Capítulo 13 – O Refúgio de Leyla

1320 Words
A estrada até o interior da Anatólia era longa e sinuosa, cercada por campos dourados e montanhas azuladas ao longe. O carro de Arkan avançava por ela como uma sombra apressada, enquanto o vento frio soprava contra os vidros. Valéria observava o horizonte e sentia um nó no peito. Desde a mensagem anônima, o medo se tornara uma presença constante, mas também havia algo novo — uma sensação de destino. Como se tudo o que estavam prestes a descobrir já estivesse escrito, muito antes de nascerem. — Você está certa disso? — perguntou ela, a voz baixa. Arkan manteve os olhos na estrada. — A casa da minha mãe é o único lugar onde ele nunca iria. Ele próprio mandou destruí-la há anos. — E se ainda houver alguém lá? — Então teremos respostas. — Ele apertou o volante. — E talvez, justiça. Horas depois, chegaram a uma pequena aldeia escondida entre colinas e oliveiras. Casas de pedra, janelas com cortinas bordadas, o cheiro de pão fresco no ar. Uma Turquia que o tempo parecia ter esquecido. Arkan estacionou o carro diante de um portão de ferro coberto de heras. Atrás, a casa — antiga, imponente, mas silenciosa. As janelas estavam empoeiradas, e o jardim, tomado por rosas selvagens que cresciam entre as pedras. Valéria desceu primeiro. O vento soprou, fazendo o cabelo dela se mover como um véu. — É linda — murmurou. — Era o refúgio dela — respondeu Arkan, abrindo o portão. — Leyla vinha aqui quando queria fugir do mundo. O som do ferro rangendo ecoou na quietude da manhã. Ao entrar, o ar tinha cheiro de madeira antiga e lembranças guardadas. Cada canto parecia contar uma história — uma xícara esquecida sobre a mesa, um livro aberto, uma echarpe pendurada numa cadeira. Era como se Leyla ainda estivesse ali, apenas dormindo. Valéria caminhou até a estante e retirou um volume coberto de poeira. — “Cartas de Istambul” — leu em voz alta. Arkan olhou por cima do ombro dela. — Era o livro favorito dela. — Posso? Ele assentiu. Entre as páginas, havia algo escondido — um envelope dobrado, selado com cera azul. No verso, uma única palavra escrita à mão: “Para quando o amor precisar de verdade.” Valéria e Arkan trocaram um olhar silencioso. Ele rompeu o selo com cuidado e tirou de dentro uma folha amarelada e um pequeno pen drive dourado. Arkan começou a ler: "Se você está lendo isto, meu filho, é porque o ciclo se repetiu. O mesmo veneno que destruiu o meu amor ameaça agora o seu. Eu guardei provas do que o seu pai e o avô fizeram — contratos falsos, documentos, transações escondidas sob nomes estrangeiros. Tudo o que sustentou o império Demir à custa da dor de muitos. O pen drive contém tudo. Mas cuidado: a verdade não é uma arma para ferir. É uma lâmina que corta quem a carrega. Se for usá-la, que seja por amor, não por vingança. Lembre-se: o amor que sobrevive à verdade é o único que merece existir. Leyla." O silêncio que se seguiu foi quase sagrado. Valéria olhou para o pen drive nas mãos de Arkan — pequeno, mas pesado com o peso de décadas de segredos. — Isso… pode destruir o seu pai. — Ou nos destruir junto com ele — respondeu Arkan, com a voz baixa. Ela o olhou com ternura. — Então usemos com sabedoria. Arkan assentiu, mas o olhar dele estava distante. — Minha mãe sempre acreditou que o amor podia mudar as pessoas. Eu… já não sei se acredito nisso. — Talvez porque o amor dela era puro demais para este mundo — disse Valéria. — Mas o nosso não precisa ser puro. Só precisa ser verdadeiro. Ele sorriu de leve. — Você fala como ela. Ela deu de ombros. — Talvez seja destino. Enquanto exploravam o restante da casa, encontraram uma caixa trancada sob o assoalho. Dentro, havia fotos antigas: Leyla