Valéria estava atordoada, pusilâmime, suja de sangue e se esforçava para andar, a Larissa quem a auxiliou.
— Eu matei pessoas — falava Valéria surpresa consigo própria, como se estivesse dopada de remédios.
— Tudo bem, minha querida, foi necessário que elas morressem, faz parte — disse Larissa e sorriu como se tudo não passasse de um incidente engraçado. — Não se culpe.
— Eu nunca tinha feito isso... Não desta maneira.
— Nossos deuses te deram um dom, você precisa usá-lo. Agora, você tem um Pacto com os Treumilas, n******e voltar atrás.
— Eu não quero mais m***r assim. Não me senti bem.
— Não será você, fique tranquila, o seu dom vai te dominar e em breve você se tornará uma deusa, eu quero estar lá quando acontecer, minha venerada Allogaj.
— Hum! Você é completamente devota e doente, Larissa.
A garota apenas sorriu com aquele comentário, ainda a segurar Valéria pelos braços como se ela fosse uma enferma a precisar de repouso.
***
Era uma hora da madrugada quando Larissa colocou Valéria no antigo quarto da rainha na Basílica, havia menos objetos, móveis e utensílios que antes, pelo menos deixaram a cama.
Aquele lugar não era aberto desde que Kanahlic voltou para o Castelo, desde que transformou a Basílica numa escola, por falta de manutenção, o cheiro de mofo era perceptível, mas não incomodava.
Larissa removeu os calçados, o casaco e a roupa de dormir de Valéria a deixá-la completamente desnuda, porém, a sua feição continuava apática, deitada na cama.
A garota pegou uma esponja úmida com água quente e limpou algumas partes do corpo da Allogaj sujas de sangue. Pegou em sua mão direita tomada pelas trevas e disse que era belo.
Valéria despertou-se do seu torpor e puxou o próprio braço de volta, depois arrastou um lençol para se cobrir.
— O que você está fazendo? — perguntou a Allogaj.
— Estou te ajudando, chica — respondeu Larissa. — Apenas queria te manter limpa e cheirosa, quero que esteja agradável, pois, os Treumilas têm outro propósito para você.
— Além de m***r pessoas, eu não sei se vou me acostumar com isso — Valéria se levantou ainda a encobrir os s***s e chegou bem perto do rosto da mexicana. — Você está sendo gentil demais, o que você quer de verdade?
A mexicana ficou ruborizada e se levantou para ir embora a pedir perdão, mas Valéria a segurou pelo braço e pediu para ela ficar, então, Larissa voltou a sentar-se na cama, totalmente comportada, como se estivesse tímida, mas Valéria sabia o que ela estava a fazer e o que ela queria.
Não era comum terem algum tipo de r*****o afetiva depois de uma chacina, mas como eram imprevisíveis, tudo indicava que, mesmo a terem se conhecido no mesmo dia, teriam algo mais íntimo.
— Minha senhora — falou Larissa com olhar sensual —, quer que eu continue a te limpar?
— Sim, mas tire a sua roupa também.
Larissa sorriu, imediatamente, e sem cerimônia, ela arrancou a própria túnica. Valéria pediu que ela deitasse ao lado dela e a madrugada para elas foi mais abrasadora do que pensaram que seria.
Aquele era o dia de ócio e não haveria aula na Basílica, nem a******a do comércio, era o dia do lazer, para as outras pessoas, dia de luxúria.
Os Treumilas precisavam dela, a rainha também, ela teria que juntar o "útil ao agradável" para fazer as vontades de quem ela se subordinou... Por enquanto.
***
Duas da manhã e metade do pessoal das luzes, traidores, insurgentes, contra o reinado de Kanahlic, estava no oculto laboratório secreto de Lidarred na Floresta das Cavernas, outrora Floresta obscura.
Estavam diante de duas camas onde estavam o antigo Mago Real Escálius e a antiga Rainha Zadahtric desacordados.
