O asfalto de São Paulo parecia cuspir calor e fumaça de óleo queimado diretamente na minha cara. O sol do meio-dia não trazia luz; trazia uma opresão sufocante que fazia a minha cabeça latejar como se houvesse uma lâmina cravada bem atrás dos meus olhos. Eu caminhava sem rumo certo, arrastando os pés pelos passeios acidentados e quentes do centro comercial, encurvada pelo peso invisível da culpa e do desespero que esmagava os meus ombros. O meu estômago já não roncava mais; ele havia entrado em um estágio anestesiado de dor, uma queimação contínua e seca provocada pela ausência absoluta de qualquer alimento por mais de quarenta e oito horas. A minha boca tinha o gosto amargo de bile, poeira e saliva grossa. Mas a fome física, por pior que fosse, havia virado um detalhe insignificante. A i

