Capítulo Cinco
Meu corpo aindatremia pelo o êxtase com o que tinha acontecido, eu realmente havia ganhado cem mil reais!
O resto da semana foi uma loucura total. Eu tive que ir ao banco várias vezes para resolver questões burocráticas e somente na sexta-feira eu recebi a mensagem que o dinheiro estava na conta.
Eu senti uma vontade intensa de pegar o primeiro avião que saísse do Brasil para qualquer lugar do mundo e passar um tempo longe dos meus problemas. Mas sabia que seria uma solução temporária, quando o dinheiro acabasse, eu voltaria para a mesma vida de incertezas que estou vivendo agora.
Além disso, eu tinha feito uma promessa para Lola de me matricular na escola de artes e eu tinha que admitir que estava muito interessada nas aulas.
Quando eu era pequena passava as tardes com a minha mãe no ateliê dela vendo-a pintar e por isso desde cedo comecei a demonstrar interesse e habilidades na pintura ou talvez fosse apenas uma herança genética. Fato é que a minha mãe sempre disse que eu seria uma pintora um dia e começou a me ensinar tudo o que ela sabia. Ela me mostrava os livros dela com as várias pinturas famosas como as do Museu do Louvre e a Capela sistina, me dizia que um dia me levaria lá, porém ela não teve tempo, o câncer a levou antes que nós pudéssemos realizar nossa viagem.
Eu nunca mais consegui pintar novamente, pelo menos não com tanta paixão, sempre que começava alguma tela, eu abandonava pela metade. E assim a ideia de ser uma pintora famosa para orgulhar a minha mãe se dissipou da minha mente e foi substituída por me tornar médica para orgulhar o meu pai, o que se tornou um verdadeiro fiasco.
Mas também tinha outra coisa me fazendo ficar no Brasil: O horóscopo.
Sim eu sei, até uma semana atrás eu era a pessoa mais cética do universo, mas contra fatos não há argumentos.
Não que eu realmente acredite que o zodíaco, inferno astral e previsões são reais, mas talvez isso possa ser a virada da minha vida. Eu sempre tomei as piores decisões possíveis e gerava consequências horríveis, mas quando começo a seguir o que outra pessoa decidiu baseado na posição dos astros, tudo na minha vida começa a dar certo e eu finalmente encontro( ou reencontro) um sentido pra minha vida. Talvez Lola estivesse certa e o que eu preciso é seguir as estrelas. E o meu próximo passo era me matricular no Instituto de artes.
Eu tinha pesquisado um pouco no site da escola para ver como tudo aquilo funcionava.
O Instituto foi idealizado e realizado por um milionário brasileiro amante de artes e que sentia falta de um lugar para formar bons artistas brasileiros, que ele acreditava ter tanto talento quanto os de outras nacionalidades. Seriam ministradas aulas de pintura, música, dança escultura dentre outros tipos de arte e seriam também oferecidas muitas bolsas para pessoas de baixa renda, mas a maioria das vagas seria preenchida por alunos pagantes e era tão caro quanto uma faculdade normal.
Assim que saí do banco naquela manhã, já com todo o meu dinheiro na conta, dirijo até o lugar onde eu possivelmente iria estudar. Não era apenas ir lá e fazer a matrícula, era preciso provar que tinha talento e essa era a parte que mais me apavorava, eu já não pintava há séculos.
— Olá seja bem-vinda — disse uma mulher vindo me receber — Eu sou a Gabriela.
— Oi eu sou Laura, eu agendei uma visita ontem.
— Algum acidente? — diz ela se referindo ao meu t**a-olho enquanto ela me guiava pelo prédio.
— Longa história, mas já está tudo bem.
O prédio me parecia estéril demais para um instituto de arte, muito branco e cinza, mas Gabriela me disse o lugar fora construído recentemente e que o intuito era que a cada semestre os próprios alunos decorassem o lugar com suas artes.
Nós vamos passando pelos corredores e ela vai indicando as salas que serão ministradas cada aula, nós não entramos porque elas ainda estavam sendo finalizadas.
— Seu portfólio foi aprovado pelo professor André Machado, ele disse que você tem um talento muito promissor — disse quando chegamos à coordenação — Agora é hora de escolher as matérias que você quer estudar.
