CAPÍTULO 4
LIZ NARRANDO
Assim que a gente passou da barreira, eu já senti o corpo relaxar. Pra mim, aquilo ali era normal. Era casa. Era meu mundo. Mas, do lado, a Milena tava dura, olhando tudo como se tivesse entrado em outro planeta. E, de certa forma, entrou mesmo. Olhei de canto pra ela.
Mão agarrada na bolsa, olhar perdido nas casas, nas vielas, nas pessoas. Dava pra ver o medo misturado com curiosidade.
— Relaxa, mulher — falei, dando uma risadinha. — Tu tá parecendo que vai desmaiar.
— Eu tô tentando não desmaiar mesmo — ela respondeu, sem nem tirar os olhos da janela.
Eu ri de verdade dessa vez.
— Tu vai ver, daqui a pouco tu acostuma.
Mas, no fundo, eu sabia que não era tão simples assim. A Milena veio de um mundo completamente diferente do meu. Lá tudo é certinho, organizado, silencioso demais. Aqui é barulho, é gente, é vida acontecendo ao mesmo tempo. E eu sempre gostei disso.
Subi com o carro pelas ruas já conhecidas, cumprimentando um e outro com farol, com aceno de cabeça. Aqui todo mundo me conhece.
Não só por mim, mas por causa dele.
Meu irmão.
Coringa.
Só de pensar, eu já fiquei mais atenta.
Eu não tinha avisado nada pra ele, e isso podia dar r**m.
Muito r**m.
Gael não é de ficar controlando minha vida, mas também não gosta de surpresa. Muito menos quando envolve gente de fora subindo o morro.
E a Milena, definitivamente era “gente de fora”.
Respirei fundo, tentando afastar esse pensamento.
— Tá pensando em quê? — Milena perguntou, me olhando agora.
Balancei a cabeça de leve.
— Nada demais.
Mentira.
Mas eu não ia deixar ela mais nervosa do que já tava. O som começou a ficar mais alto conforme a gente subia. Grave batendo no peito, luz piscando lá em cima, gente descendo arrumada, gente rindo, gente vivendo. O baile já tava cheio.
Estacionei o carro perto de uma viela mais movimentada e desliguei o motor.
— Chegamos — falei, virando pra ela.
Milena me olhou com os olhos arregalados.
— Eu ainda posso desistir, né?
Soltei um sorriso de lado.
— Pode, mas não vai.
Ela soltou um suspiro longo.
— Eu não sei nem por onde começar.
Abri a porta e desci do carro.
— Começa descendo — falei, rindo.
Ela demorou uns segundos, mas saiu também. Assim que colocou o pé no chão, já deu pra ver que o ambiente bateu diferente nela. O som alto, o cheiro de bebida, o calor de gente, as luzes piscando, tudo junto, sem filtro.
Segurei a mão dela na hora.
— Vem comigo — falei firme. — Não solta minha mão, heim.
Ela apertou minha mão de volta, forte.
— Eu não vou soltar mesmo.
Fomos andando pela viela, desviando das pessoas. Eu cumprimentando geral, ela mais na dela, observando tudo.
— E aí, Liz! — um cara gritou.
— Fala! — respondi, sorrindo.
— Sumida!
— Tô viva, pô!
Milena olhava tudo, absorvendo cada detalhe. As meninas com roupas que ela só tinha visto pela internet, os caras dançando sem vergonha, o clima leve, apesar de tudo. Subimos mais um pouco até chegar na parte mais cheia.
O baile tava daquele jeito.
Música estourando, luz colorida, gente dançando colada, bebida passando de mão em mão, risada pra todo lado.
Eu amava aquilo.
Olhei pra Milena.
Ela tava parada, meio travada, olhando tudo com os olhos brilhando.
— E aí? — perguntei, soltando a mão dela devagar. — Tá viva?
Ela soltou uma risadinha nervosa.
— Eu tô em choque.
— Choque bom ou r**m?
Ela demorou um segundo pra responder.
— Eu acho que, bom.
Sorri.
— Então vem.
Puxei ela mais pra dentro do baile, sentindo o clima tomar conta. Mas, no meio do caminho, eu senti. Aquele arrepio, aquela sensação que eu conhecia bem demais.
