2- MILENA

1509 Words
CAPÍTULO 2 MILENA NARRANDO Esperei. Não foi ansiedade, foi estratégia. Fiquei sentada na cama, fingindo mexer no celular, mas com o ouvido atento a cada som da casa. Passos no corredor. Portas abrindo. O barulho distante do elevador social anunciando movimento. Só quando ouvi a porta da sala se fechar e, logo depois, o som abafado da fechadura girando, eu respirei fundo. Ele tinha ido. Levantei devagar, caminhei até a janela e vi o carro dele saindo da garagem do prédio. Só então meu corpo relaxou de verdade, como se a casa tivesse ficado mais leve sem a presença dele. Sozinha. De novo. Mas, dessa vez, era diferente. Dessa vez, eu tinha um plano. Fui direto pro banheiro, fechando a porta atrás de mim. O banheiro era grande, todo em mármore claro, frio, impessoal… do jeito que meu pai gostava. Liguei a banheira e fiquei observando a água subir, quente, soltando vapor. Enquanto a banheira enchia, minha cabeça não parava. Baile funk. Eu tentava imaginar como seria, mas tudo parecia distante demais da minha realidade. Luzes? Música alta? Gente dançando sem medo de ser vista, sem medo de julgamento? Entrei na banheira devagar, sentindo a água quente envolver meu corpo. Fechei os olhos e deixei a cabeça encostar na borda, soltando o ar dos pulmões. Talvez fosse só uma noite diferente. Talvez fosse só curiosidade. Ou talvez fosse a primeira vez que eu tava escolhendo algo por mim. Fiquei ali um tempo, pensando na Liz, no jeito livre dela, na segurança que ela sempre transmitia. Pensando em como ela falava do morro com tanto orgulho, enquanto meu pai falava com tanto desprezo. Era estranho perceber que eu conhecia tão pouco do mundo fora da minha bolha. Saí da banheira com a pele quente, enrolando a toalha no corpo. Passei creme devagar, como se aquele ritual simples fosse parte da preparação pra algo maior. Me olhei no espelho por alguns segundos. Eu não me achava feia. Mas também nunca me achei interessante. Sempre neutra. Sempre comportada. Sempre do jeito que esperavam. Voltei pro quarto ainda de toalha e sentei na cama com o celular na mão. Abri o navegador e digitei, meio sem graça: “Roupa para baile funk” As imagens começaram a aparecer uma atrás da outra. Vestidos justos, curtos, coloridos. Looks cheios de atitude. Mulheres confiantes, donas de si. Meu coração acelerou só de pensar em vestir algo assim. Abri o guarda-roupa. Roupas organizadas demais, todas escolhidas pra ocasiões que eu quase nunca ia. Vestidos comportados, saias longas, blusas discretas. Suspirei. Até que, no fundo, encontrei um vestido que quase nunca usava. Preto, justo na medida certa, curto sem ser exagerado. Comprei escondido meses atrás, sem coragem de vestir. Peguei ele na mão. Talvez fosse hoje. Coloquei o vestido com cuidado, ajeitando no corpo, me olhando no espelho de novo. Ele marcava minhas curvas de um jeito que eu não tava acostumada a ver. Meu coração disparou. — Calma… — murmurei pra mim mesma. Sentei na penteadeira e comecei a maquiagem devagar. Nada pesado. Algo que ainda fosse eu, mas diferente. Base, rímel, um pouco de blush. Um batom que eu quase nunca usava, mais escuro, mais marcante. Deixei o cabelo solto, com as pontas escovada pra fora. Coloquei um colar delicado, brincos pequenos, uma bolsa discreta. Passei perfume no pescoço e nos pulsos, sentindo o cheiro subir suave. Quando terminei, fiquei parada em frente ao espelho por longos segundos. Eu não parecia outra pessoa. Mas também não parecia a mesma Milena de sempre. Meu celular vibrou na cama. Liz: “Tô chegando. Relaxa.” O frio na barriga veio forte agora. Apaguei a luz do quarto, respirei fundo e caminhei até a porta, sentindo o coração bater rápido demais no peito. Peguei a bolsa em cima da cama e conferi tudo com cuidado, como se isso fosse me dar algum tipo de segurança. Celular. Carteira. Chave. Joguei tudo dentro da bolsa, fechei o zíper e joguei a alça no ombro. Olhei o quarto uma última vez antes de sair. A cama arrumada demais, a luz apagada, tudo no lugar… como se nada fosse acontecer. Como se eu fosse voltar a mesma. Abri a porta devagar e saí do apartamento, puxando a porta atrás de mim sem fazer barulho. O corredor estava silencioso, iluminado por aquelas luzes frias que sempre me deram a sensação de hospital. Caminhei até o