Capitulo 1 Leonardo
NARRAÇÃO LEONARDO
O poder tem um cheiro peculiar. Não é o aroma de notas recém-impressas ou o perfume amadeirado de charutos cubanos caros que impregna as paredes dos clubes exclusivos de São Paulo. O verdadeiro poder exala o cheiro do medo alheio. É a transpiração fria, a respiração contida, o tremor quase imperceptível nas mãos de homens que se julgam donos do mundo, mas que, diante de mim, sabem que não passam de inquilinos.
E era exatamente essa a atmosfera que empesteava a sala de reuniões principal no quinquagésimo andar do edifício sede da Ferraz Corp.
Eu não estava sentado. Sentar-se à cabeceira daquela imensa mesa de mármore n***o importado da Itália seria conceder a eles uma igualdade que não existia. Ficar de pé, próximo à imponente parede de vidro blindado que ia do chão ao teto, me dava a vantagem visual e psicológica. A cidade de São Paulo se estendia sob meus sapatos de couro feito sob medida em Londres, um tapete cinzento de concreto, fumaça e formigas correndo em círculos. Eles lutavam por sobrevivência lá embaixo. Eu ditava as regras do jogo aqui em cima.
Observei o reflexo do meu próprio rosto no vidro. A mandíbula travada, a linha dura dos ombros sob o paletó de lã fria e seda que custava mais do que a maioria daqueles conselheiros ganhava em um ano de dividendos. Meus olhos escuros, implacáveis e desprovidos de qualquer traço de compaixão, fuzilavam o reflexo dos sete homens sentados à mesa.
Eles não eram idiotas recém-saídos da faculdade. Eram lobos velhos do mercado financeiro. Homens duros, de feições marcadas por décadas de negociações brutais, fusões agressivas e falências forçadas. Eles tinham dentes afiados. Mas eu era o predador alfa, e eles sabiam disso. No entanto, hoje, eles não estavam ali para recuar. Eles vieram armados com a única coisa que poderia me ferir: o testamento de um morto.
O silêncio se arrastava como uma lâmina cega cortando carne. O tique-taque ritmado e preciso do meu Rolex Daytona de platina era o único som a perfurar o ar condicionado gélido. Eu os deixei cozinhar. Deixei que a ansiedade devorasse suas entranhas. O controle do tempo em uma negociação é a primeira arma de dominação.
Finalmente, Roberto, o presidente do conselho administrativo e outrora o cão de guarda mais leal do meu falecido pai, quebrou a barreira do silêncio. Ele não limpou a garganta. Ele não demonstrou a fraqueza física que os outros tentavam esconder. Ele endireitou a postura, cruzando as mãos enrugadas, porém firmes, sobre a cópia impressa do documento maldito.
— A encenação de intimidação não vai funcionar hoje, Leonardo. — A voz de Roberto soou grave, ressoando pela acústica perfeita da sala. — Nós não somos seus estagiários, e você não está lidando com um de seus concorrentes que pode ser esmagado com uma compra hostil. Você está lidando com a estrutura legal da sua própria corporação.
Girei o corpo lentamente. Cada movimento meu era calculado, felino, pesado. Caminhei a passos lentos até ficar atrás da cadeira vazia na cabeceira, apoiando as duas mãos espalmadas no encosto de couro.
— Você está muito confiante para um homem que depende do meu intelecto para manter a própria esposa coberta de diamantes, Roberto. — Minha voz não se elevou um único decibel. O tom baixo e rasgado era infinitamente mais letal do que um grito. — Explique-me o motivo dessa insubordinação coletiva antes que eu decida expurgar este conselho inteiro antes do almoço.
Henrique, o diretor financeiro, um homem de quarenta e poucos anos com ambições que excediam sua inteligência, bateu a caneta de prata contra o mármore. Ele era outro que se achava inatingível.
— Você não pode expurgar o conselho, Leonardo. Esse é exatamente o ponto. — Henrique retrucou, sustentando meu olhar com uma audácia que me fez desejar arrancar a cabeça dele do pescoço. — O seu poder absolutista tem um prazo de validade. E esse prazo está se esgotando rapidamente.
Dei um passo à frente, contornando a cadeira.
— Eu dobrei o patrimônio líquido dessa empresa nos últimos três anos. — Falei, pausadamente, garantindo que cada palavra fosse um prego no caixão da audácia deles. — Comprei a infraestrutura de logística na Europa que vocês disseram que era impossível. Esmaguei nossos dois maiores concorrentes na Ásia. O lucro trimestral que eu entrego a vocês, cambada de sanguessugas, é maior do que o PIB de alguns países. O meu poder não tem prazo de validade. Ele é alicerçado em resultados absolutos e dominância de mercado.
— O mercado não reescreve testamentos, Leonardo! — A voz de Roberto subiu de tom, a paciência do homem velho finalmente cedendo ao peso da pressão. Ele agarrou a pasta de couro e a atirou para o centro da mesa. — O seu pai fundou isso aqui. Ele estipulou regras irrevogáveis. Nós não viemos aqui pedir um favor. Viemos lhe dar um ultimato legal.