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Amor e Miséria

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Blurb

Laurinha e Edu cresceram convivendo muito perto um do outro, mas não juntos de fato. Ambos pertenciam a mundos diferentes, apesar de estarem presentes na vida um do outro das formas mais variadas.

Ele, o herdeiro de um negócio de sucesso.

Ela, a filha de uma funcionária dedicada, que era considerada da família.

Todos pensavam que eles eram próximos, amigos. Ou acreditavam que era assim que deveria ser, mas o que eles não sabiam era que Laura o odiava, eles tampouco sabiam, que quando não estavam olhando, o queridinho de Picos encurralava a Nerd pobre nas ruas desertas, o herdeiro engomadinho com um futuro promissor queria se sujar, e antes que ele mesmo se desse conta, conquistar a garota agressiva e grosseira havia se tornado uma questão de honra, e uma obsessão.

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Capitulo 1
Laura Dias Atuais... Encarei a fachada de ladrilhos vermelhos da padaria, estava mais bonita e moderna, gostei do visual inovador. Fitei a escadaria de mármore preto e de guarda corpo de vidro e aço, a escada em caracol que me levaria a um corredor pequeno com dois apartamentos, e um deles guardava meu tesouro. - Tieni il resto. -Como é, moça? -Ah, desculpe. Muito tempo acordada deixa a gente meio confusa. Pode ficar com o troco. -Ah, obrigado. Irei te dar uma mão com as malas. -Obrigada. -Sorri ao abrir a porta de trás, agradeci novamente ao taxista, tive que me policiar para não deixar novamente o italiano escapar, em pé na calçada contemplei a construção repleta de vidro e mármore. O lugar com certeza foi repaginado, olhei ao redor encantada ao ver mais estabelecimentos na rua, quando morava aqui a padaria era a última costrução antes da ponte, havia ainda um imenso terreno antes de chegar ao rio, mas onde antes havia apenas mato, agora havia um armazém grande de peças para moto e algumas pequenas lojas, restaurantes e bares. Nove anos. Nove anos se passaram desde a última vez que vi esse lugar, sorri ao lembrar da confusão com o taxista, tanto tempo morando fora e falando outro idioma deixava o cérebro e a língua um tanto quanto, perdidos, como uma bússola quebrada. Tentando evitar o alarde com os funcionarios que me conheciam e que sabia, ainda trabalhavam ali, subi discretamente as escadas e fui direto para o apartamento que minha mãe vivia com minha irmã, apertei a campanhia. Caminhei pelo corredor, admirando a pintura em tom de branco gelo das paredes, adorava branco, meu coração começou a galopar no peito, fazia um ano desde que vira minha mãe, ouvi o barulho da chave girando, um sorriso brotou em meu rosto e assim que a porta se abriu ele sumiu. Não era minha mãe. Ali estava ele, parado, me encarando, a mão segurando a porta com força. Congelei, meu coração batia em meus ouvidos, perdi o folego. Nove malditos anos e ele ainda tinha esse efeito em mim. -Laura? –disse em um tom baixo, como se ainda tivesse dúvidas de que eu estivesse mesmo ali e não quisesse alertar ninguém de seu possivel engano. Minhas pernas tremiam, agarrei o puxador da mala com mais força, tentando me equilibrar e recuperar o dominio sobre mim mesma. Maldição, ainda adorava a forma aveludada como sua língua proferia meu nome, não Ana, nem Laurinha... Apenas, Laura. -Ciao, Eduardo. -Meu cérebro entrou em pane, sacudi a cabeça atordoada. -Desaprendeu a falar? -Come? -seu rosto endureceu e massageei as têmporas irritada com minha perturbação evidente. – O que está fazendo aqui? -Como assim? Perguntou inclinado a cabeça de lado e dando aquele meio sorriso que me derrubava, fechei a cara na hora, ele estava claramente