CAPÍTULO 6
MILENA NARRANDO
Eu ainda tava tentando entender onde eu tinha me metido. Sério. Era muita coisa ao mesmo tempo. O som alto fazia o chão vibrar, as luzes piscavam sem parar, gente dançando sem vergonha nenhuma, rindo, bebendo, vivendo, como se nada mais existisse além daquele momento.
E eu ali no meio de tudo aquilo.
Com o coração acelerado e a cabeça girando.
— Vem cá — a Liz falou, puxando minha mão.
Ela me levou até uma parte do camarote onde tinha bebida. Pegou dois copos, encheu com uma mistura que eu nem sabia o que era e me entregou um.
— Bebe — disse, sorrindo.
Olhei pro copo por um segundo.
— O que é isso?
Ela riu.
— Confia.
Respirei fundo e dei um gole pequeno.
Ardeu um pouco, mas não era r**m.
— Meu Deus… — falei, tossindo de leve.
Ela caiu na risada.
— Tu acostuma!
Balancei a cabeça, rindo também, ainda meio sem jeito. Liz começou a me mostrar tudo, apontando pras partes do baile.
— Ali é onde fica mais cheio — ela disse, indicando lá embaixo. — Quando desce, esquece, tu nem anda direito.
Olhei, impressionada com a quantidade de gente.
— E ali? — perguntei, apontando pra outro lado.
— Aquela área é mais dos conhecidos — explicou. — Quem é do morro mesmo.
Fui acompanhando tudo com o olhar, tentando absorver. Era, diferente, mas não era r**m.
Na verdade, tinha alguma coisa ali que me puxava. Uma liberdade que eu nunca tinha sentido antes.
— Tá vendo? — Liz falou, me olhando. — Não é esse bicho de sete cabeças que tu imaginava.
Soltei um sorriso de leve.
— Não é mesmo…
Dei mais um gole na bebida, dessa vez sem tossir. E, aos poucos o meu corpo foi relaxando.
A música começou a fazer mais sentido, o ambiente ficou menos assustador, e eu me peguei até mexendo o corpo, bem de leve, acompanhando o ritmo.
Liz sorriu na hora.
— Aí, ó… já tá melhor.
— Não exagera — falei, rindo.
Ela puxou minha mão.
— Vem dançar.
— Aqui? — perguntei, meio sem acreditar.
— Aqui mesmo.
Antes que eu pudesse pensar demais, ela já tava me puxando. E eu fui, no começo, travada. Sem saber direito o que fazer. Mas olhando pra ela, vendo como ela se soltava, como não se importava com ninguém…
Eu tentei devagar, ainda meio tímida.
Mas tentei. E, pra minha própria surpresa, eu comecei a gostar. Soltei uma risada sem nem perceber, sentindo uma leveza que fazia tempo que eu não sentia. Como se, por alguns minutos, eu não fosse a filha do meu pai. Não fosse a menina presa dentro de um apartamento enorme.
Só, eu. Mas foi aí que eu senti aquele olhar de novo. Meu corpo travou por um segundo.
Eu nem precisava procurar.
Eu já sabia.
Levantei o olhar devagar e encontrei ele me olhando.
Coringa.
Encostado, olhando direto pra mim, sem desviar.
Sem disfarçar. Meu coração disparou na hora.
Eu não sabia explicar o que era aquilo. Não era só medo. Não era só nervoso. Era intenso demais.
Como se ele estivesse me analisando. Me lendo.
E, ao mesmo tempo, me desafiando. Engoli seco, desviando o olhar por um segundo.
Mas foi automático, eu voltei o olhar e ele ainda tava lá, me olhando.
Como se nada mais existisse ao redor.
Minha respiração ficou mais pesada.
— Milena? — Liz chamou, me trazendo de volta.
Pisguei algumas vezes, tentando disfarçar.
— Oi?
— Tá tudo bem?
Forcei um sorriso.
— Tá… só é muita coisa.