— Eles não podem ser despertos — falou Débora para a Diretora Sal, uma das mulheres que passou a tomar conta daquele recinto. — Estão sob efeito de encantamento, mas com os nossos contra-feitiços, vão despertar assim que o sol nascer.
— Finalmente, temos a nossa Rainha de volta, a luz vai reinar novamente — alegrou-se Sal.
Cesar estava com o Beltenor, com a Naty, com o Érrio e com a Layra, também alguns poucos, ele bocejou tão alto que chamou atenção de quem estava presente naquele lugar.
— Desculpa gente, estou com sono, mas aproveitando a atenção, eu gostaria de dizer que não entendi nada do que aconteceu hoje.
— Creio que você está a se referir sobre Feiticeiro Mascarado, não é? — disse a Feiticeira Sal.
— Sim... O que foi aquilo tudo? Quem é ele?
— Ninguém sabe quem é ele, meu caro Cesar, sua origem, sua família, nada, nem os próprios seguidores, só sabemos ele é muito poderoso, o que é super difícil encontrar um feiticeiro das cinzas com tamanho poder sem ser abençoado ou privilegiado — Sal apresentou a Débora para ele com as mãos. — Débora foi a única que teve contato direto com ele por muito tempo.
— Sim — confirmou a jovem mulher —, ele é o meu mestre, eu faço parte do seu clã, ele é como um salvador para nós feiticeiras renegadas por este mundo, ele é o nosso líder, o nosso protetor, o nosso mentor. Tem resgatado muitos feiticeiro das cinzas da e********o e exploração. Um herói. Possui muitos conhecimentos e é imbatível porque eu já o vi em combates. Exímio duelista. Infelizmente ele some por um tempo, ele vai cuidar de outros renegados pelo mundo, mas ele está com um propósito de juntar a todos e a todas nós. Um dia, aparecerá alguém que irá ajudá-lo com poder elevado ao dele, segundo a profecia de um de nós, mas é algo incerto.
— Qual o problema com os feiticeiros das cinzas? Eu nunca entendi isto? — questionou Cesar. — Até hoje, ouvi dizer que são muito talentosos e dotados de dons, isso devia ser motivo de serem enaltecidos.
— Oh! Meu querido Allogaj, o problema não está em nós feiticeiras, e sim na sociedade mágica que não nos aceita por sermos diferentes. Cesar, você aprendeu que neste mundo, ou você é das trevas ou é das luzes, o meio-termo é considerado aberrante — continuou Débora. — Nós não nos encaixamos totalmente em uma categoria específica porque podemos praticar as duas de magias e alguns podem fazer isso ao mesmo tempo. Somos classificadas como feiticeiros convergentes que atrapalham o equilíbrio do Universo, somos perseguidos, somos humilhados, somos escravizados, somos mortos, principalmente neste continente, tudo o que a sociedade mágica considera aberrante se repudia de tal forma que se pudessem, seríamos exterminados do mundo.
— Eu jamais vou permitir isto, podem contar comigo — assegurou Cesar.
Ele nunca se exaltou, mas naquele momento se sentiu alguém capaz de fazer alguma coisa para que o mundo fosse um lugar melhor, sem discórdia, sem guerras, sem mortes.
Débora se emocionou por aquelas palavras, tocou o rosto do rapaz com muito apreço e disse:
— Você é inigualável, Allogaj.
Cesar segurou nas mãos dela bem firme.
— Você que é inigualável, única, especial. Eu vou fazer de tudo para te manter segura.
De repente, uma grandiosa fumaça cinza com filetes de raios amarelos surgiu naquele recinto e o Feiticeiro Mascarado, enorme, parrudo, peludo e musculoso, apareceu lá dentro, era tão grande que a sua cabeça quase tocava o teto. Com voz grave, disse:
— Não será necessário a sua ajuda no momento, agradeço a sua disponibilidade, mas sei que você tem um propósito a cumprir.
Débora sorriu, correu para o seu mestre e o abraçou.
— Meu mestre — disse ela.
— Minha querida Déb.
O restante do pessoal ficou boquiaberto.