se divertindo com meu embaraço. -Minha mãe ainda mora aqui, não? -Sim. -Então...? -ergui as sobrancelhas exasperada com lerdeza deliberada dele. -Ah, estou de passagem. Café da tarde, sabe? -Não, não sei. -puxei a mala com a intenção de entrar no apartamento, mas ele não se mexeu e ficou bloqueando a porta com muita facilidade. Deus, como ele estava grande. Parecia uma maldita geladeira duas portas, ele já era corpulento aos 17 anos, mas agora... ele não passaria despercebido mesmo lado do Jason Momoa. Pigarreei e engoli em seco. – Com licença? Ele não se mexeu, já estava preparando uma enchurarda de palavrões quando a ouvi. -Dudu querido, o café ficou pronto. - Nenhum de nós se mexeu, ficamos nos encarando, ele estava vestido socialmente, um roupa bonita e certamente de grife, tentei não reparar muito em como a camisa branca ficava um tanto quanto agarrada nos biceps, ficamos um tempo assim, ambos escrutinado um ao outro. Talvez por isso minha mãe tenha vindo ver o que estava acontecendo. -Laurinha! - ela gritou eufórica quando me viu á porta, Eduardo finalmente abriu caminho e estendi os braços acomodando-a em um abraço apertado, fechei os olhos inalando o cheiro amadeirado-floral que vinha dela, adorava esse perfume. Quando os abri novamente, Edu nos observava feito um falcão. -Lucinha, eu vou indo, vamos deixar o café para outra hora. -Está bem, meu filho. Ela não foi m*l educada com você, não é? – perguntou me olhando daquele jeito que eu odiava, mas já estava acostumada a ser a vilã, ela me deu um olhar de censura ao ver minha careta e revirei os olhos. -Não. Não deu tempo. Não revidei a alfinetada, me contentei em me soltar do abraço de minha mãe e arrastar a mala para dentro do apartamento. Precisava me afastar para respirar, e um banho seria uma desculpa adequada e verdadeira, o meu corpo estava completamente grudento de suor e sujeira de vários países. -Mãe, posso tomar um banho? Enfrentei 15 horas de voo e mais 6 de ônibus, preciso tirar esse caldo de sujeira importada. -Claro filha, vai lá, daqui a pouco te levo uma toalha. Me encaminhei para o corredor onde ficavam os quartos. -Até mais, Laurinha. -parei ao notar o tom debochado, pois aquilo não foi uma despedida casual, e sim uma promessa, uma ameaça velada era o que parecia. Não respondi, dei as costas a ele e me concentrei em minhas tarefas, lidaria com aquilo depois. Agora eu precisava de um banho e cama, precisamente nessa ordem. 10 anos atrás… É decepcionante ver como a escola é cheia de estereótipos. Tem o bad boy riquinho, a garota popular apaixonada pelo bad boy, suas seguidoras fieis... eles eram tão mesquinhos e irritantes quanto qualquer adolescente de cidade pequena poderia ser. Todos são babacas. Todos, sem exceção, superficiais e vazios, pessoas em formação é o que a sociedade diz, mas o prelúdio que a adolescência deles mostra não é nada animador, pelo menos, não para mim e o resto da cidade, o futuro de Picos estava sendo moldado no colégio Santa Isabel, mais conhecido como amostra grátis do inferno. Havia dias ruins na escola, e havia dias muito ruins. Hoje seria um dos muito ruins, percebi assim que cheguei na porta da sala de aula e vi apenas um lugar vazio, o penúltimo da fileira da janela, era o meu preferido, Marina estava dois assentos a frente e me dirigiu um sorriso de desculpas, eles com certeza devem tê-la impedido de sentar-se perto, como faziam todos os dias quando eu conseguia chegar no horário, não importava onde estivesse nesse maldito lugar, aqueles imbecis sempre me cercavam como se eu fosse o bichinho de estimação deles, mas por alguma artimanha suja do destino, hoje meu celular não havia despertado e no desespero de chegar atrasada acabei