NARRAÇÃO DE BELA...
Às vezes sinto que estou sendo a protagonista de um episódio de C.S.I.
Não apenas eu, mas também Kaito. Ele entrou na propriedade da nossa família usando outra identidade, e agora farei o mesmo. Gosto disso, principalmente da química que alimentamos durante essa “investigação”.
Kaito disse que descobriu muitas coisas. Falou deixando subentendidos, mas, no intervalo, eu o pressionei, e então ele contou tudo em detalhes. Meu semblante caiu ao imaginar meu pai agredindo o pai dele por algo que não fez. Acho que nunca senti tanta raiva de alguém que morreu há quase vinte anos… Josh, o filho da p**a do século.
Papai foi bobo, mas não é mais. Tudo o que viveu o tornou forte, e acredito que será um choque descobrir, um dia, que seu maior vilão não era Dom Louis.
Planejei tudo. Primeiro, liguei para meu pai avisando sobre o desejo de passar o dia na casa da Emma. Afinal, meu primo e ela sabiam dos nossos planos. Foi até divertido falar com ele durante o intervalo das aulas. Ele perguntou do Seo-Jun, perguntou até se ele havia comido no refeitório. Jesus… Papai está encantado com Kaito a ponto de se preocupar como se ele fosse o filho homem que nunca teve. Eu o acalmei e, claro, ele não implicou com o fato de eu ficar algumas horas na casa da minha nova amiga “Emma”.
Quando a aula terminou, senti aquele frio na barriga normal… Afinal, eu iria conhecer os pais do Kaito. E, claro, o inimigo do meu pai.
Dentro do carro, Kaito não mentiu. Ele colocou os óculos de grau em mim, sorriu e beijou meus lábios. Depois, ele mesmo fez tranças nos meus cabelos longos. Era como se o príncipe dos contos de fadas estivesse trançando os cabelos de Rapunzel. Minha roupa não era um problema: calça jeans, botinas, bem agasalhada.
Enquanto dirigia, os olhos de Kaito me analisavam a cada minuto.
— Está confiante?
— Sim… mas um pouco nervosa.
— É normal. Apenas sorria, fale pouco e deixe que eu me vire. Aaah, intercâmbio… De qual país vieste? — perguntou, rindo.
— Não sei… Portugal!
— Sabe falar português? — sorri, sem graça.
— Não.
— Então descarte. Algum lugar que fale inglês.
— Inglaterra! Eu sei fazer o sotaque. Vi muitos filmes — afirmei, sorridente.
Ele apertou minha coxa, causando uma pequena pulsação em minha i********e.
— Perfeito! Inglesa, pais separados… melhor ainda: mortos. Assim ele não procura o histórico a fundo. Se ele desconfiar, consigo uma identidade falsa. Seu pai pediu no primeiro dia, mas nem chegou a checar, apenas confiou. Só tente fingir extrema timidez e fale o mínimo. Eu te ajudo no que for.
Sorri, mas sabia que estava prestes a pisar em um vespeiro. Certamente, se meu pai sonhasse que eu estava prestes a entrar na mansão de seu maior inimigo… não consigo nem imaginar.
Quando chegamos, Kaito me incentivou a caminhar e sussurrou em meu ouvido:
— Seu nome é Brenda.
Toquei na trança, incomodada.
— Brenda? Eu já tive uma professora particular chamada Brenda, e ela era insuportável.
— Só… aceite ser Brenda — murmurou, abrindo a porta.
Entrei com ele. A mansão era diferente, mais clara. Os pisos brilhavam a ponto de refletirem minha imagem. Havia muito mais empregados; meu pai sempre evitou isso por conta do passado, de pessoas o traírem. Logo à frente, vi os pais de Kaito. Dom Louis era maior do que imaginei, com uma mão no bolso e a outra segurando a cintura da japonesa, mãe de Kaito. Forcei um sorriso, sentindo meu coração palpitar.
— Pai, esta é a Brenda. Ela pode confirmar sobre o dia do tornado, foi uma loucura… — levantei os olhos, tentando ser o mais doce possível. Ajustei os óculos e sorri de leve.
— Oi… me desculpe pelo transtorno. Eu queria muito terminar o trabalho e me sentia pressionada pelos professores. Kaito chegou a comentar que achava seguro voltar logo, mas a tempestade cresceu. Então achei mais seguro mantê-lo em meu apartamento. Eu estava acompanhando as notícias, e diziam que todos deveriam estar abrigados.
Respirei aliviada quando Dona Hana sorriu, compreensiva. Em seguida, lançou um olhar afiado para Dom Louis.
— E disse que ele ficaria seguro, amor. Olha o resultado do seu desespero…
Observei o curativo em sua testa. Dom Louis me encarou, agora mais calmo.
— Obrigado por abrigar meu filho. Às vezes, o desespero de um pai nos faz cometer loucuras. Bom… a senhorita gosta de carne vermelha?
— Gosto — respondi, sorrindo sem graça.
Kaito me incentivou a caminhar, e seguimos até a sala de jantar.
Sentamo-nos, e eu estava tão nervosa que m*l conseguia segurar um simples garfo. Dona Hana me olhou sorridente.
— Seus cabelos são lindos, tão compridos.
— Obrigada. Sou muito ciumenta com eles, não gosto de cortar… só aparo as pontas por obrigação.
Percebi Dom Louis sorrir de lado. Kaito parecia confiante naquela reunião à mesa. Ele pigarreou antes de falar:
— Pai, ela comentou que faz intercâmbio. Veio da Inglaterra para melhorar o sotaque americano.
Dom Louis, meu sogro que nem imagina, arqueou as sobrancelhas, animado.
— Que bacana… e seu sotaque já está perfeito.
— Estudo esse sotaque há alguns anos — respondi.
Kaito sorriu, orgulhoso.
— Pai, depois do almoço gostaria de apresentar os cômodos da mansão a ela. Brenda é uma boa amiga.
— Claro, filho. Fique à vontade.
Segurei a vontade de rir, pois, no fundo, sei muito bem o que Kaito quer fazer. Eu pedi algo extremamente proibido e, quando ele olhou em meus olhos, mostrou um pouco do desejo de querer ficar a sós comigo.