ESTRANHO

1133 Words
Eu estava sentado no outro sofá, observando enquanto ela ainda dormia. O rosto estava um pouco roxo, inchado - decido ao t**a aquele desgraç@do, que descansa no inferno. Ela abriu os olhos, então me aproximei. Assim que ela parou de piscar, tentou levantar mas ficou tonta - eu corri e segurei ela. — Calma. Vai devagar. - Respondi tentando manter a calma. — Onde estou? - Ela perguntava, estava tentando se localizar, entender a situação. — Minha casa. Tá segura. - Respondi enquanto ela se ajeitava no sofá. - Q-qual seu nome? Eu sou Laura. - A voz dela era calma, serena. E aquela boca de coração, mexia comigo. — Vinicius, mas todos me chamam de Coringa. - Eu respondi, na hora me arrependendo, eu não podia ter falado meu nome. Minha cabeça explodia em vários pensamentos. — Coringa? Porque? - Ela não tinha pegado a referência, nem devia conhecer o personagem. — Porque eu dou risada, quando a cidade pega fogo. - Falei com um sorriso no canto, tranquilo. Assim que ela se recuperou da tontura, ajudei ela até a cozinha. Fui guiando ela pela cintura -vai que ela cai de novo. Ela me explicou que precisou sair da orfanato porque fez 18 anos e precisava de uma casa bo morro. Enquanto ela falava, soltei sem pensar. — Tu pode ficar aqui. Quando quiser ir, ninguém vai impedir. - Falei sentando na mesa com os lanches prontos. Ela me agradeceu por ter salvado ela - mas agora, era minha mente que precisava ser salva. E te falar, a menina devorou papo de uns 3, 4 lanches. Ela era simples de um jeito natural, dela mesmo. Não fingia, não tentava impressionar. — Vou te mostrar seu quarto. - Falei puxando ela pela mão, subindo as escadas. — Ninguém nunca usou esse quarto. O meu é aquele no final. - Expliquei, tentava parecer calmo, mas cada olhar dela, cada toque, fazia minha pele queimar e minha cabeça arder. Fui até meu quarto, peguei uma camiseta minha limpa e uma cueca nova. Antes de sair do quarto, encostei a camiseta no meu peito - de alguma forma, queria que ela sentisse meu cheiro, no fundo, queria que ela ficasse. Retomei a consciência e parei de agir feito moleque. Bari na porta entreguei a roupa e falei que tinha tudo que ela precisava ali. Fugi para meu quarto. Minha mente tentava manter a razão, mas meu corpo me entregava. Precisava ser o Coringa -o Vinicius não existe mais, eu acho. Entrei no banheiro, arranquei a roupa e liguei a água fria. O choque na pele - por um segundo, me fez acordar pra realidade - mas foi em vão. Sai do banheiro irritado, queria entender porque aquela menina mexia comigo assim. Eu não queria isso - não de novo. Só o Charada sabe como eu fiquei no fundo do poço. Amor é fraqueza. Fraqueza atrai inimigo. E eu não aceitaria - nunca, perde minha casa, minha favela. Deitei na cama pelado mesmo, puxei o beck, queria tirar ela do meu pensamento, mas como? Minha cabeça só imaginava um beijo daquela boca de coração.. - Acorda para vida Vinicius, idiot@ - Falei mais alto, como se isso fosse silenciar minha mente. Não preciso ficar com ela. Posso proteger e cuidar, de longe. Era costume eu apesar encostar os olhos, porque dormir de verdade, nunca mais. Acordei antes só sol nascer, fiz alguns exercícios no quarto e tomei banho. Assim que cheguei na cozinha, mandei o vapor da segurança buscar pão fresco, frios, suco, pão de queijo - tudo que tivesse na padaria. Peguei as coisas e organizei a mesa. E por um segundo, eu acho que fiquei feliz, animado com isso. Mas eu nunca tenho paz, então a porta se abriu com o Charada entrando. — Coringa fazendo café? Eu vivi pra isso. Posso morrer em paz. - Charada tinha essa mania ridícula de fazer piada, sua personalidade sarcástica me tirava do sério. — Na moral, eu devia tá chapado de maconha quando aceitei ser seu amigo na escola. - Ele me tirava do sério. — Relaxa Coringuinha... Vai que agora é sua cartada da sorte. Ela é tua fiel. - Charada sentou na mesa pegando um pão com café. — Você tem sorte. Muita sorte. Porque minha vontade de atirar na sua testa, é enorme. - Eu estava com raiva, porque ele tinha razão. — Tá aqui a ficha dela. Limpa como água. Mae assassinada. Pai desconhecido. Viveu no orfanato sozinha. - Charada mastigava o pão, enquanto eu via a ficha dela. Vi as cenas do assassinatos, ela era apenas uma criança. A mãe suja de sangue, tinha tiros no p****s e uma facada. Aquilo me partiu o coração. Ela não se lembrava da mãe. — Demoro. Ela quer alugar uma casa na favela. Falei pra ela ficar aqui. - Falei quase baixo para o Charada, torcendo para que ele não ouvisse. — Coringa surtou. Meu Deus. Casa é sua parceiro e ela delicada desse jeito, metade do morro vai pra cima dela. - Ele disse levantando na cadeira, sabia que eu ia socar ele. Levantei e fui atrás, porém o bicho era ligeiro e fechou a porta da sala. Por volta das 09h, Laura apareceu na escada. Minha camiseta cobria até suas coxas, parecia um vestido nela. — Bom dia... - Ela disse passando a mão no rosto, ainda inchado do t**a e do sono. — Bom dia princesa, bora tomar café. - Levantei do sofá e senti os.olhos dela percorrerem meu corpo, observando as tatuagens. Ela se sentou na minha frente. E ficou admirada com a mesa de café da manhã. — Nossa, quanta coisa. - Ela até tinha dúvidas do que pegava. — Pode comer.. dragaozinho. - Tinha brincado com ela na noite anterior e igual ontem, ela me mostrou a língua. — Tu disse que precisava de uma casa, acho que vai precisar de emprego certo? - Eu precisava dela perto de mim. — Sim.. me indica alguma coisa? - Ela olhou pra mim, enquanto preparava o café na xícara. — Tu podia cuidar da minha casa e já morava aqui. Eu te dou uma meta aí.. - Falei com medo, bem parecia o dono do morro. — Tudo bem, pode ser por uns dois meses? Minha amiga vai sair do orfanato e preciso de um lugar para nós. - Ela explicava mordendo o pão. — Tem um parceiro que precisa de alguém também. Ela podia ficar la e trabalhar. A casa dele é a do lado. - Charada ia quebrar essa pra mim, eu não tava nem aí. Ela aceitou e finalizamos nosso café. Falei pra ela que eu voltava no almoço, pra gente ir comprar umas coisas pra ela nova. E que ela podia pegar outra roupa no meu quarto.
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