arrebentando meus fones de ouvido, que vez por outra me ajudavam a passar uma vibe de inacessivel, intocável e indiferente, os três "In's" do manual de sobrevivência na escola, exclusivo para nerds. O lugar seria o ideal se Eduardo não estivesse sentado bem ao meu lado, com seus amigos mauricinhos dando cobertura para o que quer que ele tenha planejado para hoje. Eduardo Sampaio Corrêa Filho, herdeiro da rede de panificadoras Sampaio, a padaria mais famosa da cidade, e onde minha mãe trabalhava há 16 anos, sentado na frente estava Gabriel, nas minhas costas Arthur e no assento diagonal ao meu, Bruno. Ambos eram os filhos preciosos das pessoas mais ricas da cidade, o dono do único hotel quatro estrelas, o dono do clube aquático e o dono da emissora de tv, e eu? Era apenas a filha de uma salgadeira e às vezes, até mesmo a "faxineira". Suspirei me sentindo derrotada, e eram apenas sete da manhã, agarrei a alça da mochila com mais força e me dirigi para aquele lugar maldito cerrando os dentes e me recusando a olhar para os lados, me sentei resignadamente e quase deixei escapar um gemido frustrado quando ouvi o arrastar de uma cadeira, era ele. -Parece que não irá usar o álibi dos fones de ouvido, quanta evolução hein, Laurinha! Isso é um sinal? Me limitei a colocar o caderno e o estojo em cima da mesa, não foi preciso olhar para saber que ele estava com aquele sorriso de moleque estampado no rosto, bastou ouvir os risinhos da plateia de babacas, era sempre assim, Eduardo dizia “a” e sua manada de asnos desatava a rinchar. -Cara, deveria falar com seu velho para aumentar o salário da mãe dela, assim ela poderia comprar outro fone, aquele estava um bagaço. -Gabriel disse zombeteiramente. -Seu fone quebrou? Edu perguntou, levemente interessado, virei o rosto para janela, não era bom quando ele demonstrava interesse, geralmente alguém acabava se machucando ou sendo humilhado. Já estava sentindo na pele a ausência da música em meus ouvidos, hoje não teria a barreira dos fones para me proteger, estava quase levando a unha á boca quando me lembrei que tinha um livro na mochila, teria que devolvê-lo hoje para a biblioteca, feliz, por ter algo com que me distrair pesquei o exemplar de Memórias Póstumas de Brás Cubas, ignorando o fato de que Edu me observava, provavelmente á espera de uma resposta, já havia lido o livro e leria de novo apenas para me manter distante das zombarias de seus amigos, foi o que idealizei, mas assim que abri o livro ele o tomou de mim apenas com um esticar de braços. -Devolva! -grunhi irritada, risadas ecoaram pela sala. -Esse livro é péssimo, e já o leu… o quê? Umas dez vezes? -Isso não é da sua conta! -rosnei e ele estreitou os olhos. -Por que chegou atrasada? -Isso também não é da sua conta, bastardo. -disse entredentes e ele se virou, os joelhos quase tocando minhas coxas, m*l me movi quando ele se inclinou para perto, o cheiro amadeirado e de vinho envelhecido invadindo minhas narinas, o rosto pairando à frente do meu. -Tudo relacionado a você é da minha conta. Cerrei os punhos por baixo da mesa, dividida entre xingá-lo e tomar o livro á força apenas para dar com ele em sua cara de p*u, antes que pudesse decidir o que fazer, a professora de literatura entrou na sala, me empertiguei na cadeira e Edu se afastou e se endireitou em seu assento. Imbecil de merda, ele não poderia apenas me deixar em paz? Não sabia qual era o problema dele. -Bom dia, pessoal. Voltei minha atenção à professora. Beatriz de Sá, era minha professora preferida, foi ela quem despertou minha paixão por literatura, sempre li muito, mas ela me fez ver o encanto dos clássicos, e graças a ela, era uma fã de Austen, Brontë e até mesmo de Shakespeare, a mulher