— Como você conseguiu entrar aqui por um portal? — perguntou Beltenor bastante intrigado.
— Eu tenho os meus segredos — respondeu o Mascarado.
Sal apontou para Cesar e disse:
— Sabe que temos um Allogaj conosco, não é?
— Sei, e com isto também quero dizer que conheço os vossos planos, não estarei contra vocês, não ajudarei vocês no que estão a fazer, eu tenho um propósito e vim para resgatar os meus, ou os que querem fazer parte da minha ordem de feiticeiros. E em questão de duelo, não estou à altura de um Allogaj, também não me oporei contra vós — o Mascarado olhou para Rosie Senna, a seguidora de Lidarred que usava a sua famosa Capa Vermelha e estendeu a mão para ela. — Eu sei que você é das cinzas, venha comigo, estará mais segura e será muito bem-vinda ao meu clã.
Rosie, com os olhos a brilhar, deu dois passos à frente, mas a sua amiga Bia protestou.
— Não me de deixe amiga, por favor, não tenho mais ninguém — Bia sentia que o Mascarado a convidaria a participar também do seu clã, mesmo não ela sendo das cinzas e sim das luzes, mas ela sentia uma ligação muito forte com ele.
— Eu preciso ir amiga, é um sonho meu de muitos anos. Estou cansada de ser renegada pela sociedade, agora eu posso me expor sem medo no meio de tanta gente igual a mim, eu preciso ser feliz.
O Mascarado olhou para Bia e estendeu a mão para ela também, o que já era esperado.
— Se quiseres, venha comigo também, pode ser que você se agrade quando reconhecer-me.
— Sério? Mesmo sem eu ser das cinzas? — indagou Bia com cerimônia.
— Sem dúvida alguma.
Bia olhou para trás, o seu pessoal estava seguro, completo, não precisavam mais delas, eram poderosos, já havia resgatado a Zadahtric, a guerra já estava arquitetada, eram inteligentes poderosos, e elas não ajudariam muito na guerra, pensou bastante, mas não se demorou.
Correu para os braços do misterioso Feiticeiro Mascarado que bateu o seu bastão de prata no chão e as quatro pessoas sumiram num portal de fumaça cinza com filetes de raios amarelos. Pelo menos, deu tempo de se despedirem.
Depois do silêncio inevitável, Érrio comentou.
— Pelos amor dos deuses, o que foi que acabou de acontecer?
Depois desse momento peculiar, no meio da madrugada, Érrio ficou a olhar para o pessoal a procura de respostas, mas ninguém pôde dizer-lhe algo que fizesse o total sentido.
— Pessoal! — gritou o rapaz como se quisesse acordá-lo. — Não vamos falar sobre isso? Como é possível ninguém saber nada sobre este homem? Como ele entrou aqui por um portal tão facilmente? Gente, isso é motivo de preocupação. Aposto que a Débora quem nos delatou, ela pode ser uma traidora.
— Érrio, entenda — respondeu Naty —, o Feiticeiro Mascarado consegue fazer coisas que desconhecemos e vem fazendo desde que se revelou ao mundo, já se pronunciou perante os Vinte e Quatro Anciões, já visitou quase o mundo inteiro, já foi na Cidade dos Immunus, ele é muito poderoso. n******e ser mais poderoso que o Cesar, mas ele tem muito mais conhecimento.
— Sim, mas para ele entrar aqui desse jeito, só poderia ter vindo aqui antes, ou Débora lhe deu um localizador, são muitas as hipóteses — insistia Érrio.
— Érrio, ele tem um propósito de vida, resgatar os feiticeiros das cinzas que são renegados neste mundo. Pelo menos, não está contra nós — disse Layra dessa vez. — Mas não vamos ficar falando sobre ele, temos uma guerra a enfrentar.
— Sim, porta-voz Layra, vamos focar na guerra que está por vir, a nossa rainha precisa estar preparada para enfrentar a irmã, elas quem devem brigar pelo trono — falou Sal. — Nós a ajudaremos, as trevas não vão governar este Reino.