Olhei pra frente, e lá tava ele, encostado, olhando tudo.
Coringa.
Meu irmão. Braço cruzado, postura firme, olhar atento em cada movimento. Ele não tava dançando, não tava curtindo. Ele tava observando. E quando o olhar dele caiu na gente, eu gelei.
Nem pensei duas vezes. Apertei a mão da Milena mais forte e puxei ela comigo, abrindo caminho no meio da galera.
— Vem — falei no ouvido dela, por causa do som alto.
Subimos as escadas do camarote, e eu nem precisei olhar pra frente pra saber. Ele já tinha visto. Senti o olhar do meu irmão na gente antes mesmo de chegar lá em cima.
Quando levantei o rosto, o Coringa já tava me encarando sério. Do jeito que eu sabia que vinha bronca. Parei na entrada do camarote e virei pra Milena, tentando manter a calma.
— Espera aqui, Mi, vou falar com meu irmão.
Ela assentiu na hora, visivelmente nervosa.
— Tá…
Soltei a mão dela devagar, mas ainda dei um apertinho de leve, como quem diz “fica tranquila”.
Virei e fui na direção dele. Cada passo que eu dava, o olhar dele ficava mais pesado.
Quando parei na frente, ele nem disfarçou.
— Qual foi, Liz? — perguntou, já sério. — Quem é essa mina?
Cruzei os braços, tentando não demonstrar nervosismo.
— Calma, Gael…
— Não vem com “calma”, não — ele cortou, seco. — Tu sobe com uma desconhecida pro baile e quer que eu reaja como?
Respirei fundo.
Eu já sabia que ia ser assim.
— Ela é minha amiga.
Ele deu uma risada sem humor nenhum.
— Amiga? — repetiu, olhando por cima do meu ombro na direção da Milena. — Desde quando tu traz amiga de fora pra cá?
Engoli seco.
— Faz tempo que a gente se conhece…
— Da onde? — ele perguntou na hora, direto.
— Da escola.
Ele arqueou a sobrancelha, claramente desconfiado.
— Escola?
— É — respondi, firme. — Ela estuda comigo.
Ele ficou em silêncio por uns segundos, me analisando. Depois passou a mão no queixo, olhando de novo pra ela.
E eu já sabia que ele tava avaliando.
— Ela é patricinha — ele soltou, direto. — Isso tá na cara.
Revirei os olhos.
— E daí?
— E daí que isso aqui não é lugar pra gente igual ela — respondeu, sério. — Tu sabe disso.
— E quem disse que não é? — rebati, já ficando irritada. — Ela tá comigo.
Ele me olhou de volta, o clima pesando entre a gente.
— Tu confia nela?
— Confio.
— Confia mesmo,f ou só quer brincar de levar ela pra conhecer o morro?
Aquilo me irritou de vez.
— Eu não sou criança, Gael.
Ele chegou um pouco mais perto, abaixando o tom de voz.
— Eu sei que não. Justamente por isso que eu tô te perguntando sério.
Sustentei o olhar dele.
— Eu confio nela. Ela não é problema.
Ele ficou me encarando por mais alguns segundos. Depois desviou o olhar, mas não totalmente convencido.
— Se der r**m, a merdä toda cai em cima de mim — ele falou, seco.
— Não vai dar.
Ele suspirou, como quem já tava cedendo, mas ainda contrariado.
— Ela vai ficar aqui em cima — disse. — Nada de deixar ela rodando sozinha lá embaixo.
— Tá bom.
— E outra coisa — ele completou, olhando sério de novo. — Qualquer coisa estranha, tu me avisa na hora.
Assenti.
— Pode deixar.
Ele ainda olhou mais uma vez na direção da Milena. Mas dessa vez, o olhar dele demorou um pouco mais. Virei antes que ele falasse mais alguma coisa e voltei pra Milena.
Ela tava exatamente onde eu deixei, meio sem saber o que fazer, olhando o movimento lá de baixo.
— E aí? — ela perguntou, assim que me aproximei. — Ele ficou bravo?
Soltei um suspiro leve.
— Ficou… mas já passou.
Segurei a mão dela de novo.
— Vem. Tu vai ficar aqui comigo.
Ela assentiu, ainda um pouco tensa.
Continua.....