era brilhante, linda e o melhor de tudo, não era puxa saco. Havíamos criado um laço, e só pela sua cara soube que estava chateada. -Depois do desempenho vergonhoso de vocês, decidi realizar um trabalho de recuperação. – Metade da sala suspirou aliviada e a outra gemeu em frustração, esses eram os mais espertos, pois esse trabalho com certeza seria desesperador, a ponto de nos fazer querer arrancar o cu da b***a. -É o que acontece quando nossos pais ficam insatisfeitos com nossos boletins, professora. - Bianca zombou, e todos riram e gargalharam, Deus, como odiava essa vaca arrogante, me contive imediatamente ao ver o sorriso sutil da professora. -Não, Bianca. É o que acontece quando conheço meus alunos e sei que podem fazer melhor. Se tirar um zero, é um zero que mostrará a seus pais, independentemente do chilique deles na reunião bimestral. A sala ficou em silêncio, a professora graciosamente abriu sua pasta e fingiu ler alguma coisa enquanto Bianca fervilhava em seu assento. -Não que seja da sua conta, mas seu pai foi um dos que apoiaram a reprovação da turma em prol de ensinar-lhes uma lição. Encarem esse trabalho como uma segunda chance. Sorri, olhei de esguelha para Marina e ela tinha o mesmo sorriso satisfeito no rosto, era inédito quando a burguesia era repreendida, no entanto, meu sorriso se desfez lentamente ao ver a professora colocar um pote de vidro na mesa com alguns papeizinhos coloridos. -Nesse pote tem os nomes de vocês, como não foram todos que tiraram notas baixas, é justo que haja um sorteio para eleger os membros da dupla. Dupla, c*****o. Olhei em pânico para Marina e ela me deu um sorriso tranquilizador, odiava trabalhos em grupos, porque não era amiga de ninguém, a pessoa mais próxima de mim era Marina e era com ela que sempre fazia os trabalhos em dupla. Levantei minha mão e a professora, suspirou, certamente antecipando meu protesto. -Sim, Ana Laura? -Professora, não acho justo que quem não precise da nota seja obrigado a fazer o trabalho. Uma saraivada de vaias foi o que recebi, ignorei, um tremor em minha pálpebra esquerda me deixou inquieta, a metade direita do meu rosto esquentou, e sabia que era porque Edu estava muito provavelmente me encarando com aqueles malditos olhos musguentos, de alguma forma sempre sabia quando ele estava me olhando, era como um sexto sentido me avisando do perigo, odiava tê-lo ao meu lado, ás minhas costas... na verdade, odiava tê-lo ao redor de mim. -Entendo seu ponto, Ana. O objetivo do trabalho não é apenas recuperar a nota, é uma atividade que irá desenvolver a capacidade de trabalharem em grupo, e será muito mais proveitoso se vocês não puderem escolher com quem irão trabalhar. Bufei, inconformada com aquela desculpa esfarrapada, ela sorriu, ciente do motivo da minha resistência, me arrepiei quando senti um hálito quente soprando em minha orelha. -Do que tem medo? - Edu perguntou, a voz pingando sarcasmo, me virei para encará-lo. -Apenas de fazer dupla com um descerebrado como você. -Ainda bem que é inteligente o suficiente por nós dois. Ele sorriu presunçosamente, a professora começou a anunciar as duplas, conforme ela tirava os papéis do pote o meu estômago dava um giro de 360° em minha barriga, Jesus Cristo, era só a merda de um trabalho, o que poderia acontecer? Eu já havia passado no bimestre. Meu coração se enrugou quando ela anunciou que Bianca faria dupla com Marina. E comecei a entoar um mantra, em desespero. Ele não. Ele não. Ele não. Qualquer um menos ele, por favor, eu não posso ser tão azarada assim. Mas eu era. -Ana Laura e Eduardo. - Anunciou, e eu ri amargurada, ouvi uma risadinha convencida atrás de mim, o som de palmas se chocando e sabia que Edu estava comemorando