CAPÍTULO 7
CORINGA NARRANDO
Eu continuei ali, encostado, com o copo na mão, virando mais um gole enquanto observava o movimento. Mas minha atenção, não tava no baile. Tava nelas, na Liz e na amiga dela.
As duas dançando no meio do camarote.
Só que tinha uma diferença clara.
A Milena tava soltando aos poucos, ainda meio perdida, mas entrando no clima. Já a Liz, já tinha passado do ponto e muito. Ela ria alto demais, se jogava na música sem nem se preocupar com nada, tropeçando quase toda hora.
Eu fechei a expressão na hora.
— Tua irmã já passou da conta — o Toro falou do meu lado.
Nem precisei perguntar.
Eu já tinha visto.
Encostei melhor, focando onde ela tava.
— Eu sei — respondi, seco.
Passei a mão no rosto, já irritado.
— Por isso que eu não gosto que ela vem pra baile.
O Toro deu um gole na bebida, ainda olhando pra cena.
— Quer que eu leve ela pra casa? — ele perguntou.
Balancei a cabeça na hora.
— Não.
Já empurrei o corpo pra frente, saindo da parede.
— Eu vou lá.
Ajustei o boné de leve, o olhar firme.
— Qualquer parada, tu me chama no rádio.
Ele assentiu.
— Pode deixar.
Desci do ponto onde eu tava, abrindo caminho no meio da galera sem esforço nenhum. Ninguém esbarrava em mim. Ninguém encostava. Ninguém era louco. Só de me ver vindo, já davam espaço. O som batendo forte, a luz piscando, mas minha atenção tava fixa nelas. Quanto mais eu me aproximava, mais dava pra ver.
Liz totalmente chapada e a Milena rindo e bem solta. Mas ainda consciente. Ainda diferente.
Passei a língua no canto da boca, observando por mais um segundo antes de chegar.
E foi aí que eu decidi.
Já deu.
Continuei andando até chegar nelas, nem precisei chamar. Quando eu parei na frente, a Liz já me olhou, meio aérea, meio sorrindo.
— Bora, Liz — falei direto. — Tu já bebeu demais. Vou te levar pro barraco.
Ela fez uma cara de irritação na hora, balançando a cabeça.
— Ah, não… nem vem, Coringa — falou, toda embolada. — Eu quero curtir, tô com a minha amiga.
Apontou pra Milena, que tava do lado, me olhando. De perto, era pior. Muito pior.
Mas não deixei isso transparecer.
— Eu vou te levar e pronto — falei, firme, sem dar espaço.
Passei o olhar rápido pela Milena.
— Tua amiga pode vir junto. Dorme lá no barraco hoje.
A Liz soltou um suspiro irritado, jogando a cabeça pra trás.
— Que saco… você é chato pra caralhø — resmungou, toda enrolada.
Nem respondi.
Peguei o rádio na cintura na hora.
— Neguinho, traz o meu carro lá pra frente. Agora.
Guardei o rádio e segurei o braço dela, firme.
— Bora.
— Ai, me solta! — ela reclamou, tentando puxar o braço, mas sem força nenhuma.
Ignorei.
Já comecei a puxar ela no meio da muvuca, abrindo caminho sem dificuldade nenhuma.
A galera já ia saindo da frente, sempre. Senti a movimentação atrás.
A Milena veio, sem nem discutir.
Só acompanhando. Descemos no meio daquele caos de música alta, luz piscando e gente se esbarrando, mas nada encostava na gente.
O carro já tava esperando quando a gente chegou. Neguinho saiu do volante na hora que me viu, sem nem perguntar nada.
— Já era, chefe — falou, entregando a chave.
Nem respondi.
Só abri a porta do motorista e entrei.
— Entra — falei.
A Liz praticamente caiu no banco da frente, largada. A Milena entrou atrás, mais quieta, observando tudo. Dei partida e subi o morro sem falar nada. O som do baile foi ficando pra trás, cada vez mais distante, até virar só um eco no fundo. Dentro do carro, um silêncio.
Só o barulho do motor e a respiração pesada da Liz.
Olhei de canto.
Ela já tava apagada.
