O céu de Istambul estava pesado, o tipo de cinza que pressagia tempestades — e não apenas as do clima.
Arkan dirigia pelas avenidas úmidas, o som do motor misturando-se aos trovões distantes. Cada quilômetro parecia carregado de pressentimentos.
O endereço que recebera de Selim era claro: o antigo estúdio de fotografia de Elif, na parte europeia da cidade.
Um lugar abandonado há anos, mas que agora, como um fantasma do passado, voltava a chamá-lo.
Ao chegar, estacionou o carro e ficou por um instante dentro dele, observando o prédio.
As janelas estavam cobertas por cortinas escuras, o letreiro antigo m*l se lia sob a ferrugem.
Respirou fundo e entrou.
O som do portão metálico ecoou.
O ar era frio, cheirava a poeira e perfume — o mesmo que um dia marcara a pele dela.
— Sabia que você viria — disse uma voz feminina, vinda da penumbra.
Elif surgiu, envolta em um vestido preto justo, os cabelos soltos, o olhar tão cortante quanto o primeiro dia em que se conheceram.
— Você nunca resistiu a um desafio, Arkan.
— E você nunca soube quando parar — respondeu ele, firme. — O que está tentando fazer?
Ela caminhou devagar até uma mesa, sobre a qual havia uma pasta.
— Apenas restaurar o que era meu.
— Eu nunca fui seu.
Ela sorriu, amarga. — Não? Então por que voltou?
— Porque você ameaçou a mulher que eu amo.
O sorriso dela sumiu. — Ah, então é isso. A estrangeira venceu. A mulher que te olhou como se você fosse humano, e não um deus. — Ela inclinou a cabeça. — E você gostou disso, não foi? De finalmente ser mortal.
Arkan manteve o olhar fixo. — Diga o que quer, Elif.
Ela abriu a pasta e espalhou documentos sobre a mesa. — Contratos de licitações falsas, transferências entre a Demir Holdings e o governo turco. Seu pai assinou, mas os papéis levam o seu nome.
Arkan estreitou os olhos. — Está blefando.
— Estou salvando minha pele — retrucou ela. — Esses documentos valem uma fortuna. E também podem colocar você na prisão.
Ele se aproximou. — E o que quer em troca?
Ela o fitou por um longo tempo antes de responder. — Quero que ela vá embora. Para sempre.
Arkan cerrou os punhos. — Você perdeu o juízo.
— Perdi você — ela corrigiu, a voz trêmula de raiva contida. — E não aceito que essa mulher caminhe livre por uma cidade que deveria ser minha.
Arkan respirou fundo, a raiva subindo como fogo. — Elif, eu te dei respeito, amizade, confiança. Você destruiu tudo isso.
— Porque você nunca me amou! — gritou ela, batendo com a mão na mesa. — E ainda teve a coragem de me trocar por alguém que não entende metade do que você é!
Arkan deu um passo à frente, a voz baixa, mas afiada. — Ela entende mais do que você jamais quis ver.
Elif o olhou por um instante, e então sorriu — um sorriso triste, quase humano. — Então é verdade. Você a ama.
— Sim — disse ele, sem hesitar. — E é por isso que vou acabar com isso hoje.
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Enquanto isso, Valéria esperava em casa.
O relógio marcava quase meia-noite.
O telefone permanecia em silêncio, e cada segundo que passava fazia o coração dela pesar um pouco mais.
A chuva agora caía com força.
Ela andava de um lado para o outro, o som das gotas misturado ao eco de lembranças: o primeiro olhar de Arkan, a voz dele sussurrando promessas, a partida silenciosa naquela manhã.
De repente, uma notificação vibrou no celular.
Uma mensagem sem remetente:
> “Você deveria tê-lo deixado em paz. Agora, ele vai pagar por isso.”
Valéria sentiu o estômago revirar.
O nome que apareceu na parte inferior da tela fez o sangue gelar: Elif.
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De volta ao estúdio, a tensão entre Arkan e Elif era quase palpável.
Ela segurava um pen drive, brincando com ele entre os dedos.
— Este pequeno objeto, Arkan... contém tudo o que pode arruinar seu império. — Ela o ergueu. — E, por ironia, também pode destruir a reputação da doce Valéria.