com os amigos. -Vocês ficarão com Romeu e Julieta de Shakespeare. Ignorei o sorriso satisfeito da professora, ela sabia que Romeu e Julieta estava na minha lista de leitura, mas estava pouco me lixando para isso, ela também sabia que não me dava bem com Eduardo, eu não me dava bem com ninguém além de Marina, mas minha relação com Edu era irreparavelmente caótica, e não era um trabalho em grupo que iria mudar isso, mesmo com Shakespeare envolvido. A aula pra mim acabou ali, não consegui prestar atenção em mais nada, felizmente ninguém mexeu comigo, a turma inteira parecia absorta demais a respeito das instruções do trabalho, quando o sinal tocou depois do segundo tempo de aula, me demorei em levantar e esperei que todos saíssem para que pudesse falar a sós com a professora, sinalizei para Marina indicando que iria encontrá-la depois, assim que o último aluno saiu, me aproximei de sua mesa, mas nem tive a chance de abrir a boca quando ela me interceptou. -Ana, se vai me pedir para mudar sua dupla pode esquecer. Sabe que não dou privilégios a ninguém. -Professora, por favor. Edu é apenas um irresponsável que não liga para nada, estou ocupada com o cursinho, tenho um cronograma de estudo muito intenso, não quero mais isso nas minhas costas! -Todos estão ocupados com o cursinho, Ana. -Sim, mas ao contrário deles, não tenho costas quentes para aliviar minha barra quando não passar no vestibular! Eu dependo de meu próprio esforço para entrar em uma universidade, não posso perder tempo elevando a nota de um babaca desleixado! -Cuidado com a língua. -Desculpe, estou estressada. -Entendo, mas não posso mudar sua dupla sem uma justificativa plausível. O propósito do trabalho é forçá-los a lidar com os conflitos, mesmo os costas quentes precisam saber disso, que dirá os costas frias. -Mas... -Tenho que ir, irei me atrasar para a próxima aula. -apertei os lábios, ela suspirou e me olhou com ternura. – Está acabando, se saiu bem até aqui, aguente apenas mais um pouco. Terminou seu livro? – perguntou, tentei não me irritar com sua repentina animação em mudar de assunto e me permiti um pouco de cordialidade. -Tive um bloqueio nos últimos cinco capítulos, mas acho que irei terminar até o fim do mês. -Ótimo, me envie quando finalizar, terei o prazer de dar minha opnião. Ela ficou me olhando por um momento, como se estivesse em um dilema, começei a ficar desconfortável com a avaliação explícita em seu olhar. -Um autor pode apresentar a história de um único ponto de vista ou de vários, mas é dever dele, elaborar e conhecer todas as facetas de sua criação, você deveria fazer uso disso em sua vida pessoal também. -Não entendi. Ela aprumou seu material nos braços e sorriu. -Deveria dar uma chance ao Eduardo, ele pode ser mais do que essa abominação que você vê. – ela saiu sem ouvir minha resposta, fiquei irritada por ela dizer aquilo, ainda mais depois de ver tudo o que venho sofrendo desde o primeiro ano. -Ele não é, e nunca será mais do que isso. Murmurei para mim mesma, saí da sala, m*l havia colocado o pé no corredor quando notei um vulto em minha visão periférica, virei o rosto e parei no pórtico, lá estava ele, encostado na parede perto dos armários e com uma caixinha de suco na mão, me fuzilando com aquele olhar irritantemente intimidador, a mandibula cerrada, merda. Ele estava irritado. O quanto ele ouviu? Esperei pela intimidação, pelo xingamento, por qualquer coisa, estava até mesmo preparada para ser encharcada com suco de uva, mas ele apenas arremessou a caixinha no lixo ao meu lado, passou esbarrando tão forte em mim que me fez cair de b***a, e seguiu pelo corredor sem olhar para trás. Otário. Fui ao banheiro apenas para jogar água no rosto, estava