CAPÍTULO 3
CORINGA NARRANDO
Meu nome é Gael, mas tudo mundo me conhece por Coringa. Tenho vinte e cinco anos.
Pra muita gente, isso não significa nada.
Pra outros, significa perigo. Poder. Medo.
Mas antes de tudo isso, eu sou só um cara que aprendeu cedo demais que ninguém vem te salvar.
Eu não tive pai.
Não tive mãe.
Na verdade até tive mais por muito pouco tempo. Eles morreram em um acidente quando eu ainda era pequeno demais. Minha irmã então era um bebê.
A gente não teve casa.
A gente teve um orfanato.
Um lugar cinza, cheio de regra, cheio de castigo, cheio de gente que fingia cuidar, mas só fazia contar os dias. Lá dentro, a gente não tinha nome, tinha número. Não tinha futuro, tinha silêncio.
A única coisa que eu tinha de verdade era minha irmã.
Liz.
Ela tem dezoito agora, mas quando tudo começou, ela ainda era pequena demais pra entender o mundo c***l onde a gente tinha sido levado. Desde cedo, eu virei tudo pra ela: irmão, pai, escudo, promessa. Eu prometi que ninguém ia encostar nela. Prometi que ela nunca ia passar fome sozinha. Prometi que a vida dela ia ser diferente da minha.
Quando eu fiz dezesseis anos, eu fugi.
Não foi bonito.
Não foi planejado.
Foi necessidade.
Peguei a Liz numa madrugada, com a roupa do corpo e um medo que quase me fez desistir. Mas eu não podia deixar ela lá. Não depois de tudo que eu vi. Não depois de tudo que eu ouvi atrás daquelas paredes.
A gente correu sem olhar pra trás.
A favela virou nosso mundo.
No começo… foi sobrevivência pura.
A gente comia o que os outros davam. Um prato aqui, um pão ali, um resto de marmita acolá. Tinha dia que a gente dormia com fome, e eu fingia que já tinha comido só pra Liz não se sentir culpada.
Ela nunca soube de tudo.
E nunca vai saber.
Eu virei olheiro cedo. Muito cedo.
Ficar atento, avisar quando a polícia subia, ganhar uns trocados. Não era escolha. Era o que tinha.
Com o primeiro dinheiro que consegui juntar, aluguei um barraco.
Chão batido.
Parede fina.
Telha velha.
Mas era nosso.
Arrumei um colchão no chão pra ela, improvisei uma cortina pra dar privacidade, fiz do pouco o máximo. Todo dia eu repetia pra mim mesmo que aquilo era temporário.
Coloquei a Liz na escola.
Isso era sagrado.
Podia faltar tudo, menos isso. Eu queria que ela tivesse opção. Que ela pudesse escolher ser outra coisa que não aquilo que o mundo empurrava pra gente.
Enquanto ela estudava, eu trampava.
Olheiro virou vapor. Vapor virou confiança. Confiança virou respeito.
E respeito… aqui em cima é moeda forte.
Eu aprendi a não acreditar em amor.
Aprendi que sentimento deixa fraco.
Que apego vira alvo.
A única exceção sempre foi ela.
Tudo que eu construí foi pra proteger a Liz.
Cada passo.
Cada escolha errada.
Cada noite sem dormir.
Hoje, geral me chama de dono do morro. De chefe da facção. Me respeitam. Me temem. Me obedecem. Mas ninguém vê o menino de dezesseis anos que dormia com um olho aberto, com medo de alguém encostar na irmã.
Ninguém vê o passado.
E eu prefiro assim.
Porque aqui em cima, quem mostra fraqueza… não dura. E eu não cheguei até aqui pra cair agora. Eu não virei dono de nada da noite pro dia.
Aqui em cima ninguém te entrega poder.
Tu toma. E toma pagando preço.
Quando eu já tava conhecido no morro, quando meu nome já corria de boca em boca, eu ainda era só mais um vapor que não abaixava a cabeça fácil. Trabalhava certo, não roubava morador, não mexia com mulher dos outros, não fazia covardia. Isso já me destacava.
Mas o dono do morro daquela época era um verme. Daqueles que se acham rei porque tem arma e homem armado em volta. Daqueles que confundem medo com respeito.
Eu já sabia de coisa errada.
Já tinha ouvido cochicho.
Mas naquele dia eu vi.
A mina tava chorando, encurralada num canto, roupa rasgada, olhar perdido. Ele rindo. Como se fosse nada. Como se ela fosse coisa.
Aquilo me subiu um ódio que eu nunca tinha sentido antes.
Não pensei na consequência.
Não pensei na Liz.
Não pensei em futuro nenhum.
Pensei só que ninguém tinha o direito de fazer aquilo.
Eu puxei a arma e atirei.
Sem aviso.
Sem discurso.
Sem tremedeira.
O barulho ecoou pelo barraco inteiro. O corpo dele caiu pesado no chão, o sorriso sumiu na hora.
A mina gritou.
Os homens dele gritaram.
O sub veio pra cima de mim na mesma hora, armado, louco de raiva, querendo vingar o chefe.
Erro dele.
Aqui em cima, ou tu reage, ou tu vira estatística.
Troquei tiro com ele ali mesmo. Curto. Seco. Quando a poeira baixou, ele também tava no chão.
Dois corpos.
Um silêncio estranho.
E um monte de homem me olhando, tentando entender o que tinha acabado de acontecer.
Eu pensei que ia morrer ali.
Mas não morri.
Porque muita gente ali já tava cansada daquele reinado nojento. Já tava cansada de ver abuso, de ver medo, de ver morador sendo pisado.
E alguém precisava fazer alguma coisa.
— Agora é contigo, Coringa — alguém falou.
Naquele dia, sem querer, eu virei dono do morro.
Não foi festa.
Não foi comemoração.
Foi aviso.
Chamei todo mundo, botei regra clara.
Aqui não ia ter abuso.
Aqui não ia ter covardia.
Aqui ninguém ia encostar em mulher à força.
Aqui morador ia ser respeitado.
Quem não gostasse… tinha o caminho da descida.
Teve quem testou.
Não durou muito.
Já tem sete anos que eu comando tudo.
Cinco anos mantendo ordem, resolvendo conflito, segurando guerra, negociando, cortando na própria carne quando precisava.
Aqui não é bagunça.
Aqui é disciplina.
Meu sub é o Toro.
Parceiro antigo. Daqueles que não some quando a coisa aperta. Cresceu no morro comigo, passou fome comigo, correu risco comigo. Sempre do meu lado.
Se eu confio minha vida em alguém é nele.
Ele segura a boca quando eu não tô. Ele fala por mim. Ele resolve o que dá pra resolver sem precisar sujar mais as mãos.
Porque sujar a mão cansa.
Hoje eu tenho poder. Fui nomeado a chefe da facção no ano passado.
Tenho respeito.
Tenho tudo que disseram que eu nunca teria.
Mas amor?
Isso eu não acredito.
Amor distrai.
Amor enfraquece.
Amor faz tu baixar a guarda.
E aqui em cima, quem baixa a guarda, morre.
Minha vida é o morro.
Minha prioridade é a Liz.
Meu coração tá trancado a sete chaves.
E vai continuar assim.
Continua ....