Capítulo 7 – A Sombra do Passado

1354 Words
O céu de Istambul estava pesado, o tipo de cinza que pressagia tempestades — e não apenas as do clima. Arkan dirigia pelas avenidas úmidas, o som do motor misturando-se aos trovões distantes. Cada quilômetro parecia carregado de pressentimentos. O endereço que recebera de Selim era claro: o antigo estúdio de fotografia de Elif, na parte europeia da cidade. Um lugar abandonado há anos, mas que agora, como um fantasma do passado, voltava a chamá-lo. Ao chegar, estacionou o carro e ficou por um instante dentro dele, observando o prédio. As janelas estavam cobertas por cortinas escuras, o letreiro antigo m*l se lia sob a ferrugem. Respirou fundo e entrou. O som do portão metálico ecoou. O ar era frio, cheirava a poeira e perfume — o mesmo que um dia marcara a pele dela. — Sabia que você viria — disse uma voz feminina, vinda da penumbra. Elif surgiu, envolta em um vestido preto justo, os cabelos soltos, o olhar tão cortante quanto o primeiro dia em que se conheceram. — Você nunca resistiu a um desafio, Arkan. — E você nunca soube quando parar — respondeu ele, firme. — O que está tentando fazer? Ela caminhou devagar até uma mesa, sobre a qual havia uma pasta. — Apenas restaurar o que era meu. — Eu nunca fui seu. Ela sorriu, amarga. — Não? Então por que voltou? — Porque você ameaçou a mulher que eu amo. O sorriso dela sumiu. — Ah, então é isso. A estrangeira venceu. A mulher que te olhou como se você fosse humano, e não um deus. — Ela inclinou a cabeça. — E você gostou disso, não foi? De finalmente ser mortal. Arkan manteve o olhar fixo. — Diga o que quer, Elif. Ela abriu a pasta e espalhou documentos sobre a mesa. — Contratos de licitações falsas, transferências entre a Demir Holdings e o governo turco. Seu pai assinou, mas os papéis levam o seu nome. Arkan estreitou os olhos. — Está blefando. — Estou salvando minha pele — retrucou ela. — Esses documentos valem uma fortuna. E também podem colocar você na prisão. Ele se aproximou. — E o que quer em troca? Ela o fitou por um longo tempo antes de responder. — Quero que ela vá embora. Para sempre. Arkan cerrou os punhos. — Você perdeu o juízo. — Perdi você — ela corrigiu, a voz trêmula de raiva contida. — E não aceito que essa mulher caminhe livre por uma cidade que deveria ser minha. Arkan respirou fundo, a raiva subindo como fogo. — Elif, eu te dei respeito, amizade, confiança. Você destruiu tudo isso. — Porque você nunca me amou! — gritou ela, batendo com a mão na mesa. — E ainda teve a coragem de me trocar por alguém que não entende metade do que você é! Arkan deu um passo à frente, a voz baixa, mas afiada. — Ela entende mais do que você jamais quis ver. Elif o olhou por um instante, e então sorriu — um sorriso triste, quase humano. — Então é verdade. Você a ama. — Sim — disse ele, sem hesitar. — E é por isso que vou acabar com isso hoje. --- Enquanto isso, Valéria esperava em casa. O relógio marcava quase meia-noite. O telefone permanecia em silêncio, e cada segundo que passava fazia o coração dela pesar um pouco mais. A chuva agora caía com força. Ela andava de um lado para o outro, o som das gotas misturado ao eco de lembranças: o primeiro olhar de Arkan, a voz dele sussurrando promessas, a partida silenciosa naquela manhã. De repente, uma notificação vibrou no celular. Uma mensagem sem remetente: > “Você deveria tê-lo deixado em paz. Agora, ele vai pagar por isso.” Valéria sentiu o estômago revirar. O nome que apareceu na parte inferior da tela fez o sangue gelar: Elif. --- De volta ao estúdio, a tensão entre Arkan e Elif era quase palpável. Ela segurava um pen drive, brincando com ele entre os dedos. — Este pequeno objeto, Arkan... contém tudo