Capitulo 6

1030 Words
Clara abriu os olhos com enorme dificuldade, piscando lentamente, os lábios ressecados e cortados. — Cata... tá doendo tanto aqui embaixo... minhas costas queimam... eu não consigo respirar direito... — a voz dela não passava de um sopro rouco e frágil. — Eu tô aqui, maninha. Eu tô aqui, vai ficar tudo bem, eles vão te curar... — repetia como um mantra, embora soubesse que estava mentindo para mim mesma. O pavor gelava a minha espinha. As horas seguintes transformaram-se em um teste c***l de resistência psicológica. Os médicos cercaram a maca de Clara, realizando uma bateria exaustiva e invasiva de exames de urgência. Foram retirados tubos e mais tubos de sangue para hemogramas completos, testes de função hepática e renal; submeteram a menina a exames de ultrassonografia com Doppler na região abdominal e lombar; aplicaram injeções de contraste, oxigênio suplementar e analgésicos potentíssimos na veia para tentar conter a dor lancinante que fazia o corpinho de Clara se contorcer na cama. Fui banida para a sala de espera durante a tomografia e a punção lombar. Sentada naquelas cadeiras de plástico duro que pareciam desenhadas para torturar os ossos, cruzei os braços com força sobre o peito, balançando o tronco para frente e para trás, rezando para qualquer divindade que estivesse ouvindo para que poupasse a vida da minha irmã. Eu teria dado o próprio sangue, os próprios braços, a própria alma, se isso pudesse tirar a dor de Clara. Já era noite alta quando a porta da sala de triagem se abriu e uma assistente social chamou em voz alta: — Responsável pela paciente Clara Azevedo? Levantei-me num salto desesperado, correndo até a mulher. — Sou eu. Sou a irmã mais velha e responsável legal. Como ela está? O que os exames mostraram? A assistente social evitou o contato visual direto, mantendo uma postura profissional, fria e polida. — O Doutor Sampaio, chefe da nefrologia e pediatria de plantão, quer conversar com você no consultório dele. Por favor, acompanhe-me. O trajeto até o consultório médico parecia uma caminhada para o cadafalso. A cada passo, o ar no corredor parecia rarear. O Doutor Sampaio era um homem de cabelos grisalhos, rugas fundas ao redor dos olhos e uma reputação de ser um médico extremamente competente, mas seco nas palavras. Assim que entrei na sala, ele indicou a cadeira de madeira em frente à sua mesa. O ambiente estava silencioso, iluminado apenas por uma luminária de mesa que focava nas chapas de exames e nos prontuários impressos espalhados pela superfície de madeira. — Sente-se, Catarina. Sentei-me na ponta da cadeira, as mãos unidas com tanta força que os nós dos meus dedos estavam completamente brancos. — Doutor... por favor, me fale a verdade. O que a Clara tem? Foi uma infecção forte? Um problema estomacal? Ela vai tomar os remédios e voltar para casa amanhã, não vai? — as perguntas saíam atropeladas, carregadas de uma esperança desesperada que começava a ruir diante do silêncio pesado do médico. O Doutor Sampaio cruzou os braços sobre a mesa, tirou os óculos de grau, limpou-os devagar com um lencinho de papel e fitou-me com um olhar profundamente entristecido e pesado. — Catarina, os exames laboratoriais detalhados que acabamos de receber, somados às imagens da tomografia e ao perfil inflamatório sistêmico, revelam um quadro clínico infinitamente mais grave do que imaginávamos inicialmente. Não estamos lidando com uma simples infecção passageira. O meu peito travou. Senti um zumbido agudo invadir os meus ouvidos, abafando parcialmente a voz do médico. — O que... o que o senhor quer dizer com isso? — gaguejei, a voz falhando. — A Clara desenvolveu um quadro de glomerulonefrite membranoproliferativa aguda e fulminante, associada a uma síndrome nefrótica grave de fundo autoimune e degenerativo rápido — explicou o médico, usando termos técnicos que pesavam como chumbo na minha mente. — Os rins dela não apenas inflamaram; eles sofreram um processo necrótico acelerado. As estruturas de filtragem glomerulares colapsaram quase por completo em questão de dias. O organismo dela está retendo níveis tóxicos de ureia, creatinina e potássio. Isso está provocando acidose metabólica, hipertensão arterial severa secundária e falência sistêmica progressiva. Balançei a cabeça negativamente, as lágrimas bloqueando a minha visão. — Eu não estou entendendo... traduz para mim, doutor! O que isso significa para a minha irmã? O Doutor Sampaio respirou fundo, endireitando o corpo na cadeira, encarando-me com uma franqueza brutal que não admitia ilusões. — Significa, Catarina, que os rins da sua irmã pararam de funcionar. O corpo dela está sendo envenenado pelo próprio sangue por dentro. Ela está em insuficiência renal crônica em estágio terminal, desencadeada por essa patologia agressiva. Aquelas palavras desabaram sobre o meu cérebro como blocos de concreto jogados do alto de um prédio. Abri a boca, mas nenhum som saiu. O mundo ao meu redor pareceu escurecer por alguns segundos. — Insuficiência... terminal? Mas ela é uma criança! Ela tem dez anos! Tem tratamento, tem remédio, hemodiálise... o senhor vai salvar ela! — gritei, o desespero rompendo qualquer barreira de compostura, levantando-me da cadeira e apoiando as mãos trêmulas na mesa do médico. — Nós estamos fazendo a estabilização na UTI pediátrica e iniciaremos sessões de diálise de emergência nas próximas horas para limpar o sangue dela temporariamente — ponderou o médico, mantendo a voz firme, porém compassiva. — Mas a diálise pública é apenas um paliativo temporário. O quadro dela é de uma doença gravíssima, uma falência multiorgânica iminente se não houver uma intervenção drástica e definitiva. Ele pausou, deixando a sentença cair com todo o seu peso: — A Clara precisa de um transplante renal duplo imediato, associado a uma linha de imunossupressores biológicos de última geração que o governo não fornece na rede pública e que custam uma fortuna na rede privada. Sem essa cirurgia de alta complexidade em uma clínica particular de referência, e sem esses medicamentos importados para evitar a rejeição hiperaguda... a sua irmã não vai resistir a mais três meses de vida. Três meses. O número ecoou na minha mente como o tique-taque de uma bomba-relógio prestes a explodir. Três meses era o tempo limite que restava para salvar a única pessoa que dava sentido à minha existência.
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