— Do que está falando?
— Lembra da viagem dela à Capadócia? — perguntou ela, sorrindo com perversidade. — Eu mandei fotografá-los. Vocês dois, juntos. Abraços, olhares... em jantares pagos pela empresa. Um escândalo perfeito de assédio e manipulação de contratos.
Arkan se aproximou, o olhar inflamado. — Você não ousaria.
— Já fiz pior — sussurrou ela. — E faria de novo.
Num movimento rápido, ele agarrou o pen drive, mas Elif reagiu, empurrando-o com força.
O objeto caiu no chão, deslizando até o canto da sala.
Ela recuou, arfando. — Você é igual ao seu pai. Acha que pode controlar tudo com poder e ameaça!
— Eu aprendi com ele o que nunca quero ser — respondeu Arkan, a voz tensa. — E isso inclui destruir pessoas por amor próprio.
Ela piscou, com lágrimas contidas. — Eu te amei, Arkan. Com tudo o que eu tinha.
— E o que você tinha era medo. — Ele deu um passo mais perto. — O amor que nasce do medo morre na solidão.
Por um instante, ela pareceu fraquejar. Mas então, os olhos dela endureceram.
— Então que morram juntos. Você e ela.
Ela girou o corpo, tentando alcançar o pen drive, mas Arkan foi mais rápido.
Agarrou o objeto, e num gesto impensado, o esmagou contra o chão. O estalo seco ecoou pela sala.
— Acabou, Elif.
Ela o olhou, em choque. — Você destruiu tudo!
— Não — respondeu ele, com frieza. — Eu acabei de me libertar.
Elif ficou imóvel por um momento.
Depois, riu. Um riso frágil, de quem perdeu tudo e já não tem nada a perder.
— Você acha que isso muda alguma coisa? — perguntou. — Eu ainda posso falar. Ainda posso contar.
Arkan respirou fundo, o olhar cansado. — Faça o que quiser. Mas deixe Valéria fora disso.
Ela o observou por alguns segundos, a raiva se misturando com algo que parecia arrependimento.
— Ela não vai te salvar de si mesmo, Arkan. — A voz dela vacilou. — Nenhuma mulher consegue.
E com isso, pegou a bolsa e saiu, deixando o estúdio mergulhado em silêncio.
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Quando Arkan voltou ao apartamento, o dia já começava a clarear.
A chuva cessara, mas o ar ainda cheirava a tempestade.
Valéria estava acordada, sentada no sofá, os olhos vermelhos.
— Onde você estava? — perguntou ela, a voz baixa. — Eu recebi uma mensagem dela.
Arkan caminhou até ela, exausto. — Está tudo resolvido.
— Resolvido como?
— Elif não vai mais nos ameaçar.
Ela o observou por um longo tempo. — Você está ferido — disse, notando o arranhão na testa dele.
Ele desviou o olhar. — Não é nada.
— Arkan... — Ela se levantou, aproximando-se. — Eu não quero que você lute sozinho. Não mais.
Ele segurou o rosto dela entre as mãos, o olhar intenso. — Eu lutei sozinho por anos, Valéria. Mas quando te encontrei, aprendi o que é ter algo pelo qual vale a pena perder.
Ela o abraçou com força, sentindo o coração dele bater descompassado contra o seu.
— Promete que isso acabou? — sussurrou.
— Prometo — respondeu ele, e por um instante, acreditou nisso.
Mas, do lado de fora, estacionado em uma rua próxima, um carro preto aguardava.
Dentro dele, um homem falava ao telefone em voz baixa.
> “Sim, ela saiu de Istambul hoje. Mas ele ainda não sabe o que ela deixou para trás.”
E ao lado do banco, um envelope pardo continha cópias dos documentos e fotos que Elif jurara destruir.
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Do alto da colina, o sol nascia sobre o Bósforo, dourando a cidade com uma beleza quase c***l.
Valéria observava o horizonte, o coração dividido entre esperança e inquietação.
Ela não sabia — ainda — que o passado de Arkan não estava morto.
Apenas adormecido.
E que, em breve, voltaria para cobrar tudo o que ainda restava de paz entre eles.