Prólogo

1138 Words
O céu de Ely estava escurecido. A pequena cidade de Nevada onde o sol castigava parecia fria e sem vida naquele momento. Morrighan olhava para a janela do hospital com um foco fixo nas nuvens que se formavam no céu, e encobriam a claridade novamente, a neve cairia logo. Era o meio de novembro, a temperatura vinha caindo dias atrás e agora ela já se preparava para o inverno. A garota via os outros irem e virem para todos os lados da cidade, carros de turistas pararem para descansar antes da longa viagem, seus olhos esverdeados contemplavam com um fascínio estranho cada movimento abaixo da janela, até parecia que era a sua vida que estava se esvaindo naquele momento. Suspirando ela se recostou na cadeira e observou o homem deitado na maca hospitalar, sua cabeça enfaixada ainda com resquícios da última cirurgia, os braços repletos de acessos venosos e aparelhos ligados aos seus sinais vitais. A tristeza e a dor era perceptível e palpável naquele ambiente. O barulho dos aparelhos fazia com que ela se afligisse a cada segundo, sua mente começava a se preparar para quando não ouvisse mais aquela frequência, seria uma dor que ela nunca esqueceria, disso tinha certeza. Sua mãe bateu três vezes na porta antes de entrar no quarto, os cabelos ruivos ao qual ela não tinha herdado, volumosos e cacheados, selvagens, despontando por todos os lados. O jeito dela sempre a fazia rir, Miranda era uma mulher batalhadora desde muito cedo, quando descobriu a doença do marido ela se tornou quem ele precisava. Era seu alento quando chorava sem motivos, era sua falicidade em dias tristes e raivosos, ela era a sua paz quando a doença se manifestava de forma dolorosa. Morrighan a admirava demais, sua mãe era sua âncora para aqueles momentos de angústia, era nela que se apoiava quando as crises agressivas de seu pai tomavam conta, a lembrança sempre destruía o coração da menina. Donavan, nunca foi um homem agressivo, era um pai amoroso e atencioso, dava tudo para a sua pequena garotinha e sua mulher. Os olhos verde esmeralda de Miranda fitaram a filha com carinho genuíno enquanto ela observava o pai, se aproximou devagar e passou os dedos em seus cabelos loiro escuro como um afago temporário. Ela tinha uma aparência que sabia exatamente o que iria acontecer, nunca esconderia um fato de sua filha isso poderia destruí-la muito além do que saber a verdade. — Não acha melhor descansar alguns minutos? Tomar um café na lanchonete da senhora Johason enquanto eu converso com os médicos? – sugeriu Miranda com um sorriso doce em seus lábios finos e delicados. A menina olhou uma última vez para os aparelhos, em seguida para o rosto do pai e assentiu. — Me ligue quando os médicos forem embora, eu virei correndo. – pediu com um fio de voz, sua mãe não gostava que ela ouvisse as notícias diretamente dos médicos, não se importava com isso contanto que não escondesse nada dela, um trato silencioso de ambas. Com um aceno rápido, a um movimento curto dos fios vermelhos cacheados Morr entendeu que deveria ir. A porta do hospital de abriu enquanto ela caminhava para fora, a rua movimentava do centro da cidade lhe saudou com uma imagem rotineira. Ela olhou para além dos carros antigos estacionados, carros esses que ela sabia exatamente a quem pertenciam, era o preço de se morar em uma cidade tão pequena quanto aquela. Tinham se mudado três anos antes para Las Vegas, onde seu pai recebia um tratamento experimental, infelizmente nada deu certo como eles previam. Ela também não tinha gostado da cidade agitada, o barulho, a quantidade de pessoas, todo o movimento excessivo daquele lugar mexia com seus neurônios de uma forma nada satisfatória, ela se sentia sufocada com tudo aquilo. Por fim, voltaram há menos de um ano, ela tinha sentido falta de tudo naquela cidade tão pequena e distante, mas o motivo para o retorno não foi nem de longe agradável. Se seu pai não respondia ao tratamento não tinha motivos para estarem em Las Vegas, tudo o que ele recebia no simples hospital de Ely eram paleativos sem muito efeito para diminuir sua dor. Seguindo a calçada do hospital, ela pôde ver dona Sangez fazendo suas compras semanais de adubo, a velhinha alegre acenou para a menina antes de entrar no carro do seu filho, uma caminhonete azul desbotada que fazia um enorme barulho na partida. Mike, acenou para ela também em despedida, os cabelos loiro escuros do rapaz eram quase como areia batida, um diferencial na família com pele escura e cabelos negros, isso se dava a sua mãe a doutora Emma Sangez que, coincidentemente cuidava do pai de Morrighan. Os passos da loira lhe levaram diretamente para a frente da lanchonete, era simples e sem enfeites mas o cheiro do café, um amargo nivelado atraía as pessoas que passavam por perto. Lá era um ponto de encontro fixo, a senhora Johason vendia de quase todo o tipo de comida, tinha waffles para o café da manhã, com ovos mexidos e bacon canadense, assim como um bom sanduíche recheado com atum e mostarda para o almoço. Ela empurrou a porta fazendo o sino tocar anunciando um novo cliente, Lay e Kate Johason sorriram para a menina se aproximando, elas eram netas da dona do lugar. As gêmeas morenas lhe indicaram uma mesa vazia e sentaram-se com a amiga após servir seu café, Morr já era viciada no líquido de todas as formas possíveis. — Então, é verdade mesmo que vai voltar a estudar conosco este ano? – Lay perguntou com sua voz animada, os lábios finos de loira se esticaram para os lados deixando-se contagiar pela alegria da amiga de infância. — É verdade, minha mãe cuidou dos papéis essa semana, vou ter perdido muito conteúdo mas segundo ela, não deveria ficar em casa por agora. – Kate passou a mão sobre as mãos de Morr, que seguravam com certa força a xícara azulada. — Não deve mesmo, a escola não é a mesma sem você. Sabe, esses anos foram complicados para integrar nosso trio fantástico. – brincou Kate tirando do avental uma lista de nomes femininos gigante. – Amara era muito chata, Lorene era escandalosa, Olivia não podia ver um garoto novo que se jogava em cima, Caroline era a garota problema... Nós tentamos More, realmente tentamos mas ninguém toma o seu lugar. — Vocês não fizeram isso. — ela estava em choque com a descoberta, as gêmeas assentiram em um movimento suave de cabeça e ela caiu em uma gargalhada, os demais clientes e visitantes pararam para ver a garota rindo, logo as gêmeas estavam gargalhando também. Ao menos a garota não estava chorando pelos cantos, foi um início complicado, e o término elas imaginavam que seria pior ainda.
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