Ela riu.
— Eu falei!
Mas eu já nem tava mais prestando tanta atenção.Porque, mesmo tentando ignorar, eu ainda sentia o olhar dele em mim. Como se eu fosse a única pessoa naquele lugar inteiro. Engoli seco mais uma vez, desviando o olhar e dando mais um gole na bebida, tentando disfarçar o nervosismo.
Mas não adiantava. Era só eu olhar de novo e ele ainda tava lá, me encarando. Respirei fundo e me aproximei mais da Liz, falando perto do ouvido dela por causa do som alto.
— Liz…
— Oi? — ela respondeu, ainda dançando.
Hesitei por um segundo.
— Teu irmão… — falei, meio sem jeito. — Ele é sempre assim?
Ela parou de dançar na hora e me olhou, já entendendo.
— Assim como?
Dei uma risadinha nervosa, tentando parecer natural.
— Com essa cara de m*l.
Ela soltou uma risada alta.
— Sempre — respondeu, sem pensar duas vezes. — Desde que nasceu, praticamente.
Balancei a cabeça, olhando de canto pra ele de novo.
— Ele é… intimidador.
— Ele é o Coringa, né, amiga — ela disse, dando de ombros. — Se não for assim, ninguém respeita.
Fiquei em silêncio por um instante.
Observando.
— Ele não para de olhar pra cá — murmurei.
Liz acompanhou meu olhar e, quando viu, soltou um “ih” baixinho.
— Ih… ferrou.
— O quê? — virei pra ela na hora.
Ela deu um sorriso de canto, meio divertida, meio preocupada.
— Ele reparou em tu.
Meu coração bateu mais forte.
— E isso é r**m?
Ela inclinou a cabeça de leve, me analisando.
— Depende.
— Depende de quê?
Ela chegou mais perto.
— Do que tu vai fazer com isso.
Fiquei sem resposta.
Balancei a cabeça, tentando afastar aquele pensamento.
— Para de falar besteira — falei, dando uma risadinha nervosa. — Vamos dançar.
Liz abriu um sorriso na hora.
— Aí sim!
Ela me puxou de novo, e dessa vez eu fui sem pensar tanto. A música já tava mais alta, o grave batendo no peito, e ela começou a rebolar do jeito dela, solta, sem medo, sem vergonha nenhuma.
— Faz assim, ó — ela falou, rindo, segurando minha mão e me guiando.
Tentei imitar.
No começo, meio travada ainda, mas ela não me deixava parar.
— Relaxa o corpo, amiga! — ela dizia, rindo.
E, aos poucos, eu fui me soltando. Rebolando de leve. Sentindo a música. Sentindo o momento.
E, quando percebi, eu já tava rindo de verdade.
Rindo alto, sem me importar com quem tava olhando.
Liz levantou o copo.
— Bebe!
Encostei meu copo no dela.
— Bebe!
Viramos juntas.
A bebida já não queimava tanto.
Na verdade, ja tava até descendo fácil demais.
O tempo foi passando e eu já nem sabia mais quantos goles tinha dado. Meu corpo tava leve.
Minha cabeça, mais ainda.
— Tu tá ficando boa nisso, hein! — Liz falou, rindo.
— Mentira! — respondi, já meio tonta.
— Tô falando sério!
A gente caiu na risada de novo, dançando sem parar. Eu já não tava mais pensando tanto.
Já não tava mais travada.
Já não tava mais com medo.
Eu só, tava vivendo, mas dava pra sentir.
O efeito da bebida chegando. Meu equilíbrio não tava lá essas coisas. Minha risada saía fácil demais. E a Liz já tava pior que eu, muito mais solta.
— Amiga… — ela falou, rindo sozinha. — Eu te amo, sabia?
Eu ri.
— Tu tá muito bêbada.
— Tô nada!
Ela tentou girar e quase perdeu o equilíbrio, se segurando em mim.
— Tá sim!
Segurei ela, rindo.
Continua.....