elevador sentindo o coração bater no ouvido. Apertei o botão e esperei, olhando pros lados, mesmo sabendo que não tinha ninguém ali. Quando a porta do elevador abriu, entrei rápido e apertei o botão da garagem. As portas se fecharam. O elevador começou a descer e, a cada andar, a ansiedade aumentava. Passei a mão na bolsa, tentando acalmar os dedos trêmulos. Meu reflexo no espelho do elevador parecia diferente… mais viva. Ou talvez só mais nervosa. Meu celular vibrou na mão. Liz: “Cheguei.” Engoli em seco. — Agora já foi… — murmurei pra mim mesma. Quando o elevador parou, as portas se abriram direto na garagem. O cheiro de concreto, o eco dos passos, o barulho distante da rua entrando pelos portões abertos. Caminhei devagar, procurando com os olhos até reconhecer o carro da Liz. Um carro de luxo, chamando atenção até ali embaixo. Os faróis ligados, o som baixo escapando pelas janelas fechadas. Era a cara dela… sempre confiante, sempre chamando o mundo pra perto. A porta do passageiro se abriu assim que me viu. — Até que enfim! — Liz disse, rindo, assim que entrei no carro. — Eu quase desisti umas três vezes — confessei, colocando o cinto com as mãos ainda trêmulas. Ela me olhou de cima a baixo, um sorriso largo se abrindo no rosto. — Olha você… — falou, orgulhosa. — Tá linda, Milena. Relaxa. Hoje tu só vai viver. O carro saiu da garagem, se misturando ao movimento da rua.nLiz dirigia tranquila, como se aquilo tudo fosse a coisa mais normal do mundo. Uma mão no volante, a outra batendo de leve no ritmo da música que tocava baixo no carro. Eu, por outro lado, tava dura no banco do passageiro. — Liz… — chamei, a voz saindo mais fina do que eu queria. Ela desviou o olhar pra mim por um segundo. — Fala, amiga. — Tu não me contou um detalhe importante… — engoli em seco. — Esse baile… é tranquilo mesmo? Ela deu uma risadinha curta. — É sim. Relaxa. — Relaxa como, Liz? — falei, nervosa. — Eu nunca subi morro. Nunca vi nada disso. Eu tô com medo. Ela respirou fundo, como quem escolhe bem as palavras antes de falar. — Milena, presta atenção em mim — disse, agora mais séria. — Vai ter homem armado, sim. Não vou mentir pra tu. Meu coração quase saiu pela boca. — O quê?! — virei o rosto pra ela na hora. — Calma. — ela continuou, firme. — Eles são segurança. Tudo funcionário do meu irmão. Gente de confiança. Ninguém encosta em ninguém sem permissão, ninguém mexe com quem tá acompanhado. Tu tá comigo. Segurei a bolsa com mais força no colo. — Eu não sei se eu consigo… Ela estendeu a mão e apertou meu braço de leve. — Consegue, sim. Confia em mim. Tu não tá em perigo. Aqui é organizado, mais do que tu imagina. O que tu vê na TV não é a realidade inteira. Olhei pela janela e vi a paisagem mudar aos poucos. As ruas largas dando lugar a vias mais estreitas, casas subindo uma em cima da outra, luzes espalhadas, gente sentada nas calçadas, crianças brincando como se fosse qualquer noite comum. Meu coração batia descompassado. O carro diminuiu a velocidade. — Chegamos na barreira — Liz avisou, tranquila demais pro meu gosto. — Barreira? — repeti, sentindo um frio subir pela espinha. Antes que ela respondesse, vi. Homens parados dos dois lados da rua. Alguns encostados em motos, outros de pé, atentos. Todos armados. O clima mudou na hora. O ar ficou pesado. Meu corpo inteiro travou. — Meu Deus… — sussurrei, quase sem voz. Liz baixou o vidro com naturalidade. — Boa noite — cumprimentou. — Boa, princesa — um deles respondeu, sorrindo. — Tranquilo? — Sempre — ela disse. — Tô passando com uma amiga. O cara olhou pra dentro do carro por um segundo. Meu coração disparou quando os olhos dele cruzaram com os meus. Tentei sorrir, mas acho que saiu mais um olhar de pânico mesmo. — Fica tranquila — ele falou, num tom até calmo. — Pode subir. Eles bateram no capô do carro de leve, em sinal de liberação. Liz seguiu dirigindo, passando direto. — Viu? — ela disse, como se tivesse acabado de passar por um pedágio qualquer. — Tudo certo. Eu soltei o ar que nem tinha percebido que tava segurando. — Liz… — falei, ainda tremendo. — Eu quase morri agora. Ela riu. — Tu se acostuma. Aqui é assim. Ninguém mexe com quem anda certo. Eu encostei a cabeça no banco, tentando acalmar o coração. Continua .....
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