Quando entrei em contato com a escola demonstrando interesse nas aulas de pintura, eles pediram que eu enviasse uma amostra do meu trabalho anexado ao e-mail com os meus dados e aquilo me apavorou um pouco, fazia anos que eu não pintava nada que realmente fosse bom. Com a ajuda de Lola, eu escolhi alguns quadros antigos e desenhos que achamos que valia a pena e enviamos, a maioria feitos na minha adolescência. Saber que um professor os olhara e os aprovara me deu uma sensação boa, isso serviu como uma reafirmação para mim de que eu estou no caminho certo.
— Aqui está a lista de matérias que estão disponíveis pra você já que está interessada nas aulas que envolvem pintura —diz ela me entregando um papel — Você tem até o final da tarde para se decidir.
Eu olho aquela lista de matérias e começo a passar m*l, imediatamente pego o celular e ligo para Lola em busca de ajuda.
— Ah, os geminianos!
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No domingo eu acordo já perto do meio dia e tenho que correr para me arrumar porque meu pai mandou chegar no horário dessa vez.
E eu quase consegui.
Cheguei apenas cinco minutos atrasada que convenhamos é aceitável.
Eu já havia quase esquecido que tinha prometido ir conversar com o meu pai e com a minha madrasta. A semana inteira foi uma loucura tão grande que ainda me sentia meio aérea.
Quando chego, Beatriz já estava sentada a mesa com sua roupa branca de sempre. Ela parecia viver em clima de réveillon eterno. Ela se vira para me olhar, mas não se levanta para me cumprimentar. Eu sinto vontade de mostrar o dedo do meio para ela, mas como prometi ao meu pai que iria pedir desculpas, começo empurrando o orgulho para o lado e vou até ela.
— Olá Beatriz, como está? — ela começa a estender a mão, porém eu a abraço, ainda que de forma contida.
— Estou bem obrigado — diz ela retribuindo o abraço meio sem jeito.
Quando eu vou para o meu lugar eu vejo um pequeno sorriso nos lábios do meu pai o que me deixa bem feliz.
O almoço transcorreu sem incidentes, diferente do anterior, eu até mesmo elogiei a lasanha que minha madrasta tinha preparado. Era um mistério pra mim como uma mulher que ganhara a vida como modelo sabia prepara comidas tão deliciosamente gordurosas.
Quando terminamos a sobremesa eu disse que precisava pegar algumas coisas no meu quarto antigo e meu pai me acompanhou, eu estava atrás de alguns desenhos antigos que eu havia deixado ali.
— Eu não me preocupo em ter que pagar suas contas — diz ele assim que nós entramos no quarto — Eu apenas me preocupo quando não estiver mais aqui para pagar as contas, você sabe que eu sou a única pessoa com quem você pode contar e quando um dia eu não estiver mais aqui, quero saber que você está bem.
— Eu me matriculei em curso — disparo.
— Outra faculdade?
— Não, acho que realmente isso não é minha praia.
— Acho que percebi isso, Laurinha, então qual é o curso? - Diz ele sentando na cama e me puxando para o seu lado.
— Um curso de artes — eu respondo.
Eu até fecho os olhos com medo da reação dele, mas curiosamente eu escuto o som de uma pequena risada.
— Você é filha da sua mãe afinal — diz ele me abraçando — Eu sempre soube que você era uma artista, se nunca sugeri que fizesse carreira artística foi porque você jurou que não pintaria mais depois que Luísa morreu.
— Eu sei, e realmente eu nem cogitava isso antes, mas várias coisas aconteceram, eu recebi alguns conselhos e acho que talvez agora eu esteja no caminho certo.
— Muito bem, estou torcendo por você de verdade e realmente acho que dessa vez vai dar certo, só me diga uma coisa — diz ele se separando de mim.
— O quê?
— Quanto isso vai me custar?
— Não se preocupe com isso, eu consegui uma bolsa — menti — O dono da instituição é um ricaço maluco e apreciador de arte que tem mais dinheiro do pode gastar e criou a Ariano Artes, eu enviei um pouco do meu trabalho e eles me ofereceram uma bolsa.
Eu preferi não falar nada pro meu pai sobre a questão da loteria, eu ainda estava tentando processar aquilo tudo e eu não queria envolver ninguém nessa loucura.
—Tudo bem querida, eu sei que você se sairá muito bem.
— Eu espero que sim.
— Sua mãe ficaria muito orgulhosa de você agora.
Nessa hora eu não consigo me segurar, enterro meu rosto em seu peito e choro copiosamente.