CAPÍTULO 8
MILENA NARRANDO
Eu não sei explicar o que tava acontecendo ali. Sério. Era pra eu estar com medo. Era pra eu estar desconfortável. Era pra eu querer ir embora. Mas não. Eu tava ali. Parada, do lado dele. Sentindo o vento bater no rosto, olhando o morro iluminado e, ao mesmo tempo, sentindo ele. A presença dele. Forte. Intensa. Quase sufocante.
E quando eu virei o rosto e nossos olhares se encontraram de novo, eu esqueci por um segundo até de respirar. Ele não desviou. Nem por um segundo. E aquilo me deixou nervosa e muito. Mas não era só nervoso. Era outra coisa. Uma coisa que eu nunca tinha sentido antes. Engoli seco, desviando o olhar primeiro. Porque eu não consegui sustentar. Não por muito tempo.
— Você… — comecei, mas a voz falhou.
Limpei a garganta, meio sem graça.
— Você sempre fica olhando assim?
Ele soltou um riso baixo, quase sem humor.
— Assim como?
Olhei pra ele de novo, tentando parecer mais firme do que eu realmente tava.
— Como se estivesse lendo a pessoa.
Ele inclinou levemente a cabeça, me analisando de novo.
— E tô.
Meu coração acelerou na hora.
— E o que você leu? — perguntei, sem pensar muito.
Silêncio. Ele deu mais um gole na cerveja antes de responder.
— Que tu não pertence a esse lugar.
Aquilo bateu de um jeito estranho. Porque era verdade. Mas ouvir aquilo dele… foi diferente. Cruzei os braços, tentando me defender.
— E isso é um problema?
Ele me encarou mais sério agora.
— Pra tu, pode ser.
Senti um arrepio subir pela minha espinha.
— Eu não acho — falei, mais baixo.
Ele arqueou uma sobrancelha.
— Não?
Balancei a cabeça de leve.
— Hoje foi a primeira vez que eu me senti livre.
As palavras saíram antes que eu pudesse segurar. E, quando percebi, eu já tinha falado. Ele ficou em silêncio por um momento. Me olhando. Mas dessa vez, estava me olhando diferente. Menos duro. Menos fechado, ou talvez eu só estivesse imaginando.
— Liberdade aqui tem preço — ele falou depois, a voz baixa.
Franzi a testa.
— Que preço?
Ele soltou um riso curto, sem graça.
— Um que tu não ia querer pagar.
Fiquei olhando pra ele, tentando entender. Mas, no fundo, eu sentia. Que ele não tava falando só do morro. Tava falando dele também. O silêncio voltou. Mas não era desconfortável. Era carregado. Cheio de coisa que ninguém tava dizendo. Passei a mão no braço, sentindo um leve frio.
— Você sempre afasta as pessoas assim? — perguntei, sem nem perceber.
Ele me olhou de lado.
— Assim como?
— Como se fosse perigoso demais chegar perto de você.
Dessa vez, ele não respondeu na hora. Ficou me encarando. E aquilo já era resposta suficiente. Desviei o olhar, soltando um ar leve.
— Você é complicado.
Ele soltou um riso baixo.
— E tu é inocente demais.
Olhei pra ele na hora.
— Eu não sou.
Ele deu um passo na minha direção. Um só. Mas foi o suficiente pra meu corpo travar.
— É sim — falou baixo. — Dá pra ver de longe.
Meu coração disparou de verdade. Agora eu conseguia ouvir. Ele tava perto demais. O cheiro dele. A presença. Tudo. Eu deveria me afastar. Mas não me mexi.
— E isso é r**m? — perguntei, quase num sussurro.
Ele me encarou. Direto.
— Pra mim é.
A voz dele saiu baixa, firme, mas carregada de alguma coisa que eu não soube explicar. Antes que eu conseguisse responder, ele deu mais um passo e depois outro. Até não ter mais espaço entre a gente.
Meu coração disparou na hora, forte demais, como se fosse sair pela boca. Eu senti a respiração dele perto, o corpo dele tão próximo que bastava um movimento pra encostar de vez.
Mas eu não me afastei, e nem ele.
— Tu não faz ideia de onde tá se metendo… — ele murmurou, com a voz rouca, os olhos presos nos meus.
Engoli seco, sentindo um arrepio percorrer meu corpo inteiro.
— E se eu quiser me meter? — respondi baixo, quase num desafio.
Os olhos dele escureceram na hora.
Ele aproximou o rosto do meu, tão perto que eu senti o calor da respiração dele nos meus lábios.
— Tu é um perigo… — ele sussurrou.
Eu deixei um sorrisinho escapar, mesmo com o coração acelerado.
— E você, não quer provar?
Foi o suficiente.
Ele não respondeu com palavras.
A mão dele subiu pra minha cintura, firme, me puxando de vez contra o corpo dele. E, no segundo seguinte, a boca dele encontrou a minha. O beijo veio intenso. Sem aviso. Sem calma. Como se ele já tivesse segurando aquilo há tempo demais. Minha reação foi imediata.
Levei as mãos até o pescoço dele, me entregando sem pensar, sentindo tudo girar ao mesmo tempo. O gosto da cerveja, o calor, a pressão, tudo misturado.
Ele apertou mais a minha cintura, aprofundando o beijo, como se quisesse dominar cada espaço. Meu corpo respondeu sozinho, e quando eu vi, já tinha pulado no colo dele, envolvendo as pernas na cintura dele, já sentindo o volume da calça dele, duro, roçando em mim. Ele segurou firme, sem dificuldade nenhuma. Como se já me esperasse.
O beijo continuava intenso, quente, cheio de uma tensão que só aumentava. A mão dele subiu pelas minhas costas, me mantendo ali, colada.
E, por um momento, nada mais existia. Nem o morro, nem o baile, nem o mundo lá fora. Só eu e ele.
Continua......