Capítulo 8 – A Tempestade Silenciosa

1200 Words
A manhã em Istambul nasceu sob uma luz dourada, mas, para Valéria, o brilho do sol parecia falso — como um disfarce c***l antes da queda. Ela acordou com o toque insistente do celular. Do outro lado da linha, a voz trêmula de Selim ecoava: — Valéria… você precisa ligar a televisão. Agora. O coração dela disparou. Com os dedos trêmulos, pegou o controle remoto e ligou o noticiário. Em segundos, a imagem de Arkan surgiu na tela, acompanhada de manchetes em letras vermelhas: > “CEO DA DEMIR HOLDINGS ENVOLVIDO EM ESCÂNDALO INTERNACIONAL — ROMANCE COM FUNCIONÁRIA BRASILEIRA É INVESTIGADO.” O mundo pareceu parar. Fotos começaram a aparecer. Ela e Arkan, jantando em um restaurante da Capadócia. Uma imagem desfocada dos dois no aeroporto. E outra — mais íntima, cruelmente capturada — do momento em que ele segurava o rosto dela, prestes a beijá-la. O repórter falava com uma satisfação venenosa: — “Fontes próximas à empresa afirmam que a funcionária Valéria Paula Mancinni recebeu benefícios indevidos em troca de uma relação pessoal com o senhor Arkan Demir. Documentos e transferências bancárias foram entregues às autoridades por uma fonte anônima.” Valéria deixou o controle cair. As pernas fraquejaram. Ela levou a mão à boca, tentando conter o choro. — Não… não pode ser verdade… O celular vibrou de novo — dezenas de mensagens, chamadas perdidas, notificações de e-mails. Jornalistas, colegas de trabalho, até contatos do Brasil. E, entre elas, uma mensagem curta e sem remetente: > “Eu te avisei. Ele destrói tudo o que toca.” Ela soube imediatamente: Elif. --- Arkan entrou no escritório da Demir Holdings com passos firmes, mas o olhar de todos denunciava o que ele já sabia — a notícia se espalhara como fogo. Os corredores, normalmente cheios de cumprimentos respeitosos, agora estavam mergulhados em silêncio. Na sala de reuniões, Kemal Demir, seu pai, o aguardava com uma expressão glacial. — Que vergonha, Arkan — começou ele, a voz grave. — Você conseguiu destruir em uma noite o que levei quarenta anos para construir. — Pai, eu não fiz nada errado. — Não? — Kemal jogou uma pilha de jornais sobre a mesa. — As fotos estão em todos os canais. Você foi visto em hotéis pagos pela empresa, em jantares privados, enquanto os acionistas exigem explicações. Arkan respirou fundo. — Isso é uma armação. — Então prove — rebateu o pai, com frieza. — Mas, até lá, você está afastado da presidência. O silêncio que se seguiu foi mais doloroso do que qualquer grito. — Vai me tirar da empresa? — Arkan perguntou, incrédulo. — Eu vou salvar o que ainda resta do nome Demir — respondeu o pai, levantando-se. — E isso começa com você fora. Arkan o encarou, a raiva e a mágoa travando sua respiração. — E se eu disser que não vou sair? Kemal se aproximou lentamente. — Então vou destruir tudo o que você ama, começando por ela. A ameaça ficou suspensa no ar, como uma sentença. Arkan deixou a sala sem olhar para trás. Do lado de fora, Selim o esperava. — As notícias estão em toda parte. E alguém está espalhando os documentos falsos. — Elif — disse Arkan, o nome saindo como veneno. — Ela ainda tinha cópias. Selim o olhou com pesar. — Valéria está sendo massacrada. Arkan fechou os olhos. — Eu vou cuidar disso. --- Naquele mesmo momento, Valéria caminhava pelas ruas de Istambul com os olhos marejados, tentando escapar dos flashes de câmeras e das perguntas cruéis dos repórteres. — “É verdade que seduziu o CEO?” — “Quanto recebeu por esse relacionamento?” Ela sentia o peso da humilhação em cada passo. Ao virar uma esquina, tropeçou e deixou cair os papéis que carregava. Um deles foi parar aos pés de uma mulher elegante, que se abaixou para ajudar. Era Ayla, secretária pessoal de Arkan, a única da empresa que sempre a tratara com gentileza. — Valéria… — disse Ayla, a voz suave. — Venha comigo. Ela a conduziu até um café pequeno, escondido da agitação da cidade. — Eu tentei avisá-lo — murmurou Ayla, enquanto lhe servia um chá quente. — Elif não iria parar. — Ela destruiu minha vida — sussurrou Valéria, as mãos tremendo. — E ele… ele está bem? Ayla hesitou. — Ele foi afastado da presidência. Mas não desistiu de provar a verdade. Valéria respirou fundo. — Talvez eu deva ir embora. — Não — respondeu Ayla, firme. — É exatamente isso que ela quer. --- Horas depois, Arkan bateu à porta do apartamento de Valéria. Ela abriu, os olhos inchados, o rosto pálido. Nenhum dos dois falou por alguns segundos. — Eu vi tudo — disse ele por fim, com a voz rouca. — E juro que vou limpar o seu nome. — O meu nome? — retrucou ela, magoada. — Arkan, a sua vida inteira está em chamas por minha causa. — Não diga isso. Você não tem culpa. — Tenho, sim. — Ela desviou o olhar. — Eu devia ter ido embora quando percebi que o seu mundo não tem lugar pra mim. Arkan se aproximou. — Não diga isso, Valéria. Eu lutei contra tudo, até contra meu pai, por você. — E o que conseguiu? — ela perguntou, a voz quebrando. — Perdeu sua empresa, seu nome… e agora, vai perder a si mesmo. Ele segurou o rosto dela entre as mãos, desesperado. — Eu não me importo com nada disso. Só com você. Ela afastou as mãos dele, lágrimas escorrendo. — O amor não é suficiente, Arkan. Não quando o mundo inteiro te odeia por amar alguém errado. Ele ficou imóvel, o coração apertado. Ela deu um passo atrás. — Preciso respirar. Preciso pensar. Antes que ele pudesse responder, ela pegou o casaco e saiu, deixando-o sozinho no apartamento. --- Horas depois, o celular de Arkan vibrou com uma nova mensagem. Um número desconhecido. A foto mostrava Valéria em uma rua, cercada por repórteres. E o texto dizia: > “Isso é só o começo. Ela vai pagar por cada lágrima que me fez derramar.” Arkan sentiu o sangue gelar. O nome no final da mensagem era claro: Elif. Ele olhou para o horizonte de Istambul, onde o sol se escondia sob nuvens pesadas. Sabia que a guerra estava longe de acabar. E, pela primeira vez, sentiu medo — não por si mesmo, mas pelo que Elif ainda seria capaz de fazer. --- Naquela noite, Valéria caminhou pela ponte do Bósforo, o vento frio bagunçando seus cabelos. A cidade parecia viva, pulsante, indiferente à dor humana. Ela olhou para o reflexo das luzes na água e pensou em tudo o que perdera — e no que ainda poderia perder se ficasse. Mas, bem no fundo, algo dentro dela se recusava a ceder. A mesma força que a trouxera até ali, que a fizera enfrentar o medo e o preconceito, agora sussurrava: “Não desista.” Ela enxugou as lágrimas e ergueu o rosto para o vento. Talvez o amor não fosse suficiente para salvar o mundo deles. Mas seria o bastante para fazê-la lutar. E, dessa vez, não por Arkan. Mas por si mesma.
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