A sala está impregnada com o aroma intenso de incenso. Sua mãe está por perto, com os olhos baixos, e sob os punhos do vestido .
— ela sabe com certeza há hematomas escondidos.
_Hoje vamos banir a imundície da dúvida que corrói as almas dos fracos! Tragam a Arma da Luz!"Alguém lhe entrega um chicote com treze nós.
A mãe estremece, mas não levanta o olhar a menina sente o medo, cortante como uma lâmina, misturado a uma vergonha lancinante. Ela precisa acreditar. Caso contrário, será considerada fraca.
_ Caso contrário!Malek congela, o corpo tenso como uma corda esticada. O medo que vinha ardendo no fundo de sua mente desde que cruzou o limiar da comunidade agora explode, dominando-a com tamanha força que seus dedos congelam e sua pele se arrepia. A sala de aula, este cômodo estéril com paredes brancas, o cheiro de giz e antisséptico, parece-lhe hostil.
A ordem ali é ameaçadora, como se a própria sala a pressionasse, exigindo submissão. Ela se sente enterrada viva, no fundo da terra, no centro de um deserto sem nome, onde não há janelas, nem portas, nem esperança. Sua mente grita: você está presa, em uma realidade estranha e selvagem, tão longe de casa. _presente.Malek?Ruth sussurra. Ela se inclina para mais perto, sua mão tocando o ombro de Malek
_Ei, o que foi? Malek não responde. Ela se sente lançada no centro de uma cosmogonia alienígena e aterradora. Nas profundezas da terra, no útero quente e úmido, ela sente a pressão do deserto acima, das montanhas além, dos jardins floridos, dos campos de trigo ondulantes. Todo o continente a pressiona com suas cidades, estradas, moedas, minas, guerras, mitos. O ar fica denso e viscoso, como melaço. Ela ofega, mas seus pulmões se recusam a funcionar. Malek agarra a borda da mesa convulsivamente, tentando respirar. _Senhorita Sinner? Disse Audrey
_Você Precisa de ajuda? A voz do homem estilhaça a realidade em pedaços, como se construísse uma escada à sua frente para que ela pudesse subir. Suas palavras agora são outra âncora, mantendo-a neste mundo. Pontos multicoloridos dançam diante de seus olhos, e ela não consegue ver seu rosto, mas acena com a cabeça quase imperceptivelmente. Sua garganta se fecha de vergonha e medo. Então o homem segura seu pulso. Ela sente a frieza dos dedos dele. Esse toque não a acalma, mas a ancora, impedindo-a de cair no abismo. O polegar dele pressiona o ponto entre os tendões com tanta força que Malek estremece, vendo o professor tão perto dela.
_Respira! ordena o Professor Audrey e seu tom não admite contestação. Ele inspira lenta e profundamente pelo nariz, exageradamente preciso para que ela possa acompanhá-lo. "Inspire", ele prende a respiração, sem nunca desviar os olhos do rosto dela. "Expire pela boca. Devagar, sem pressa. Assim. E repita." Malek tenta repetir depois dele, mas o ar arranha sua garganta como vidro. Ela tosse, as bochechas corando de vergonha — todos estão olhando, todos veem sua fraqueza. Ela se sente como uma criança, exposta ao ridículo. Mas ele ignora seu constrangimento. Seu rosto permanece impassível. "Mais uma vez", ele diz. "Inspire e expire." Seus dedos frios não soltam seu pulso, a pressão no ponto sensível não diminui. Malek se força a seguir seu ritmo. Inspira. Expira. Repetidamente. Gradualmente, a pressão em seu peito diminui. O mundo ao seu redor ganha forma: fileiras de carteiras, os rostos de seus colegas, alguns desviando o olhar, outros observando com curiosidade. E Audrey— seu rosto próximo, próximo demais, mas sem um pingo de pena, apenas um interesse distante e analítico. "Está se sentindo melhor?", ele pergunta. Malek acena com a cabeça.
A vergonha a invade como uma nova onda. Ela se sente como uma garotinha que acabou de ser resgatada de um pesadelo por um adulto, e a humilhação é quase insuportável.Malek retira a mão, e o professor imediatamente a solta. Ele se vira para a plateia, e os sussurros cessam instantaneamente. "Vamos continuar", diz Sinner, retornando à sua mesa. "Como eu estava dizendo, a percepção da realidade pode ser moldada através de quem ver..
Malek sai da sala de aula assim que o seminário termina e praticamente corre pelo corredor até as escadas.
A multidão de estudantes se transforma em um zumbido monótono. Ela quer se dissolver, desaparecer, se esconder dos olhares que ainda parecem queimar suas costas. Ela abre caminho pela multidão, sem olhar para trás, buscando a saída, o ar fresco, a liberdade. Mas Ruth a alcança nas escadas. O rosto da amiga demonstra genuína preocupação. _Malek, espere! Ei, o que aconteceu com você?
_Nada!murmura Malek, mas sua voz treme, denunciando a mentira.
_É só um ataque de pânico. Estava muito abafado na sala de aula.Disse Malek Ruth ergue uma sobrancelha, e a expressão preocupada em seu rosto dá lugar a um meio sorriso cético. Ela cruza os braços sobre o peito, e o cachecol verde-vivo escorrega um pouco do seu ombro. _Sério? Acho que é porque você está exausta! Você realmente se sobrecarregou com todas essas aulas extras.
_Malek suspira aliviada. Agora ela encontrou uma desculpa plausível.
Isso significa que ela não precisará se esquivar e mentir para a amiga.
_ é, você provavelmente tem razão. Prometo, nada de atividades extracurriculares ou dever de casa neste fim de semana!
_Olha, não estou tentando ser intrometida, mas você me assustou de verdade.Disse Ruth ficou séria.
_E não fui só eu — metade da turma estava cochichando enquanto o Audrey estava te reanimando.
_ Ele foi ótimo, aliás. Fez um trabalho igualzinho ao do Dr. House.Ela ri baixinho, mas seu rosto se ilumina imediatamente.
_Aliás, se você quiser, podemos tomar um café ou só sentar em algum lugar. Você vai se acalmar, vai voltar a si; você está pálida como um fantasma Malek sente os cantos dos lábios tremendo seja pela vontade de sorrir, seja pelo início das lágrimas! Disse Ruth, com sua franqueza e preocupação desajeitada, parece ser o único raio de luz em sua vida agora.
_Obrigada! ela sorri. "Café é sempre bem-vindo. Malek olha para o lado e vê o Professor Audrey cercado por uma multidão de alunos. Ruth imediatamente se endireita e ajeita o cabelo.
_Vou perguntar a ele sobre a lista de leitura e depois vamos tomar um café!, diz Ruth alegremente.
_Você acredita que ele ainda é solteiro? E o pai dele é aquele mesmo Michael Spiver, o dono da Clínica Goodlum. Eu queria poder fazer meu estágio lá!
Malek acena com a cabeça, sem prestar atenção às palavras da amiga. Ela não se importa se Audrey está na linha ou se ele é solteiro. A única coisa que ela quer é sair dali o mais rápido possível.