— Só estou curioso para saber o local qual Kanahlic vai escolher para decidir onde será travada a guerra pelo Protocolo da Organização Mundial de Magia — disse Beltenor e jogou as mãos para o alto. — E que eles considerem-se derrotados.
— Gente, eu estou nervoso, nunca participei de uma guerra — disse Érrio. — Não consigo falar com tanta tranquilidade como vocês.
— É verdade o que estou ouvindo? — falou Sal sem paciência. — Num mundo onde se há guerras por quase todo lado? Se quiser, pode ficar aqui e se esconder com os outros, seu langoroso.
— Este lugar é protegido, eu ficarei sem problemas — Érrio fez pouco caso da ofensa.
— Sem garantia, a segurança total deste lugar é sustentada pelo Cesar, mas você pôde ver que o inigualável Feiticeiro Mascarado conseguiu invadir mesmo assim.
— Mas Érrio tem razão — comentou Layra —, sei que acabei de dizer que era para a gente ficar falando neste assunto, mas a sua súbita chegada só prova que ele já veio aqui antes, ou chegou aqui por meio de um localizador. Mas ele não está contra nós, é o que importa.
— De qualquer maneira, eu não quero morrer — insistia Érrio. — Vocês não vão me obrigar a entrar nesta guerra, é certo que alguém dos nossos vai morrer, não quero correr o risco.
— Por que você se tornou líder de um g***o de Feiticeiros Prodígios? — questionou Sal com dureza. — Você é muito fraco, covarde, a*******e — ela se aproximou com o seu bastão a apoiá-la para andar e Érrio se afastou com medo. — Tenha vergonha nesta cara.
— A rainha me escolheu para ser líder porque eu tenho o dom da visão, ela preza pelos que têm dons raros — respondeu Érrio completamente cabisbaixo.
Enfrentar uma Immortalis como a Sal seria muita coragem.
— Eu sei muito bem por que Zadahtric te escolheu — ela cuspiu as palavras.
Beltenor apenas ria de toda a situação.
Cesar limpou a garganta e pediu gentilmente para falar em particular com a Feiticeira Sal.
No momento, ela era a maior autoridade enquanto a rainha estivesse desacordada sob encantamento, e acabou por cancelar uma provável discussão.
Sal chamou o Cesar para um canto para conversarem enquanto o pessoal se reunia ao redor de Érrio para comentarem sobre a provável discussão.
— Sim, meu querido, o que deseja falar?
A Feiticeira Sal mudou imediatamente o seu modo de se expressar, ela prezava o Cesar de uma maneira que nem mesmo ele fazia ideia, mas sentia e correspondia todo aquele respeito.
— Olha, eu gostaria que a senhora me falasse um pouco sobre o ouro e a prata da ilha descoberta por Vévda Noveanor — a questão de Cesar deixou a Diretora da Basílica impressionada ela olhou para o pessoal e levou o Cesar para mais longe.
— Como você sabe que a ilha foi descoberta por Vévda? Onde você conseguiu essa informação? Isso é confidencial, ninguém do seu nível de magia sabe quem foi Vévda.
Cesar fez uma careta, ele lembrou-se de que a Luz falou para ele não contar a ninguém o que viu e ouviu, e agora soltou uma pequena informação sigilosa.
— Sinto muito, não era para eu ter dito isso. Mas eu juro que não contei a ninguém.
— Bom! Agora que você tocou no assunto, eu vou te explicar, uma questão que está trancada a sete chaves pela Organização Mundial da Magia Universal. Ouça, Noveanor era uma exploradora, descobriu vários lugares há tempos, cidades perdidas, livros mágicos antigos escritos em antigo-dorbiano, foi uma excelente professora para o mundo, mas o seu trabalho de vida foi arquivado pela Organização Mundial simplesmente porque Vévda era mulher, e os Senhores deste mundo são patriarcais e machistas demais para aceitarem as suas contribuições para o mundo mágico, segundo o que deixaram transpassar. Mas o verdadeiro motivo era porque Vévda era uma Cinecae. Entende isto?
