1- CONHECENDO MILENA

1499 Words
LIvro recomendado para maiores de 18 anos, conteúdo explícito!!! Livro escrito em atualização diária, sendo a obra concluída com a publicação do último capítulo e a sinalização de completo pela plataforma. CAPÍTULO 1 MILENA NARRANDO Meu nome é Milena. Tenho dezoito anos e, teoricamente, uma vida que muita gente invejaria. Apartamento enorme no Leblon, vista privilegiada, roupa cara, escola boa, tudo do melhor. Tudo… menos o principal. Minha mãe morreu no dia em que eu nasci. Nunca ouvi a voz dela. Nunca senti o cheiro. Nunca tive colo. Cresci sabendo que minha chegada custou uma vida — e, mesmo que ninguém dissesse isso em voz alta, eu sempre senti que essa conta caiu no meu colo. Quem me criou de verdade foi minha avó. Dona Lourdes. Ela era meu mundo inteiro. Era quem me acordava com beijo na testa, quem fazia mingau quando eu ficava doente, quem me defendia quando meu pai ficava frio demais. Era ela quem dizia que eu não tinha culpa de nada, que minha mãe tinha me amado antes mesmo de me ver. Quando ela morreu, há alguns anos, foi como se tivessem arrancado o último pedaço de chão debaixo dos meus pés. Depois disso… sobrou só eu e ele. Meu pai é um homem respeitado. Rico. Conservador. Orgulhoso. Daquele tipo que fala pouco, manda muito e nunca erra — pelo menos na cabeça dele. Ele sempre me deu tudo em dinheiro. Nunca deixou faltar nada material. Mas carinho, atenção, abraço… isso nunca fez parte do pacote. A casa sempre foi silenciosa demais. Funcionários entrando e saindo, mas ninguém perguntando como eu estava. Jantares frios, televisão ligada pra evitar conversa, e aquele clima pesado que parece que vai quebrar se alguém respirar errado. Eu aprendi cedo a não pedir nada além do necessário. Aprendi a me virar sozinha. A engolir o choro. A fingir que tava tudo bem. Talvez por isso eu tenha crescido me sentindo deslocada dentro da própria vida. Minha única amiga se chama Liz. A gente se conheceu na escola, anos atrás. Ela chegou quieta, cabelo preso, olhar atento demais pra alguém da nossa idade. Demorou pra se soltar, mas quando soltou… virou minha melhor amiga. Liz é diferente de tudo que meu pai aprova. Ela mora na favela. Na Rocinha. E se meu pai sonhar, só sonhar, que eu tenho amizade com alguém “do morro”, ele surta. Literalmente. Já ouvi ele falando cada absurdo… como se todo mundo de lá fosse bandido, como se ninguém tivesse história, dor, família. Por isso, nossa amizade sempre foi escondida. Nada de visitar a casa uma da outra. Nada de foto juntas. Nada de comentário solto. Liz sempre entendeu. Nunca me julgou. Nunca me pressionou. Ela dizia que eu vivia numa bolha… e eu sabia que era verdade. Enquanto ela conhecia o mundo do jeito mais cru possível, eu vivia protegida demais, controlada demais, presa demais. Às vezes eu me sentia ingrata. Outras vezes, sufocada. A verdade é que eu tinha tudo… mas me sentia vazia. A série passava na tela, mas eu já nem sabia mais que episódio era. Eu tava largada na cama, de lado, com o celular jogado perto do travesseiro e o controle da TV na mão, passando cenas sem realmente assistir. Era sempre assim quando a casa ficava silenciosa demais. O silêncio fazia barulho dentro da minha cabeça. A porta do quarto se abriu sem aviso. Nem precisei virar o rosto pra saber que era ele. Meu pai nunca bate. — Milena — a voz dele saiu firme, objetiva, do jeito de sempre. Pausei a série e sentei na cama, puxando o edredom um pouco mais pra cima, mais por costume do que por necessidade. — Oi. Ele entrou só o suficiente pra deixar claro que aquela conversa não ia durar mais que um minuto. Terno impecável, celular na mão, a postura de quem tá sempre com pressa. — Vou viajar a trabalho. — disse, como se estivesse avisando o horário do almoço. — Saio hoje à noite e só volto na segunda-feira. Assenti com a cabeça. — Qualquer coisa, me liga. — completou, já dando meia-volta. “Qualquer coisa” nunca significava nada de verdade. Nunca foi um convite pra conversar. Nunca foi preocupação. Era só obrigação dita em voz alta. — Tá bom — respondi, automática. Ele nem esperou mais nada. A porta se fechou atrás dele com um clique seco. E