O castelo do silêncio

1080 Words
NARRAÇÃO DE KAITO... Entrei em casa orgulhoso, foi o melhor fim de tarde. Pois o receio de não sentir que Bela era bem-vinda em minha vida me desestabilizava internamente. Porém, bastou meus pais a conhecerem. Não diretamente, é claro… Bastou eles reconhecerem o quanto ela é autêntica, espontânea e sincera, quer dizer… Não tanto, assim como eu, escondendo um segredo singelo, porém preciso. Ganhei o dia, meu pai elogiava. Minha mãe até mesmo voltou a falar comigo, dizia que sentia orgulho por me ver andando com alguém que aparenta ser uma boa amiga. Meu pai até mesmo passou a noite entrando em meu quarto, apresentando outros filmes que ele gosta, pedia para indicar cada um a ela quando a encontrasse na escola. Foi engraçado quando ele pediu que não dissesse que ele fosse o responsável pela indicação, e sim eu, pois ele quer muito que eu a conquiste. O que ele não imagina é que já estamos completamente conectados. Independente de gostos não parecidos, famílias inimigas. Apenas nos atraímos como ímãs após o combinado de descobrir toda a verdade do passado de nossa família. Fiquei ansioso. Durante o banho, me recordei dos beijos escondidos, dos toques proibidos, e quanto mais desejamos o escondido, maior o fogo se acendia. Na manhã seguinte, não estava nevando tanto. Foi satisfatório sair da mansão de carro, sem preocupação com a pista cheia de gelo. Ao descer do carro no fundo da escola, fiz isso calculando milimetricamente a nossa fuga após a nossa entrada na escola. Mas quando entrei, estranhei ao vê-la no pátio sozinha. A visão era bonita. Estava nevando, o cair dos flocos de neve deixava Bela ainda mais agraciada. Ela estava bem agasalhada, o gorro e a touca já estavam brancos pelo excesso de flocos de neve. Mas olhava para o chão, suas mãos protegidas pela luva pressionavam o banco. Me aproximei sorridente. — O que faz aqui? Parece uma Branca de Neve… — Sorri. Seu olhar se ergueu, não sorriu. Apenas inspirou antes de falar. — Vamos sair logo daqui…? Precisamos ficar a sós. — Juntei as sobrancelhas, preocupado. Ela transmitia preocupação. Olhei em torno, e os alunos entravam, alguns nos olhavam. Dentre eles, reconheci o olhar do Billy, completamente insatisfeito por ver aquela cena. Tornei o olhar a Bela, que parecia inquieta. — Está tudo bem? — Mais ou menos… Só não quero conversar aqui. — Murmurou, observando os colegas entrarem no prédio da escola. — Venha, minha princesa. — Ela riu ao me escutar lhe dando um novo apelido. Então se levantou. Por um instante, a preocupação se esvaiu. — Princesa? — Perguntou travessa. Retirei o excesso de flocos de neve sobre sua touca preta. — Sim. Princesa da Máfia. Minha princesa. — Ela riu, corou, combinando com a ponta do nariz vermelho. Respirei fundo e a incentivei a prosseguir. Ela sabia o caminho certo por onde matamos aula. Foi fácil sair sem sermos notados. O carro já estava ali, nos aguardando. Enquanto eu dirigia, notei Bela calada demais, preocupada demais… — Aconteceu alguma coisa? Seu pai desconfiou ontem? — Não. Não é isso, mas eu estou em um jogo de sinuca, e não sei se é confiável falar. Recebi informações, segredos de família. Minha mãe pediu silêncio, segredo. Mas… — Está ligada à nossa família? — Perguntei sem tirar os olhos da pista, coração disparado pela curiosidade. — Sim. — Confia em mim? — Perguntei olhando-a de relance. — Eu confio. Mas tenho medo do que pode acontecer. — Não tenha medo. Faremos tudo sem escândalos. Primeiro precisamos conseguir a paz das famílias, e sobre o segredo de família, podemos resolver depois. Eu não vou vazar nada, desde que não seja o momento certo. — Promete? — Prometo. — Afirmei com segurança. Ela respirou fundo apenas. Ficamos em silêncio até chegarmos na propriedade que eu havia escolhido. Bela se calou quando entrei em uma antiga mansão, apesar de ser gasta. Meus pais a mantêm sempre organizada, eles odeiam relaxo em suas propriedades. As paredes de pedra, um formato tão parecido com um castelo, sendo rasgadas pelas folhas de hera-japonesa. O motivo de sempre viver vazia é um só. Minha mãe passou uma boa parte da vida naquela mansão com sua irmã e pai. Seu luto não superado era a prova de não querer colocar os pés onde o lugar fora ocupado anos antes por quem ela amava profundamente. Então era seguro o suficiente para ficar com Bela. Ela entrou com os ombros encolhidos, observando cada canto da mansão. Então se virou para mim, forçou um sorriso, mesmo escondendo a tensão de carregar um segredo obscuro. — Aqui é como um castelo. Tem quantos anos essa propriedade? — Mais de duzentos anos, bem resguardado. Pertence à máfia Yakuza. — Nossa… — Ela suspirou ao tocar nas paredes de pedra. Suspira-va com imaginações distantes. — Aqui tem história. Acho incrível. — Ri. Toquei na parede de pedra. — Mas não frequentava este lugar. Minha mãe nunca mais sentiu vontade de pisar. Seria doloroso ainda mais para ela, cada cômodo… Ela cresceu com a irmã aqui, intercalando do Japão e Estados Unidos. — Após minha explicação melancólica, fiquei encarando as pedras. Eu, sendo filho único, uma lembrança me remeteu ao passado. Ela decidiu que eu não tivesse um irmão, para não sofrer se acaso o perdesse, como ela perdeu sua irmã. Nunca questionei… Sempre respeitei sua dor. Meus pensamentos então foram cessados ao ouvir a voz de Bela. — Kaito… Sua tia nunca fora morta naquela época. Ela vive, fugiu para sobreviver e ser feliz com meu tio. Era um romance proibido, assim como o nosso. — Me virei agora pálido, coração parecia sair pela boca. Estava difícil raciocinar, minha mãe chorava olhando a foto dela… Era muita informação. Bela deixou a bolsa cair no chão, olhar carregado de preocupação. — Minha mãe não sabe onde estão, apenas fugiram para o Brasil. Eu quero os encontrar. — Bela falou quando eu ainda estava em torpor, e mesmo em torpor eu queria o mesmo que ela. Pois quanto mais encontrávamos a verdade, mais eu queria desvendar tudo. Eu precisava… Bela retirou a touca e inspirou, olhando ao redor. — Posso te contar em detalhes enquanto me apresenta os cômodos da mansão. — Caminhei em silêncio até a adega da sala de estar e peguei um vinho. — Você gosta? — Nunca experimentei, mas aceito uma taça. — Sorri, sentindo que aquele dia não seria apenas sobre informações, e sim confiança e entrega.
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