Eu estava sentado no outro sofá, observando enquanto ela ainda dormia. O rosto estava um pouco roxo, inchado - decido ao t**a aquele desgraç@do, que descansa no inferno.
Ela abriu os olhos, então me aproximei. Assim que ela parou de piscar, tentou levantar mas ficou tonta - eu corri e segurei ela.
— Calma. Vai devagar. - Respondi tentando manter a calma.
— Onde estou? - Ela perguntava, estava tentando se localizar, entender a situação.
— Minha casa. Tá segura. - Respondi enquanto ela se ajeitava no sofá.
- Q-qual seu nome? Eu sou Laura. - A voz dela era calma, serena. E aquela boca de coração, mexia comigo.
— Vinicius, mas todos me chamam de Coringa. - Eu respondi, na hora me arrependendo, eu não podia ter falado meu nome. Minha cabeça explodia em vários pensamentos.
— Coringa? Porque? - Ela não tinha pegado a referência, nem devia conhecer o personagem.
— Porque eu dou risada, quando a cidade pega fogo. - Falei com um sorriso no canto, tranquilo.
Assim que ela se recuperou da tontura, ajudei ela até a cozinha. Fui guiando ela pela cintura -vai que ela cai de novo.
Ela me explicou que precisou sair da orfanato porque fez 18 anos e precisava de uma casa bo morro.
Enquanto ela falava, soltei sem pensar.
— Tu pode ficar aqui. Quando quiser ir, ninguém vai impedir. - Falei sentando na mesa com os lanches prontos.
Ela me agradeceu por ter salvado ela - mas agora, era minha mente que precisava ser salva.
E te falar, a menina devorou papo de uns 3, 4 lanches. Ela era simples de um jeito natural, dela mesmo. Não fingia, não tentava impressionar.
— Vou te mostrar seu quarto. - Falei puxando ela pela mão, subindo as escadas.
— Ninguém nunca usou esse quarto. O meu é aquele no final. - Expliquei, tentava parecer calmo, mas cada olhar dela, cada toque, fazia minha pele queimar e minha cabeça arder.
Fui até meu quarto, peguei uma camiseta minha limpa e uma cueca nova. Antes de sair do quarto, encostei a camiseta no meu peito - de alguma forma, queria que ela sentisse meu cheiro, no fundo, queria que ela ficasse.
Retomei a consciência e parei de agir feito moleque. Bari na porta entreguei a roupa e falei que tinha tudo que ela precisava ali.
Fugi para meu quarto. Minha mente tentava manter a razão, mas meu corpo me entregava. Precisava ser o Coringa -o Vinicius não existe mais, eu acho.
Entrei no banheiro, arranquei a roupa e liguei a água fria. O choque na pele - por um segundo, me fez acordar pra realidade - mas foi em vão.
Sai do banheiro irritado, queria entender porque aquela menina mexia comigo assim. Eu não queria isso - não de novo. Só o Charada sabe como eu fiquei no fundo do poço.
Amor é fraqueza. Fraqueza atrai inimigo. E eu não aceitaria - nunca, perde minha casa, minha favela.
Deitei na cama pelado mesmo, puxei o beck, queria tirar ela do meu pensamento, mas como? Minha cabeça só imaginava um beijo daquela boca de coração..
- Acorda para vida Vinicius, idiot@ - Falei mais alto, como se isso fosse silenciar minha mente.
Não preciso ficar com ela. Posso proteger e cuidar, de longe.
Era costume eu apesar encostar os olhos, porque dormir de verdade, nunca mais.
Acordei antes só sol nascer, fiz alguns exercícios no quarto e tomei banho.
Assim que cheguei na cozinha, mandei o vapor da segurança buscar pão fresco, frios, suco, pão de queijo - tudo que tivesse na padaria.
Peguei as coisas e organizei a mesa. E por um segundo, eu acho que fiquei feliz, animado com isso. Mas eu nunca tenho paz, então a porta se abriu com o Charada entrando.
— Coringa fazendo café? Eu vivi pra isso. Posso morrer em paz. - Charada tinha essa mania ridícula de fazer piada, sua personalidade sarcástica me tirava do sério.
— Na moral, eu devia tá chapado de maconha quando aceitei ser seu amigo na escola. - Ele me tirava do sério.
— Relaxa Coringuinha... Vai que agora é sua cartada da sorte. Ela é tua fiel. - Charada sentou na mesa pegando um pão com café.
— Você tem sorte. Muita sorte. Porque minha vontade de atirar na sua testa, é enorme. - Eu estava com raiva, porque ele tinha razão.
— Tá aqui a ficha dela. Limpa como água. Mae assassinada. Pai desconhecido.
Viveu no orfanato sozinha. - Charada mastigava o pão, enquanto eu via a ficha dela.
Vi as cenas do assassinatos, ela era apenas uma criança. A mãe suja de sangue, tinha tiros no p****s e uma facada.
Aquilo me partiu o coração. Ela não se lembrava da mãe.
— Demoro. Ela quer alugar uma casa na favela. Falei pra ela ficar aqui. - Falei quase baixo para o Charada, torcendo para que ele não ouvisse.
— Coringa surtou. Meu Deus. Casa é sua parceiro e ela delicada desse jeito, metade do morro vai pra cima dela. - Ele disse levantando na cadeira, sabia que eu ia socar ele.
Levantei e fui atrás, porém o bicho era ligeiro e fechou a porta da sala.
Por volta das 09h, Laura apareceu na escada. Minha camiseta cobria até suas coxas, parecia um vestido nela.
— Bom dia... - Ela disse passando a mão no rosto, ainda inchado do t**a e do sono.
— Bom dia princesa, bora tomar café. - Levantei do sofá e senti os.olhos dela percorrerem meu corpo, observando as tatuagens.
Ela se sentou na minha frente. E ficou admirada com a mesa de café da manhã.
— Nossa, quanta coisa. - Ela até tinha dúvidas do que pegava.
— Pode comer.. dragaozinho. - Tinha brincado com ela na noite anterior e igual ontem, ela me mostrou a língua.
— Tu disse que precisava de uma casa, acho que vai precisar de emprego certo? - Eu precisava dela perto de mim.
— Sim.. me indica alguma coisa? - Ela olhou pra mim, enquanto preparava o café na xícara.
— Tu podia cuidar da minha casa e já morava aqui. Eu te dou uma meta aí.. - Falei com medo, bem parecia o dono do morro.
— Tudo bem, pode ser por uns dois meses? Minha amiga vai sair do orfanato e preciso de um lugar para nós. - Ela explicava mordendo o pão.
— Tem um parceiro que precisa de alguém também. Ela podia ficar la e trabalhar. A casa dele é a do lado. - Charada ia quebrar essa pra mim, eu não tava nem aí.
Ela aceitou e finalizamos nosso café. Falei pra ela que eu voltava no almoço, pra gente ir comprar umas coisas pra ela nova. E que ela podia pegar outra roupa no meu quarto.