O trajeto noturno do complexo hospitalar até a minha propriedade no Morumbi foi engolido por um silêncio tão denso, tão asfixiante, que a tensão acumulada no interior do sedã blindado parecia prestes a estilhaçar os vidros escuros. Catarina estava encolhida no extremo oposto do banco traseiro, espremendo-se o mais longe possível de mim. Ela abraçava os próprios joelhos contra o peito, encolhida como um animal de rua acuado, tentando inutilmente se fundir ao couro italiano do estofado para desaparecer da minha vista. Ela não abriu a boca uma única vez. Não derramou uma lágrima. Apenas manteve o olhar fixo, vítreo e vazio nas luzes caóticas de São Paulo que passavam como borrões pela janela. Mas a respiração dela era entrecortada, apavorada, e o cheiro doce, limpo e orgânico da pele dela, m