sendo um belo dia de merda, ainda precisava entregar o livro hoje ou seria multada, c*****o, mesmo sendo alguns reais eu não tinha dinheiro para sair distribuindo por aí, que merda! Aquele i****a parecia ter a mentalidade de uma criança de oito anos, e ainda tinha esse maldito trabalho, segurei a pia com força encarando meu reflexo, meus dentes estavam me matando, a manutenção do aparelho era um saco, e hoje nada além de sopa desceria para o meu estômago, fiquei tensa ao ouvir a porta se abrindo e respirei aliviada ao ver a figura esguia de Marina. -Caramba, anotou a placa? -Franzi o cenho. – parece que tu foi atropelada por um caminhão. -Um trem, na verdade. Um trem chamado trabalho em dupla. -Para de surtar, é só uma apresentação no auditório, isso é fichinha para você. -Era pra ser, mas já seria r**m apenas pelo fato de ser com o Edu, e para completar a minha desgraça, ele me ouviu pedindo para trocar a dupla. Tenho certeza que vai fazer da minha vida um inferno ainda pior. -Merda. -É. Merda. E das grandes. – me virei de costas. Isso só terá importância se eu permitir, só terá importância se eu permitir... Uma pontada na barriga me fez encolher, estremeci com a mão no estômago, e essa agora... -Você está me ouvindo, Ana? -Não, o que disse? -A excursão? Mirante do Gritador? Lembra? -Eu não vou. -Como assim? Estava super empolgada! -Não tenho dinheiro, tenho que economizar. -Economizar, economizar. Você estuda, ajuda sua mãe no trabalho, cuida da sua irmã, se tornou adulta aos 12! Terá a aparência de uma idosa aos 30 e vai se arrepender por não ter curtido sua adolescência! -Sinto muito por não nascer abastada como vocês, mas preciso ajudar minha mãe a nos sustentar, não tenho tempo para perder com excursões idiotas! Sequei as mãos com raiva e me afastei da pia a deixando perplexa. -Espera, Ana! Não foi o que quis dizer. -Mas foi o que disse. – saí do banheiro irritada, como eu pensei mais cedo... um dia muito r**m. (...) -Não importa o quanto é estudiosa, intelectuais ainda tem de participar da educação física. -disse sem erguer os olhos da maldita prancheta de presença, a encarei entediada, ainda estava com dor de barriga. Mas é obvio que isso seria visto como uma desculpa para me livrar da aula. -Ainda não começou a se alongar? -pressionou e me virei irritada, me aproximei de Marina e ela fez uma careta. -Ela ás vezes é uma vaca, não acha? Não, uma vaca seria muito mais compreensiva, se a professora tivesse se preocupado em olhar ao menos um pouco para mim, teria visto que não estou bem, começei a me alongar, iniciamos uma corrida ao redor da quadra para aquecer os músculos. Tentei me manter neutra enquanto Bianca e Helen escolhiam os times para a queimada, como sempre, assisti as garotas sendo escolhidas uma a uma, até que só restasse eu e uma garota asmática chamada Karen, sorri com ironia quando Bianca a escolheu. -Qual exatamente é o seu problema comigo? Perguntei quando Karen se juntou a elas com uma cara nada animada, ela amava a aula de Educação física tanto quanto eu. -Nenhum, apenas a quero longe. -Por quê? -Porque você fede... -fiquei lívida. Ela franziu o nariz com desgosto e todas começaram a rir. -Como um cão rabugento. Isso só terá importância se eu permitir, só terá importância se eu permitir... Queria voar no pescoço daquela merdinha. Olhei ao redor, as risadas, os olhares zombeteiros, vi que a quadra em que os meninos jogavam também estava silenciosa, todos assistindo, minhas unhas perfuraram minhas palma, minha barriga se apertou quase me fazendo gemer em agonia, e como sempre, recuei. -Ei v***a! -Marina chamou, a professora soou o apito indicando o começo do armagedon e Marina soltou um grunhido furioso. - O jogo começou! Me