NARRAÇÃO CATARINA O número ecoou dentro da minha caixa craniana, rebatendo contra os ossos, alto e violento o suficiente para me deixar completamente surda para o resto do mundo por alguns segundos. Trezentos mil reais. A sacola plástica com as roupinhas surradas da Clara escorregou milímetros pelos meus dedos suados, quase desabando no chão de mármore polido e impecável. Eu encarei a pesada porta de vidro fumê daquela sala de reuniões como se ela fosse o portão de ferro do próprio purgatório. Lá dentro, escondida sob contratos sujos de ricos, estava a vida da minha irmã. O ar nos meus pulmões pareceu virar chumbo derretido. A minha respiração ficou curta, arquejante, arranhando a garganta a cada puxada. O Doutor Sampaio havia sido brutalmente claro e clínico: sem aquele dinheiro exato e