pronto. Mais uma vez… só eu. O silêncio voltou a ocupar o quarto inteiro, pesado, quase sufocante. Deitei de novo, encarando o teto branco, sentindo aquela sensação conhecida de abandono bater no peito. Sozinha num apartamento enorme. Sozinha numa vida que parecia grande demais pra mim. Meu celular vibrou em cima da cama. Peguei sem nem olhar a tela primeiro, mas quando vi o nome, meu coração deu uma leve acelerada. Liz 💜 Atendi na hora. — Amiga — a voz dela veio animada, do outro lado. — Tu tá em casa? — Tô… — respondi, suspirando. — Sempre, né. Ela riu. — Adivinha? Vou ir pro baile hoje. — Ué, cadê teu irmão? Não vai se implicar? — perguntei, já imaginando. Porque ela me falava que ele pegava no pé dela. — Tô nem aí pra ele, já avisei que eu vou ir – ela disse, toda animada – E teu pai? Hesitei um segundo antes de responder. — Vai viajar. Só volta na segunda. Do outro lado da linha, ficou um silêncio… daqueles perigosos. — Milena… — Liz chamou, com aquele tom que eu já conhecia bem. — Não começa — falei rápido, sentando na cama. Ela riu de novo. — Amiga, escuta. Vai ter um baile hoje. Lá em cima. Coisa tranquila. Música boa, geral conhecido. Meu estômago deu um nó imediato. — Liz, tu tá maluca? — falei em voz baixa, mesmo estando sozinha. — Eu nunca fui em baile. E se alguém ne vê? E se dá problema? — Ninguém vai saber — ela respondeu na hora. — Teu pai não tá. Tu nunca sai. Nunca vive. É só hoje. Levantei da cama e comecei a andar pelo quarto, passando a mão no cabelo, nervosa. — Eu tenho medo… — confessei. — Eu não conheço esse mundo, Liz. Não é igual pra mim. — Eu sei — ela disse, mais calma agora. — Mas é justamente por isso. Tu vive presa, Milena. Presa nesse apê, nessa vida que não é tua. Tu confia em mim? Fechei os olhos por um instante. Confiava. Liz nunca me colocou em risco. Nunca mentiu pra mim. Nunca me deixou na mão. — Confio… — murmurei. — Então pronto. Eu vou te buscar. — disse, decidida. — Discreta, sem drama. Tu bota uma roupa bem babado, a gente vai, curte um pouco e volta. Ninguém vai nem imaginar. Meu coração batia rápido demais agora. — E se meu pai descobre? — Ele não vai. — respondeu firme. — E mesmo se fosse… tu tem dezoito anos, Milena. Não tá fazendo nada errado. Eu encostei na janela do quarto e olhei a cidade lá embaixo. Luzes acesas, carros passando, gente vivendo. E eu ali, sempre parada. — Eu nunca fiz nada assim… — falei, mais pra mim do que pra ela. — Toda primeira vez assusta — Liz respondeu, com um sorriso na voz. — Mas às vezes é exatamente o que muda tudo. Respirei fundo. Talvez fosse só uma noite. Talvez fosse só um baile. Talvez não fosse nada demais. — Tá… — falei, sentindo o coração quase sair pela boca. — Mas tu promete que vai ficar comigo o tempo todo? — Prometo. — ela respondeu na hora. — Não largo tua mão nem se o mundo acabar. Desliguei a ligação ainda tremendo um pouco. Continua.... Palavras da autora 👇 Avisos importantes: Como o universo é morro, traficantes, a linguagem utilizada não é na maioria das vezes o português escrito no dicionário. Mas sim o português falado no dia a dia com suas abreviações de palavras e gírias. Algumas palavras são censuradas pela plataforma, então aparece a primeira letra e ** mais a última letra, exemplo, s**o, seio, quando a autora lembra, ela pode usar o trema sëio e você terá a palavra escrita com uma acentuação não pertinente. Temos uma janela de publicação curta pois conta o horário dá plataforma em Singapura, para termos nossas metas diárias completas, de forma que fazer uma revisão ortográfica antes de publicar, para mim que escrevo em média 4 livros ao mesmo tempo é impraticável. Caso tenham alguma dúvida, ou não entendam algo escrito, podem sinalizar nos comentários do capítulo que eu terei todo carinho do mundo em esclarecer. Eu não escrevo violência doméstica nem tão pouco cenas de estüpro. Espero que gostem de ler um romance diferente que se passa em algum dos muitos morros do Brasil! Lembrando que eu nunca fui em um morro. Então tudo que eu escrevo é fruto da minha imaginação e pura ficção. Livro registrado e com direitos reservados.
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