Cabeça encostada no vidro, completamente fora.
Soltei um suspiro baixo.
— Eu avisei… — murmurei mais pra mim do que pra alguém.
Segui dirigindo, focado, fazendo o caminho que eu já conhecia de olhos fechados.
Mas, mesmo assim, eu sentia a presença dela atrás. Parei o carro na frente do barraco, na garagem.
Desliguei o motor e saí sem perder tempo.
Abri a porta da Liz e segurei ela antes que caísse.
— Porrä, Liz… — resmunguei, passando o braço dela pelo meu pescoço.
Mas ela nem reagiu, tava apagada, sem escolha, peguei ela no colo. Fechei a porta com o pé e comecei a subir com ela, eu nem precisei olhar pra trás. Eu sabia que a Milena tava vindo.
Subi direto pro quarto da Liz e empurrei a porta com o ombro. Deitei ela na cama com cuidado, ajeitando o corpo dela. Ela resmungou alguma coisa sem sentido e virou pro lado, já afundando no colchão.
Passei a mão no rosto, soltando o ar devagar.
— Sempre tu me tirando do sério… — falei baixo.
Virei o rosto e ela tava lá, parada na porta.
Segurei o olhar por um segundo antes de quebrar o silêncio.
— Tu pode dormir nesse quarto aqui do lado — falei, apontando com a cabeça.
Ela assentiu de leve.
— Tá…
Deu mais um olhar pra Liz na cama, meio preocupada.
— Será que ela vai ficar bem? — perguntou, a voz mais baixa.
— Vai sim — respondi, simples. — Não é a primeira vez que ela bebe.
Ela respirou fundo, como se aquilo aliviasse um pouco.
— Tá bom…
Passou por mim devagar e entrou no quarto ao lado. Parei na porta por um segundo.
— Meu quarto é esse do lado — falei, sem olhar direto pra ela. — Se precisar de alguma coisa, é só chamar.
— Tá bom… obrigada — ela respondeu e fechou a porta.
Desci as escadas sem pressa, indo direto pra cozinha. Abri a geladeira, peguei uma cerveja e fui pra área de fora. Ali em cima, era outra vibe.
Silêncio. Só o vento batendo de leve, o som distante do baile ainda ecoando lá embaixo, e o morro inteiro iluminado. Encostei na grade, abrindo a garrafa e dando um gole. Fiquei ali, parado. Pensando em nada, ou tentando.
Porque, na real, a minha cabeça nunca desligava.
Passei a mão na nuca, soltando o ar devagar.
— Complicado… — murmurei baixo.
Foi aí que ouvi a voz.
— É lindo olhando daqui.
Eu virei na hora e ela tava ali, parada na entrada da área, olhando a vista. Soltei um riso curto, mais pelo susto do que qualquer coisa.
— Porrä… — passei a mão no rosto. — Achei que tu tinha ido deitar.
Ela deu de ombros, se aproximando um pouco.
— Eu tô sem sono.
Fiquei olhando ela por um segundo.
Ali, sem música, sem luz piscando, sem gente em volta, era diferente. Dei mais um gole na cerveja, apoiando o corpo na grade.
— Normal — falei. — Primeira vez em baile, ainda mais aqui em cima, a cabeça fica a mil.
Ela soltou um sorrisinho de leve, encostando do meu lado, mas mantendo uma certa distância.
— Fica mesmo..
Ficamos em silêncio por alguns segundos.
Só olhando a vista, o morro iluminado. As luzes espalhadas. A vida acontecendo lá embaixo.
— Eu não imaginava que era assim — ela falou depois de um tempo.
Olhei de lado.
— Assim como?
Ela demorou um pouco pra responder.
— Bonito.
Aquilo me pegou de um jeito que eu não esperava. Soltei um riso baixo, balançando a cabeça.
— Ninguém vê desse jeito.
— Eu tô vendo — ela respondeu, simples.
Virei o rosto pra ela.
E, de novo, aquele olhar sem medo, me encarando. Meu maxilar travou na hora.
Porque, naquele momento, não era só o morro que tava bonito. E isso já tava começando a ser um problema pra mim.
Continua.....