jovem, sorrindo ao lado de um homem estrangeiro — um italiano de terno claro, olhos bondosos. Valéria levou a mão à boca. — Eu conheço esse rosto. — Quem é? — perguntou Arkan. — É o mesmo homem de uma foto que minha mãe guardava. — Ela o olhou, o coração acelerado. — Esse é o homem que as duas amaram. Arkan ficou em silêncio, assimilando. — Então tudo isso… — … começou por causa dele — completou Valéria. — Por causa de um amor que atravessou fronteiras. Ela olhou para as fotos novamente. Leyla e Paula, lado a lado, rindo sob o sol. Duas mulheres de mundos diferentes, unidas pelo mesmo coração indomável. — Elas foram punidas por amar — disse Valéria, com lágrimas nos olhos. — Mas nós não seremos. Arkan segurou a mão dela com firmeza. — Não. Nós vamos reescrever o final delas. Do lado de fora, o vento aumentava. O céu começou a escurecer — nuvens densas cobrindo o sol. Valéria olhou pela janela e sentiu um arrepio. — Está ventando forte demais. Arkan franziu o cenho. — Não é vento. Lá embaixo, na estrada, dois carros pretos surgiam, avançando lentamente. — Eles nos acharam — disse ela, assustada. Arkan fechou a cortina e se aproximou. — Pegue o pen drive. Vamos pelos fundos. Mas antes que pudessem sair, o som de pneus travando ecoou. Batidas na porta. Vozes em turco, ríspidas. Valéria segurou o braço dele. — Arkan, e se for Mehmet? — Não é. — O olhar dele era puro gelo. — Meu pai mandou eles. Ele olhou ao redor, procurando uma rota de fuga. Havia uma escada estreita que levava ao sótão. — Por aqui — disse ele, empurrando Valéria para cima. — Rápido. Subiram em silêncio, ouvindo a madeira ranger sob os passos dos homens que invadiam a casa. De cima, Valéria via as sombras se moverem, lanternas cortando a escuridão. O coração dela batia tão alto que parecia denunciá-los. Arkan sussurrou: — Fique comigo. Ela assentiu, prendendo a respiração. Os homens revistavam tudo. Um deles chutou uma cadeira, outro abriu gavetas. — “Nada aqui, senhor.” — “Procurem no andar de cima.” Os passos começaram a subir. Valéria apertou a mão de Arkan. — Eles vão nos achar. Arkan olhou em volta. No canto do sótão, havia uma janela pequena, circular. — Pela janela — disse ele. — Está louco? É muito alto! — Confie em mim. Sem pensar duas vezes, ele quebrou o vidro com o cotovelo, abriu espaço e ajudou Valéria a passar. Lá fora, o vento frio a atingiu como uma lâmina. Ela caiu sobre o telhado inclinado, escorregando até segurar uma viga. Arkan veio logo atrás, fechando o buraco com um pedaço de madeira. Debaixo deles, as vozes se misturavam ao som de passos apressados. — “Eles estavam aqui!” Valéria olhou para Arkan, o rosto suado e os olhos intensos. — E agora? Ele respirou fundo. — Agora, corremos. Desceram pelo lado de trás da casa, entre as árvores, até chegarem à estrada secundária. O carro deles ainda estava ali, mas os homens bloqueavam a entrada principal. — Temos que seguir a pé — disse ele. — Mas para onde? — Para onde o amor dela nos mandou — respondeu Arkan, mostrando o colar com o olho turco. — Minha mãe dizia que este amuleto sempre aponta para casa. Ele o segurou no ar, e o reflexo azul brilhou na direção leste, onde o sol voltava a surgir entre as nuvens. Valéria sorriu, mesmo exausta. — Então é por ali. E os dois seguiram, lado a lado, o coração batendo no mesmo ritmo, guiados pela lembrança de uma mulher que amou demais… e pela promessa de um amor que ainda se recusava a morrer. Atrás deles, a casa de Leyla queimava em chamas. Mas dentro do bolso de Arkan, o pen drive brilhava — a chama viva da verdade.
Free reading for new users
Scan code to download app
Facebookexpand_more
  • author-avatar
    Writer
  • chap_listContents
  • likeADD