abaixei para me me esquivar de uma bola carregada de ódio arremessada por ela, me virei ainda a tempo de vê-la acertar o rosto bonito de Bianca. Uma risada vingativa me escapuliu, me encolhi imediatamente ao sentir algo quente escorrendo em minhas pernas, fiquei trêmula e me levantei devagar, mantendo as pernas o mais juntas possiveis e quando me dei conta, estava recuando de costas até a arquibancada, felizmente, estavam todos distraídos com o jogo e fiquei ali, parada e sem saber o que fazer, sem saber o que estava acontecendo. -Não entre em pânico. -uma voz tranquilizadora disse ao se aproximar das minhas costas. Me virei e vi Eduardo desamarrando o casaco da cintura, ergui as mãos para empurra-lo, de nada adiantou, ele jogou os braços de gorila á minha frente e me enlaçou com o casaco como se laçasse um bezerro, e o amarrou em minha cintura. -Seu shorts está sujo de sangue. -Vamos, te levo para casa. Estava trémula, talvez fosse o choque da confirmação, e de todas as pessoas, porque logo ele havia visto aquilo? Tudo bem que era melhor do que se Bianca tivesse visto, ela faria daquilo um espetáculo nada agradável para mim, e talvez por isso não protestei quando ele segurou minha mão e me arrastou para fora da quadra, não tive coragem de conferir para ver se ele falava a verdade, não precisava, a sensação da umidade quente entre minhas pernas me inibiu de qualquer protesto ou revide. Foquei meu olhar no chão, desviando apenas para nossas mãos juntas, por que diabos ele estava segurando minha mão como se eu fosse uma criança perdida dos pais? Que inferno, alguém já havia segurado minha mão daquela forma? Não, claro que não, eu jamais permitiria uma coisa daquelas, tentei puxar minha mão e ele a agarrou com mais firmeza, xinguei e levantei a cabeça a tempo de ver um meio sorriso satisfeito em seu rosto ao nos conduzir para os armários, provavelmente em busca de nossas mochilas, meus tênis guincharam em contato com o piso, a mão dele praticamente engolia a minha, mas elas pareciam se encaixar de uma forma estranha, mas não era r**m. Não era suada nem nada do tipo também. Mal havia notado que estavamos fora da escola, não tive nem energia para me questionar como ele sabia a senha de meu armário, antes que me desse conta, chegamos em frente ao seu carro, ele abriu a porta da picape, jogou minha mochila no assoalho e segurou a porta para que eu entrasse, fiquei ali, parada, encarando o banco lustroso de couro preto. -Entre. -não entrei. -c*****o, entre na p***a do carro, Ana Laura! -Não quero sujar. -sussurrei constrangida, minha barriga se contraiu e senti algo escorrer de mim. p***a. Maldita hora, que c*****o de menstruação dos infernos! -f**a-se isso, apenas entre. -hesitei, mas o olhei por um minuto, dividida entre subir na picape e ir embora a pé. – Por favor, deixe-me fazer isso por você. Só dessa vez. Não sei o que me empurrou para dentro, o pedido que parecia ser sincero ou a iminência da saída dos outros alunos. Talvez tenha sido o fato de que eu queria muito um banho e não me sentia nem um pouco disposta a enfrentar o sol do meio-dia naquelas condições. O fato é que eu entrei na porcaria do carro. Ignorei até mesmo o fato de que ele ainda não podia dirigir, sua habilitação havia sido cassada, só queria chegar em casa e me livrar da sujeira e dele. Não questionei quando o carro parou de repente, poucos minutos depois que havíamos saído da escola, não conseguia olhar ao redor, começei a me sentir mole e me concentrei em meus pés, sentada e completamente retraída, não queria que nos vissem juntos, as pessoas iriam comentar, não demorou muito para que ele voltasse, m*l me movi quando uma sacola aterrissou em meu colo, a abri imediatamente