— Entendo, quando alguém deseja mudar de magia passa pelo processo de conversão e por um erro acaba dividindo as duas magias no próprio cerne. Ela era uma feiticeira das cinzas.
— Exatamente. Vévda era das trevas e queria se tornar das luzes, isso ocorreu antes de ela começar a explorar o mundo, acabou por se tornar uma Cinecae.
— Isso é muito interessante — impressionou-se Cesar.
— Sobre o que mesmo você queria falar?
— Sobre o ouro e a prata da ilha, elas conduzem magia, certo?
— Sim. Pessoas com grau acima de onze conseguem usar a prata, assim como os luvas-de-prata, por isso são tão poderosos, mas apenas o pessoal da realeza consegue usar o ouro. Os bastões mágicos de madeira, que são para a plebe, são fortes e leves de manusear, mas não têm tanta resistibilidade e durabilidade que o ouro e a prata.
— A senhora disse uma coisa que me chamou atenção, apenas o pessoal da realeza pode usar o ouro da ilha de Noveanor para conduzir magia. Eu até sabia sobre isso, mas quando eu vi o Feiticeiro Mascarado usar o seu bastão de prata, eu percebi que havia um pedaço descascado. Me pareceu ouro.
— Rasec, isto significaria que ele é da realeza — Sal acreditou em Cesar sem pestanejar.
— E tem mais, quando ele invadiu o Castelo e lutou sozinho contra todo o pessoal de Kanahlic até ir embora, ele quase se desmanchou de tantos ataques de gente poderosa. Ele sangrou e eu reparei que o sangue dele saiu azul.
— Pelos Trealtas, o Feiticeiro Mascarado é alguém da realeza. Mas qual? Há tantos reinos com tanta gente poderosa neste mundo.
— Parece que nunca saberemos, a não ser que ele retire a máscara — falou Cesar.
— Hum, parece que isto não vai acontecer, e se acontecer, espero estar lá para ver.
Cesar e Sal mantiveram aquele diálogo em segredo por nenhum motivo aparente, apenas queriam ter um assunto particular.
A madrugada de vigília foi calma, harmônica, houve música, Dulca, que estava com o pessoal, sabia tocar instrumentos de corda.
Comeram alguma coisa, tentaram permanecer acordados, queriam continuar despertos para receberam a rainha com muito alento.
***
Assim como Débora havia falado, o sol nasceu e Escálius e Zadahtric despertaram do encantamento.
Zadahtric, com olhar de ressaca observou a todo o ambiente e não deu a mínima importância para o pessoal que lhe deu as boas-vindas com alegria, estava irritada, queria o seu trono, o seu Castelo, o seu reinado.
— Que lugar é este? — questionou Zadahtric, examinou-se a si própria. — E que roupas são estas? Não tinham nada melhor para me vestir? — depois focou no pessoal, não estava nada contente. — Por que demoraram tanto assim para me resgatarem? Eu quase fui desmagnificada, seus incompetentes.
— Majestade, fizemos todo o possível para te resgatar, não seria tão fácil — respondeu Sal com toda serenidade que possuía. — Arriscamos as nossas próprias vidas — ela apresentou a Nabyla. — Nos esforçamos muito para trazermos esta Transcendentis para cá, foi assim que te recuperamos, e ao seu Mago Real também.
— Não seria fácil? — berrou Zadahtric. — Este Reino está quase quebrado, Kanahlic não tem mais súditos do que eu, vocês são uns incompetentes, esta é a verdade — berrou. — Por que não fizeram motim?
— Perdoe-nos, Vossa Majestade — Sal se curvou diante da rainha destronada e o restante do pessoal a imitou, ela prosseguiu —, mas Kanahlic conquistou a população, não teríamos chances se causássemos motim, fora nos expormos para o Reino e sermos presos ou mortos.
