Capitulo 5

909 Words
NARRADO POR CATARINA Quem foi que inventou a mentira deslavada de que a vida é justa, ou ao menos tolerável para quem nasce do lado errado da cerca? Para mim, a resposta sempre foi um não categórico, esculpido a ferro e fogo na rotina exaustiva que definia os meus vinte e dois anos. Aos olhos do mundo, eu era apenas mais uma jovem invisível empurrando uma paleteira enferrujada pelos corredores do Supermercado Econômico, na periferia de São Paulo. O ar ali dentro fedia a papelão molhado, cloro barato, frutas apodrecendo nas caixas de madeira e o suor rançoso de dezenas de clientes apressados que m*l olhavam para o meu rosto. Vestida com o colete azul-marinho desbotado do uniforme e um crachá torto no peito, eu passava horas intermináveis descarregando fardos pesados de açúcar, organizando prateleiras de óleo e suportando a arrogância de gerentes que tratavam os funcionários como peças descartáveis de maquinário. As costas doíam permanentemente. Os calcanhares latejavam dentro de um tênis rasgado na sola, e as palmas das minhas mãos estavam calejadas de tanto puxar peso. Mas eu não tinha o direito de parar, nem de reclamar, muito menos de fraquejar. A minha história nunca havia conhecido a suavidade. Eu nunca soube o que era ter um pai; a figura paterna não passava de um borrão cinzento e inominável que a minha mãe mencionava apenas com um ódio silencioso antes de fechar a cara para o mundo. Quando a minha mãe faleceu, exausta por anos de jornadas duplas de faxina que destruíram seu coração e sua pressão arterial, o teto precário sobre a nossa cabeça ameaçou ruir de vez. Eu tinha apenas dezessete anos na época, mas o luto foi um luxo que eu não pude me dar. Da noite para o dia, precisei enterrar a mãe e assumir a responsabilidade total de criar e proteger a única coisa que me restava neste mundo: a minha irmã caçula, Clara. Ela e uma menina doce, de olhos grandes e expressivos, que adora desenhar nos versos das contas atrasadas que se acumulavam na gaveta da cozinha e que sonha em crescer para me ajudar a cuidar de tudo. Para manter Clara na escola, comendo decentemente e com um teto seguro, eu vendia a própria juventude em empregos m*l pagos, acumulando turnos no supermercado e b***s de limpeza aos finais de semana. O nosso mundo resumia-se àquele barraco humilde, ao amor incondicional entre as duas e à esperança frágil de que o futuro reservasse dias menos cinzentos. Até que uma terça-feira comum transformou essa esperança em um cenário de horror absoluto. Eram exatas duas e quinze da tarde no supermercado. Eu estava no corredor central, repondo uma pilha de latas de molho de tomate, quando o meu celular barateiro, guardado no bolso traseiro da calça jeans, começou a vibrar de forma histérica e insistente. Limpei as mãos sujas de poeira no avental e atendi, achando que era algum problema com a conta de luz. — Alô? Quem fala? — perguntei, erguendo a voz para abafar o barulho das caixas registradoras ao fundo. — É da secretaria da Escola Municipal Professor Álvaro Ribeiro. Falamos com Catarina Azevedo, responsável pela aluna Clara Azevedo? — a voz da diretora soava tensa, atropelando as palavras. O meu estômago despencou como se um elevador tivesse desabado do décimo andar. O sangue sumiu do meu rosto, deixando-me com uma palidez cadavérica. — Sou eu... o que aconteceu com a Clara? Ela se machucou? — A Clara passou m*l de repente na aula de educação física, Catarina. Ela começou a sentir uma dor abdominal terrível, ficou com os lábios roxos, desmaiou e teve convulsões leves. Nós já chamamos a ambulância do SAMU. Eles estão levando ela para o Hospital Municipal de urgência. Você precisa ir para lá imediatamente. O celular escorregou da minha mão, quase batendo no chão de cerâmica. Eu não pensei duas vezes. Não pedi autorização ao gerente, não justifiquei o abandono do posto de trabalho e nem tirei o colete do uniforme. Eu simplesmente arranquei o crachá, joguei-o sobre a pilha de enlatados e disparada em direção à saída do supermercado, ignorando os gritos furiosos do chefe chamando por meu nome. A corrida até o hospital público foi a pior viagem da minha vida. O ônibus parecia se arrastar em câmera lenta pelas ruas esburacadas, enquanto o meu peito ardia com uma dor física insuportável, alimentada pelo pânico. Quando finalmente empurrei as portas automáticas da emergência do hospital, o caos me recebeu de braços abertos. O ambiente fedia a éter, urina, desinfetante vencido e o desespero de dezenas de pessoas amontoadas nos corredores superlotados. Corri até a recepção, implorando por informações, até que uma enfermeira de expressão cansada apontou para a ala de observação pediátrica. — Estão estabilizando a menina lá dentro. Você é a responsável? Venha comigo, mas fique quietinha. O meu coração martelava contra as costelas de um jeito doloroso. Ao entrar no box de emergência, vi Clara esticada em uma maca metálica estreita. A menina parecia minúscula sob o lençol hospitalar áspero. Estava completamente pálida, com a pele translúcida assumindo um tom acinzentado assustador, respiração curta e sibilante, e os braços finos cravados por agulhas grossas de acesso venoso que conectavam vários equipos de soro. — Clara! Meu Deus, meu amor, o que aconteceu? — desabei ao lado da maca, segurando com extremo cuidado a mãozinha fria e trêmula da minha irmã, sentindo as lágrimas quentes despencarem descontroladamente pelo meu rosto.
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