NARRAÇÃO CATARINA A noite inteira havia sido um borrão interminável de delírios febris, tremores incontroláveis e um frio cortante que parecia nascer de dentro dos meus próprios ossos. Eu não voltei para o nosso barraco. O simples pensamento de encarar aquelas paredes vazias sem a presença de Clara era enlouquecedor. Passei a madrugada inteira encolhida na calçada áspera e suja do lado de fora do hospital, com os joelhos abraçados contra o peito para reter o mínimo de calor, observando fixamente as luzes brancas da UTI que brilhavam intensamente no terceiro andar daquele prédio de concreto encardido. Eu não comia absolutamente nada há quase quarenta e oito horas. O meu estômago era uma caverna vazia, contraindo-se e queimando com o ácido corrosivo do estresse, da exaustão e do medo. No e