e dei de cara com alguns absorventes, vários pacotes e de todos os tipos, com abas, sem abas, cobertura suave e seca, e uma caixa de analgésicos. O encarei, completamente atordoada e mortificada. -A moça da farmácia disse que seria bom experimentar todos os tipos, como é a primeira vez, talvez possa ter alergia a algum deles, segundo ela, o remédio é eficaz contra a cólicas. Meu queixo caiu completamente, que p***a é essa? Ele foi abduzido? Edu havia comprado absorvente para mim, não um, e sim uma porção deles! E ainda comprou remédio. E como ele sabia que era a minha primeira menstruação? Minha cabeça começou a latejar e massageei as têmporas, sentindo meu estômago se inundar de raiva, vergonha e gratidão. -Como sabe? – perguntei atordoada. -Nossas mães esperam por isso há muito tempo. -disse ao girar novamente a chave na ignição, não fiz mais perguntas, não tinha coragem. Não queria me envolver além daquilo, não queria cogitar a possibilidade dele, talvez, não ser tão r**m quanto imaginei, não! A professora estava errada, tinha de estar. Ele era r**m e sabia disso melhor que ninguém. Aquilo não era uma possibilidade, dar espaço a dúvidas seria minha ruína, quando notasse a a******a, ele a usaria para me humilhar e zombar de mim, como sempre fazia. Minutos depois, o carro estacionou na rua de cima, próximo a ladeira da minha casa, agradeci mentalmente por ele fazer isso, não queria que os vizinhos nos vissem, e ele parecia desejar o mesmo, me preparei para sair ao puxar a maçaneta e a alça da mochila, mas ele se esticou e fechou a porta. O olhei em desespero, estava sem energia para brigar. -Espere. -Esperar o quê? -Quero que fique. Apenas um pouco. A vergonha me atingiu como um tapa, ele estava sendo legal, havia me poupado de uma humilhação histórica, me comprou absorventes e remédios, me deu o casaco, me lembrei do que havia dito a professora e mordi o lábio frustrada com o que estava prestes a sair da minha boca. -Sinto muito. – o encarei, ele estava com os braços em cima do volante e a cabeça apoiada neles, me olhando, atento as minhas palavras. – Pelo que disse antes. -Não sente não. -disse ainda me olhando, torci a sacola entre os dedos, ele tinha razão. Aquilo era uma mentira, não sentia merda nenhuma, disse a verdade. -Só está com medo da minha retaliação, você quis dizer aquilo, talvez nem ache r**m que tenha ouvido tudo. Sente-se bem por ter me magoado? -É, talvez. -murmurei contemplativa, por que ele estaria magoado? Tudo bem, sempre tentava atingi-lo, mas magoado? Ele teria de se importar para ficar magoado, não é mesmo? Voltei meu olhar para além da sua janela, para o final do terreno baldio, e além, onde sabia que encontraria minha casa, ela ficava em um sobrado em cima da casa da minha avô. -Por que me odeia? – ele perguntou, em um tom que nunca tinha ouvido antes, e talvez por isso tenha me empenhado em responder com transparência. -Por causa do que significa. -Que seria? -Você é como um Iceberg, apenas a ponta está na superfície, mas a maior parte está submersa, há sempre mais para se ver, se tiver coragem de mergulhar nas profundezas. E estou acostumada a ter menos, a ver menos, sempre foi assim. -abri a porta e saltei da picape, ciente de que ele ainda estava me olhando enquanto eu descia a ladeira de paralelepípedos, minha casa era a quarta do lado esquerdo da rua, me concentrei em pegar as chaves na mochila e nem olhei ao redor para ver se havia algum vizinho enxerido assistindo a tudo, eu era covarde e repulsiva. E gente assim nunca poderia ter mais, ver mais do que os olhos viam, e tampouco iria merecer mais. Mas até mesmo os miseráveis gostavam de companhia.

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