Capítulo 1

971 Words
Foi naquela noite. Quando as nuvens carregadas de água em meio aos vento congelante que transformaria as gotas em neve, se afastaram para dar visão há um céu cinza e sem estrelas. Tudo parecia mórbido demais. As estradas e calçadas já estavam cobertas de neve fresca do dia, os carros se tornaram branquinhos e as árvores peladas de suas falhas eram o lar de pingentes de gelo que se acumulavam e tilindavam. O único barulho que Mor conseguia ouvir, o único até o seu celular começar a tocar. Desde que acordará, sentiu uma enorme bagunça dentro de si, uma sensação r**m de perda e desespero que lhe levava inconscientemente a questões que ela não estava preparada para discutir consigo mesma. Seus cabelos loiros cacheados estavam presos no alto da cabeça enquanto os olhos esmeralda analisaram tudo da janela, cada traço que completava esse dia estranho e emoldurava uma nova fase em sua vida. Houve silêncio do outro lado da linha, um silêncio tão perturbador que Mor tremeu desde seus dedos até os joelhos, nada poderia contar o terror que fechou sua garganta no momento em que a mãe finalmente falou. "Ele se foi, querida." Ela gritou. Eles não tiveram tempo, não tiveram tempo. O telefone caiu de sua mão e o tremor a derrubou no chão também, urros baixos de uma dor profunda martelaram dentro do seu peito constantemente, as lágrimas molharam seu rosto delicado e os olhos verdes agora lutavam contra o vermelho. Ele lutou até o último segundo, sabia disso, também sabia que ele estava cansado, estava triste e certo de seu destino. Quantas vezes não brincara com as mesmas questões, dissera que nunca chegaria aos sessenta anos, sussurrara que não aguentava mais, que não desejava continuar sendo esse peso na vida das duas. Mas, nada se comparava a dor da partida, quando o elo se quebra e tudo o que se pode fazer é ficar ali e sentir a dor disso. Morrigan não sabia como conseguiria aguentar tamanho sofrimento, não desejava aquela lacuna em seu peito há ninguém, mas como poderia simplesmente não se dar ao luxo desespero? Ela chutou, socou o chão, gritou e urrou, derramou a sua dor tão fortemente que achou não ter forças para se levantar, e embora tremesse a cada passo corrido de sua residência até o hospital, já era tarde demais. Braços magros a seguraram contra o corpo com força quando a jovem adentrou a porta do hospital, uma cabeleira ruiva tomou conta da sua visão e logo os soluços voltaram a tomar conta de tudo ao redor. Elas dedicaram as suas vidas a ele, e agora o que seria de ambas sem ele? Donavan foi pai, amigo, ensinador e um exemplo de força, agora ficaria apenas nas memórias delas, nas fotos e lembranças que acumularam ao longo do tempo, um tempo curto demais, demais. — Está tudo bem, querida. Tudo ficará bem. — disse Miranda a filha, acariciando as costas dela e segurando o corpo da menina contra o próprio. — Foi o melhor, sabemos. Ela escondia sua própria dor, os anos que teve ao lado dele, sua adolescência, a juventude, a vida adulta. Sempre compartilhará tudo com Donavan. Miranda se sentia sozinha, desamparada e sem rumo, mas tinha uma filha que dependia apenas dela e não podia simplesmente deixar que a menina desmoronasse. Era sua e dele, o fruto do amor de ambos que florescerá e agora precisava lidar com uma perda tão triste, no entanto, esperada. Já não havia mais nada que os médicos pudessem fazer por seu marido, nada que aliviasse as dores crônicas ou ataques de raiva, esquecimento ou os desmaios frequentes. Tudo o que restava para Miranda e Morrigan agora era uma a outra, ela jamais abandonaria a sua filha a própria dor, não Miranda. Os braços fortes da ruiva se fecharam ao redor da filha com um pouco mais de ênfase, a menina tremia tanto que ela poderia jurar que deslizaria para o chão a qualquer minuto. Todos no hospital estavam abalados, olhavam com o tom de piedade para as duas mulheres abraçadas e sussurravam suas condolências. Alguns ainda tinham esperança, uns rezavam, outros oravam, outros desejavam e pediam, tudo por uma recuperação milagrosa de Donavan, mas não importava o quanto fizessem, o destino dele estava selado. Com o corpo no necrotério e a funerária se preparando para levá-lo, não havia mais o que fazer no hospital. Miranda se despediu de todos enquanto meio carregava meio arrastava Morrigan para fora, a menina estava inconsolável. Não poderia culpa-la porém. Se estivesse sozinha e não precisasse apoiar ninguém, então ela própria estaria sendo arrastada daquele hospital. A mais nova sussurrava sobre desejos e sonhos e os "porquês" de tudo aquilo ter acabado daquela forma, era jovem, e mesmo sabendo desde cedo que não havia cura para as condições do seu pai, ainda assim não conseguia entender. Morrigan não se lembrava de como havia voltado para o seu quarto, deitado em sua cama e acordado no dia seguinte. Não usava mais seus tênis riscados, nem sua jaqueta jeans, o cobertor estava alinhado sobre ela mostrando que a menina se quer havia se movido durante o sono, e os cabelos cacheados ainda estavam presos. Da janela que alguém havia fechado, era possível ver a manhã amanteigada; arrastando os pés sobre o carpete do quarto ela se aproximou do vidro gelado. Ali em baixo, tanto na cerca da casa quanto nos degraus haviam faixas, cartões, velas, flores, pratos de comida e mensagens deixadas por todo jardim coberto de neve. Seu pai era querido, nasceu e cresceu ali no meio daquelas pessoas e todos tiraram uma parte do próprio dia para prestar as condolências. Parecia lindo, digno de resposta e agradecimento, mas tudo o que Morrigan conseguiu fazer foi fechas a cortina com toda a força dos seus braços e chorar.
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