— Hum! Sei — ela olhou para as meninas negras que estudavam no Castelo durante o seu reinado. — Pelo menos, vejo que as minhas Prodígios conseguiram sobreviver. Kanahlic matou a todos que a traíram, eu vou fazer o pior quando voltar para o meu trono.
Cesar observou a arrogância de Zadahtric e ficou extremamente decepcionado com ela.
Muita coisa fez sentido para ele naquele momento e passou a enfrentar um conflito interno sobre ajudar ou não uma rainha das luzes, porém, totalmente m*l-educada e mimada a reconquistar o trono do Reino de Ic.
— Minha rainha, não te esqueças de que Kanahlic tem uma Allogaj para a ajudar — avisou Layra.
— Que inferno! Maldita seja aquela menina, eu a quero morta, decapitada, esquartejada e jogada para os cães.
— Eu tive contato com ela — avisou Sal —, ela corre perigo de vida e será desmagnificada com o tempo, não quer se arriscar em usar magias muito poderosas. Também tive acesso aos planos de Kanahlic, tenho muitos conhecimentos e sei que vamos conseguir restituir o seu reinado. Kanahlic mandou fazer uma piscina de fluido da desmagnificação, vamos usá-lo contra nossos opositores...
— E depois matá-los, nosso Reino está uma bagunça depois que passamos a perdoar e a banir traidores — ela olhou para Escálius, um senhor calvo de barba grande e branca, tinha nariz de bolota o olheiras pesadas. — Isso tudo é culpa sua, as suas decisões permitiram que Kanahlic voltasse mais poderosa e com uma Allogaj. Como vamos enfrentar isto?
Escálius não soube o que responder, mas Sal tomou a fala para dizer que ainda havia esperança para eles.
— Não se preocupe, Majestade, outro Allogaj surgiu para este mundo, e o melhor de tudo, é das luzes e está conosco — chamou o Cesar para que ele se aproximasse. — Minha rainha, este é o Rasec, veio da Terra, de Gorbis, foi possuído pela magia das Luzes e emana dele a pura essência...
— Outro Allogaj? O que está acontecendo com o Universo? — ela se aproximou de Cesar. — Hum! Você tem olhos bonitos, mas me parece um simples plebeu, um ajudante de cozinha. Espero que seja tão poderoso quanto a maldita Audaxy.
Cesar ficou nervoso, ele não sabia o que dizer, apenas se curvou em respeito àquela autoridade.
— Minha rainha querida — disse Érrio para que ela o visse.
— Ah! Meu querido Prodígio — até o momento, Érrio foi o único a quem ela recebeu com carinho, até mesmo o abraçou. — Meu servo favorito, que bom que você está bem. Eu aposto que você foi um dos que mais se empenhou para que eu fosse resgatada, depois eu quero saber de todos os detalhes, somente os líderes — ela olhou ao redor. — Mas não aqui. O que é este lugar? Um laboratório de um alquimista?
— Este é o lugar mais seguro onde pudemos te trazer, Majestade — respondeu Beltenor. — É o covil secreto de Lidarred.
— Quem conseguiu encontrá-lo?
— Uma seguidora dele.
— Onde ela está? Quero dar os meus parabéns.
— Ela foi embora com o Feiticeiro Mascarado, Majestade.
— Ele já voltou? Eu quero saber de tudo, mas me levem para outro lugar, logo. Não gosto de ficar em locais abaixo do solo.
Depois daquilo, decidiram irem para a mansão da Feiticeira Sal, ali estariam bem protegidos por um encantamento poderosíssimo, só torceriam para que Valéria não descobrisse e tentasse desfazê-lo, apesar de que exigiria muito esforço, mas ela conseguiria.
***
Valéria foi acordada por Larissa, que já estava trajada com a sua capa da levitação. Ela havia preparado um café da manhã para Valéria, também, um vestido preto que fazia bem o seu estilo. Valéria se vestiu e comeu.
