olhou, intenso. — E se eu te disser que ela pode ir além disso? Que não se trata apenas de orgulho ferido?
— O que quer dizer?
Arkan hesitou, depois respirou fundo. — Elif tem informações sobre contratos antigos da empresa. Se ela divulgar o que sabe, pode destruir mais do que meu nome — pode atingir você de novo.
Valéria se levantou, incrédula. — Então ela ainda te controla, de alguma forma.
— Não mais — respondeu ele, firme. — Eu só preciso impedir que ela te machuque.
Ela se aproximou, o olhar firme. — Arkan, se enfrentarmos isso, será juntos. Não quero ser a mulher que você protege, quero ser a mulher que luta ao seu lado.
Ele ficou em silêncio por um momento. Depois, um leve sorriso curvou seus lábios.
— E é por isso que eu te amo.
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Na madrugada seguinte, o telefone de Arkan tocou.
Era Selim.
— Arkan, aconteceu algo. Elif foi vista saindo do prédio do seu pai ontem à noite. Há rumores de que ela está tentando vender documentos confidenciais para um grupo de investidores rivais.
Arkan fechou os olhos. — Isso não é sobre negócios, Selim. É sobre vingança.
Do outro lado da linha, o advogado respondeu: — Então prepare-se. Ela vai atacar onde mais dói.
Arkan olhou para o quarto, onde Valéria dormia, tranquila.
E soube, no fundo, que Selim estava certo.
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Na manhã seguinte, Valéria acordou com o som distante das orações ecoando pelas colinas.
Abriu os olhos e viu Arkan de pé na varanda, olhando o horizonte.
Ele parecia distante — não fisicamente, mas emocionalmente.
— Vai a algum lugar? — perguntou ela, percebendo a mala ao lado da porta.
— Tenho que resolver algo — respondeu ele, sem olhá-la. — É sobre Elif.
— Arkan... — Ela se aproximou. — Não vá sozinho.
Ele a olhou com ternura e dor. — Preciso ir. Se eu não encerrar isso agora, ela vai destruir tudo o que construímos.
Valéria sentiu o coração apertar. — E se for uma armadilha?
— Então eu cairei nela — respondeu ele, baixando o tom. — Mas não deixarei que ela te toque.
Ele beijou sua testa e saiu, deixando-a sozinha no apartamento.
Ela ficou parada por longos minutos, o som das chaves ecoando na mente.
E uma sensação amarga cresceu em seu peito: a de que algo terrível estava prestes a acontecer.
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Enquanto Arkan dirigia pelas ruas molhadas de Istambul, uma tempestade se formava no céu.
E, dentro dele, outra maior ainda.
O amor o havia tornado vulnerável.
Mas também o havia tornado capaz de enfrentar qualquer inferno —
inclusive aquele que o esperava do outro lado da cidade.