o que pode arruinar seu império. — Ela o ergueu. — E, por ironia, também pode destruir a reputação da doce Valéria. — Do que está falando? — Lembra da viagem dela à Capadócia? — perguntou ela, sorrindo com perversidade. — Eu mandei fotografá-los. Vocês dois, juntos. Abraços, olhares... em jantares pagos pela empresa. Um escândalo perfeito de assédio e manipulação de contratos. Arkan se aproximou, o olhar inflamado. — Você não ousaria. — Já fiz pior — sussurrou ela. — E faria de novo. Num movimento rápido, ele agarrou o pen drive, mas Elif reagiu, empurrando-o com força. O objeto caiu no chão, deslizando até o canto da sala. Ela recuou, arfando. — Você é igual ao seu pai. Acha que pode controlar tudo com poder e ameaça! — Eu aprendi com ele o que nunca quero ser — respondeu Arkan, a voz tensa. — E isso inclui destruir pessoas por amor próprio. Ela piscou, com lágrimas contidas. — Eu te amei, Arkan. Com tudo o que eu tinha. — E o que você tinha era medo. — Ele deu um passo mais perto. — O amor que nasce do medo morre na solidão. Por um instante, ela pareceu fraquejar. Mas então, os olhos dela endureceram. — Então que morram juntos. Você e ela. Ela girou o corpo, tentando alcançar o pen drive, mas Arkan foi mais rápido. Agarrou o objeto, e num gesto impensado, o esmagou contra o chão. O estalo seco ecoou pela sala. — Acabou, Elif. Ela o olhou, em choque. — Você destruiu tudo! — Não — respondeu ele, com frieza. — Eu acabei de me libertar. Elif ficou imóvel por um momento. Depois, riu. Um riso frágil, de quem perdeu tudo e já não tem nada a perder. — Você acha que isso muda alguma coisa? — perguntou. — Eu ainda posso falar. Ainda posso contar. Arkan respirou fundo, o olhar cansado. — Faça o que quiser. Mas deixe Valéria fora disso. Ela o observou por alguns segundos, a raiva se misturando com algo que parecia arrependimento. — Ela não vai te salvar de si mesmo, Arkan. — A voz dela vacilou. — Nenhuma mulher consegue. E com isso, pegou a bolsa e saiu, deixando o estúdio mergulhado em silêncio. --- Quando Arkan voltou ao apartamento, o dia já começava a clarear. A chuva cessara, mas o ar ainda cheirava a tempestade. Valéria estava acordada, sentada no sofá, os olhos vermelhos. — Onde você estava? — perguntou ela, a voz baixa. — Eu recebi uma mensagem dela. Arkan caminhou até ela, exausto. — Está tudo resolvido. — Resolvido como? — Elif não vai mais nos ameaçar. Ela o observou por um longo tempo. — Você está ferido — disse, notando o arranhão na testa dele. Ele desviou o olhar. — Não é nada. — Arkan... — Ela se levantou, aproximando-se. — Eu não quero que você lute sozinho. Não mais. Ele segurou o rosto dela entre as mãos, o olhar intenso. — Eu lutei sozinho por anos, Valéria. Mas quando te encontrei, aprendi o que é ter algo pelo qual vale a pena perder. Ela o abraçou com força, sentindo o coração dele bater descompassado contra o seu. — Promete que isso acabou? — sussurrou. — Prometo — respondeu ele, e por um instante, acreditou nisso. Mas, do lado de fora, estacionado em uma rua próxima, um carro preto aguardava. Dentro dele, um homem falava ao telefone em voz baixa. > “Sim, ela saiu de Istambul hoje. Mas ele ainda não sabe o que ela deixou para trás.” E ao lado do banco, um envelope pardo continha cópias dos documentos e fotos que Elif jurara destruir. --- Do alto da colina, o sol nascia sobre o Bósforo, dourando a cidade com uma beleza quase c***l. Valéria observava o horizonte, o coração dividido entre esperança e inquietação. Ela não sabia — ainda — que o passado de Arkan não estava morto. Apenas adormecido. E que, em breve, voltaria para cobrar tudo o que ainda restava de paz entre eles.
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