Larissa a mimou, penteou a sua franja, já que o resto do cabelo foi raspado, mas ela tinha um bom crescimento e os pontinhos pretos começaram a aparecer, a perfumou, calçou-lhes as botas e lhe entregou um novo bastão dado pelos sacerdotes dos Treumilas, era feito de madeira n***a como ébano, era extremamente raro e Valéria não tinha noção da importância daquele bastão.
— Falta fazer o DNA, minha senhora, se quiser — disse Larissa.
— Por que está fazendo tudo isto por mim? — questionou Valéria.
Larissa se curvou e disse:
— Eu te venero, poderosa Allogaj, sempre venerei — com olhar fanático encarou a Allogaj. — Eu tentei fazer de tudo para me aproximar de você, mas nunca me permitiam, e ontem você realizou um dos meus maiores sonhos.
— Ok! Já chega, você é muito esquisita.
Larissa se prostrou ainda mais a pedir desculpas e Valéria mandou que ela parasse com aquilo.
— Os mestres desejam vê-la ainda hoje, ao meio-dia, em frente à Basílica, quando os portões estiverem fechados.
— Por quê?
— A primeira entrada n******e mais ser utilizada, um balcão de recepção foi posto hoje pela rainha em cima da passagem.
— E por que a rainha não sabe sobre este compartimento secreto que leva a um templo de adoração aos Treumilas?
— Nunca, jamais. Ela é idólatra dos Trealtas.
Dentre cem por cento dos feiticeiros das trevas daquele mundo, dois por cento estava com os Treumilas.
Valéria iria dizer alguma coisa, mas não pôde, pois, a rainha invadiu o quarto, estava sozinha, apareceu lá por intuito já que a procurava pelo Castelo e não sabia onde ela estava.
— Audaxy, estou há horas a te procurar — ela olhou para Larissa. — Quem é esta? Trabalha no Castelo? — disse Kanahlic por causa da capa da garota, pois, tinha o brasão do Reino.
— Ela é só a minha c****a — respondeu Valéria a dar de ombros.
— Ah! Que seja — Kanahlic estendeu a mão. — Venha, precisamos de você no Conselho, discutimos bastantes assuntos ontem e você precisa ficar a par dos nossos planos. Precisamos dos seus poderes.
Valéria olhou para o lado de fora do quarto.
— Que dia é hoje? Onde estão os alunos da Basílica?
— Cancelamos as aulas de hoje e é por isto que precisamos de você, temos um plano e vamos levar isto a diante, já fazemos ideia de quem são os traidores, temos os registros de todas as pessoas deste Reino. Ninguém ficará escape.
Larissa olhou para Valéria de maneira significativa e Valéria perguntou:
— Sabe dizer as horas, Majestade?
— Sim, está perto do meio-dia.
— Majestade, podemos executar o plano daqui a duas horas, quem sabe menos? — Valéria, praticamente, implorou com os olhos.
— Audaxy, eu preciso de você. Vai sumir outra vez?
— Não, Majestade, eu juro que preciso fazer algo importante e prometo que volto assim que terminar.
— Conte-me então o que você vai fazer, e com... — a rainha se interrompeu automaticamente.
Valéria não sabia o que dizer, Larissa não podia falar por ela. Valéria pensou bastante e sempre a olhar preocupada e nervosa para a garota qual chamou de c****a. Foi daí que, para a rainha, algo fez sentido.
— Oh, não! — continuou Kanahlic a expressar repulsa. — Vocês... Vocês duas... — Kanahlic encobriu o rosto encabulada. — Escute, eu vou lhes dar uma tolerância de duas horas, não me decepcione, Audaxy, tudo está dependendo de você agora. — Antes de ir embora, Kanahlic encarou as duas e exclamou: — Argh! Que nojo.
Kanahlic, descalça, porém, muito bem trajada, foi para a biblioteca da Basílica, era uma construção que não fazia parte da arquitetura do lugar em si, assim como as salas de aula, por isso ela podia abrir portais ali, mas somente ela e algumas outras pessoas quais tinham essa permissão.
As duas garotas se encararam aliviadas.