CAPÍTULO 5
CORINGA NARRANDO
Eu já tinha visto muita coisa nesse morro. De tudo. Gente chegando, gente saindo, gente se perdendo, gente tentando se encontrar.
Mas, quando meu olhar bateu nela… Foi diferente, e eu não gostei disso. Fiquei encostado, observando de longe enquanto a Liz voltava pra perto da mina.
Milena.
Nome fraco pra alguém que já chegou bagunçando meu ambiente. Ela tava parada, meio perdida, olhando tudo com aqueles olhos atentos demais. Não era como as outras.
Não tava rebolando, não tava chamando atenção, não tava tentando se encaixar. Ela só tava ali.
E isso chamou mais atenção do que qualquer outra coisa. Eu não podia negar. A mina é gata pra caralhø. Qualquer um ali naquele baile ia querer arrastar ela dali. Mas dava pra ver a inocência da mina.
Passei a mão no maxilar, sem tirar o olhar.
— Quem é? — o Toro perguntou, encostando do meu lado.
Nem precisei explicar.
— Amiga da Liz — respondi, seco.
Ele olhou também.
— Não parece ser daqui.
— E não é.
Ficou um silêncio rápido.
— Vai dar problema? — ele perguntou.
Desviei o olhar por um segundo, depois voltei pra ela.
— Ainda não sei.
Porque a real, é que problema eu sei reconhecer de longe. Mas aquilo ali? Aquilo não parecia problema comum. Parecia outra coisa, e isso era pior. Muito pior.
Ela levantou o olhar por um segundo, e foi aí que aconteceu. Os olhos dela bateram nos meus, direto. Sem filtro. Sem preparo.
E, por um segundo, ninguém desviou.
Meu corpo ficou tenso na hora.
Ela arregalou os olhos, como se tivesse percebido quem eu era.
E eu só encarei firme, do jeito que sempre foi.
Mas, por dentro, tinha alguma coisa errada.
Porque, pela primeira vez em muito tempo, eu não consegui ler alguém de cara. E isso nunca é um bom sinal. Continuei ali, observando.
A Liz puxou ela mais pra dentro do camarote, entregou um copo na mão dela, falando alguma coisa no ouvido.
Milena hesitou por um segundo, mas bebeu devagar. Como quem ainda tava se acostumando com tudo. Depois, a música virou.
Batidão mais forte, e a Liz começou a dançar, agora mais solta, do jeito que ela sempre foi.
E, aos poucos, a Milena foi indo também.
No começo, meio travada. Meio sem saber o que fazer com o corpo. Mas, conforme o tempo passava, ela foi soltando devagar, e eu continuei olhando.
— A mina é gata mesmo — o Toro soltou do meu lado, sem tirar o olho dela.
Não respondi na hora.
Só fiquei observando mais um pouco. O jeito que ela ria com a Liz. O jeito que ainda olhava em volta, meio perdida, mas tentando aproveitar.
— É… — falei por fim, baixo. — É mesmo.
Ele deu uma risada de canto.
— Diferente, né?
Olhei pra ele de lado.
— Fica de olho.
— Em quê?
Voltei o olhar pra elas.
— Em tudo — respondi, firme. — Não deixa ninguém chegar nela nem na Liz.
Ele entendeu na hora.
— Pode deixar.
Aqui em cima, ninguém fazia nada sem eu saber.
Mas baile é baile. Sempre tem um engraçadinho, sempre tem um que bebe demais, sempre tem um que esquece onde tá. E eu não tava a fim de ver ninguém testando limite hoje.
Muito menos com ela. Peguei o copo que tava do meu lado e virei a bebida de uma vez. O gosto forte desceu queimando. Mas nem isso tirou minha atenção. Continuei ali, só observando.
Continuei ali, só observando. Até sentir um corpo encostar em mim. Uma loira chegou rebolando, sem pedir licença, colando direto. Mão deslizando pelo meu peito, quadril se esfregando no meu, como se já soubesse o caminho.
— E aí, Coringa… — ela sussurrou perto do meu ouvido, cheia de malícia.
Nem olhei pra ela de cara.
Meu foco ainda tava em outro lugar.
— Hoje não — falei, seco.
Ela deu uma risadinha, achando que era charme.
— Para… tu nunca diz não.
A mão dela desceu pelo meu abdômen, tentando chamar atenção. Eu segurei o pulso dela na hora, firme, sem força exagerada, mas o suficiente pra ela entender.
— Eu disse que hoje eu tô ocupado. Cê ligou!
Agora eu olhei direto. Sem sorriso. Sem espaço.
Ela travou por um segundo.
— Qual foi… — tentou insistir, mas já sem a mesma confiança.
Soltei o braço dela devagar.
— Não insiste. Quando eu falo, tá falado. Quando eu quiser. Eu te chamo.
O recado tava dado.
Ela revirou os olhos, claramente incomodada, e saiu rebolando, procurando outro que quisesse o jogo. Nem acompanhei.
Porque, no mesmo segundo, eu olhei, e lá tava ela. Milena. Parada. Me olhando. Não era aquele olhar perdido de antes. Era diferente. Curioso.
Talvez até incomodado. Como se ela tivesse visto a cena. Como se tivesse entendido alguma coisa ali. E eu encarei de volta.
Firme.
Sem desviar.
Sem esconder nada.
O som do baile continuava alto, a galera dançando, gritando, vivendo, mas, naquele momento, pareceu que ficou tudo distante.
Só nós dois. Ela engoliu em seco, deu pra ver de longe. Mas não desviou na hora. E isso me prendeu mais do que devia. Inclinei levemente a cabeça, mantendo o olhar nela, analisando cada reação.
Ela não sabia onde enfiar as mãos.
Não sabia se continuava olhando.
Não sabia se fingia que não era com ela.
Inexperiente e perigosa por causa disso.
Porque gente assim, ou se perde rápido, ou muda tudo. E eu ainda não sabia em qual das duas ela se encaixava.
Passei a língua no canto da boca, desviando o olhar só por um segundo, mas voltei pra ela logo em seguida.
Ainda tava lá.
Ainda me olhando.
Eu ainda tava olhando pra ela quando senti alguém encostar do meu lado.
— E aí, chefe — o cara falou, estendendo a mão.
Desviei o olhar da Milena só o suficiente pra cumprimentar.
— Fala.
Apertei a mão dele rápido, firme.
Ele acompanhou meu olhar sem disfarçar.
— Quem é a mina com a Liz? — perguntou, curioso.
Voltei a encarar a Milena por um segundo antes de responder.
— Amiga dela.
— Sério? — ele soltou, analisando também. — Não é daqui, né?
— Não.
Ele deu um sorrisinho de lado.
— Gostosä pra Caralhø…
Não gostei do tom.
Nem um pouco.
Virei o rosto pra ele na hora, o olhar fechando.
— Nem olha muito.
Ele entendeu na hora.
O sorriso sumiu.
— Qual foi, chefe… — tentou aliviar.
Cheguei um pouco mais perto, abaixando a voz, mas deixando claro.
— Ela tá na minha proteção.
Ele assentiu devagar.
— Pode deixar.
— Quero ninguém chegando nela — continuei. — Ninguém mexendo. Ninguém tentando graça.
— Já entendi — ele falou, mais sério agora. — Tá suave.
Voltei o olhar pra frente.
Pra ela. Milena ainda tava ali, perto da Liz, tentando se soltar no meio da música.
Continua.....