NARRAÇÃO DE BELA...
Minha mãe depositou um beijo em minha testa ao perceber o quanto eu estava em choque com toda aquela informação. Ainda assim, retirou-se do quarto para me deixar diluir tudo sozinha.
Fiquei em silêncio por várias horas; ainda durante o banho, continuei pensativa.
À noite, foi a primeira vez em que mantive o silêncio durante o jantar. Discretamente, observava meus pais e também Julie, distraída à mesa. Perguntava-me como eles conseguiram esconder esse segredo por tantos anos. Também me perguntava se Julie estava ciente daquelas informações. Era coisa demais para processar… Então meu pai reparou no meu silêncio.
— Está tudo bem, filha? — Após escutar sua pergunta, minha mãe lançou um olhar, como se pedisse tempo para não expor o que eu havia descoberto.
— Está sim. Eu gostei de passar o dia na casa da Emma. — Sorri.
Do outro lado da mesa, Lucas encarava seu prato arqueando as sobrancelhas. Ele também havia escondido algo naquele dia… O trato era: eu te ajudo, e você me ajuda. Emma falou com os pais que ficaria comigo, e vice-versa. Pelo silêncio de Lucas, ele soube aproveitar o momento a sós com sua namorada. Só dela cooperar, já a tinha como uma amiga. Meu pai pigarreou e sorriu constrangido.
— Quando amanhã for à escola, convide o Seo-Jun para nossa mansão. Eu preciso conversar com ele. Recebi uma carta e não tive vontade de abrir, mas, como ele aconselhou-me… Gostaria.
— Claro, pai. Eu volto com ele. — Sorri.
Porém, o peso do segredo me corroía. Ainda assim, o propósito que eu e Kaito temos é unir confiança e compartilhar tudo o que pudermos descobrir. Foi o que ele fez até agora. Tudo o que descobria, me relatava; contou até mesmo sobre os conselhos dados ao meu pai, para reconhecer qualquer fagulha de erros do passado. O desejo era único e compartilhado: comemorávamos, sorríamos, nos beijávamos. Eu não poderia ser indiferente, não poderia fingir que nada descobri, pois não conseguia. O mesmo caminho de confiança que ele depositou em mim, eu também queria trilhar — uma rua de mão dupla. Era o justo. Principalmente por estar encantada e apaixonada demais pela sua confiança e transparência.
Eu não conseguiria… O coração e o corpo pediam para falar a verdade. Porém, depois de ter certeza de que essa informação não seria vazada agora, eu me sentia extremamente insegura.
Kaito passou confiança, então confiei em meu coração — e nele também.
Quando entramos naquele castelo, bastou escutar um pouco do passado, de como sofrem um luto que não existe. Então, desabafei. O frio cortante, mesmo protegida entre gorros e casacos, era maior do que tudo. Mas ele me ofereceu uma taça de vinho.
Sempre vi meus pais beberem, mas nunca pedi. Uma vez, também vi Julie bebendo sozinha pela madrugada, sentada ao redor da mesa, escondida. Acho que aquilo foi sua única travessura em toda a vida.
Mas ali, naquele momento, parei de pensar em tudo. Eu só aceitava completar tudo o que era proibido.
Ele se aproximou, entregou-me a taça de vinho e sorriu, mesmo com um olhar melancólico.
— Me desculpe, essa informação é demais… Cansei de ver minha mãe seguindo a cultura à risca, o luto. Mandaram cremarem o corpo supostamente da minha tia; até hoje minha mãe tem a urna que acredita ser o corpo dela cremado. Todo ano ela segue à risca a cultura, homenageia-a, oferece alimentos, sempre entre soluços e saudades, com sua roupa escura. Eu nunca senti essa dor, afinal não a conheci… Mas sentia melancolia, tristeza por ver minha mãe em pedaços.
Tomei um gole do vinho ao escutar. Engoli em seco; mesmo doce, sua angústia era claramente como um vírus.
— Iremos encontrá-los. Eu também fiquei em choque com toda informação. Eu tenho um tio por parte de mãe…
— Nossa família é mais ligada do que imaginamos…
— Muito. — Afundei no sofá, pensativa. Dei outro gole e olhei a taça, admirada com o sabor.
— É bom, não é mesmo?
— É sim. — Sorri quando ele sentou ao meu lado.
— Amor, hoje você precisa voltar comigo. Meu pai fez esse pedido; ele recebeu uma carta e não abriu. Quer escutar os seus conselhos. — Kaito sorriu, empolgado.
— É claro que irei! Precisamos disso. — Inclinei-me; ele segurou a respiração quando meu rosto ficou perto demais do seu.
— Quando meu pai descobrir a verdade… Se por acaso ele for duro demais, você vai desistir de mim? — Ele sorriu de lado e tocou meu rosto com uma delicadeza capaz de arrepiar os pelos da minha pele.
— Nunca… — sussurrou. — Eu acordo todos os dias querendo você. Eu me apaixonei, Bela. Nunca senti isso antes. — Ele pegou minha mão e a levou até o seu peito. Eu sentia seu coração bater forte e acelerado. — Sempre quando você fica perto demais, eu sinto isso. E é gostoso…
Ele se inclinou e beijou minha boca como se matasse nossa sede. Suguei sua língua e abracei seu corpo quando ele me deitou lentamente naquele sofá macio. Não consegui dizer que sentia o mesmo, mas acho que não precisava; meu corpo falava por si. Eu tremia, mas não era o frio — era o desejo de permanecer naquele beijo de língua, dentro daquele castelo gelado.
Estremeci ainda mais quando ele me pegou no colo e me carregou, entre beijos, pela mansão. Não havia volta, não mesmo… Soube no momento em que ele entrou no quarto comigo, ofegantes, entre os beijos mais proibidos do país.