Revelações

1141 Words
NARRAÇÃO DE BELA... Que adrenalina. Eu nunca me senti tão… viva. Meu corpo parecia estar em choque. Ainda estava processando tudo dentro daquele táxi. Bastava fechar os olhos por um segundo para que as lembranças mais deliciosas me consumissem. Sua língua, onde tanto pulsa… Meus dedos mergulhados em seus cabelos, meu quadril se movendo, alimentando aquele prazer proibido. E que proibido… Porém, parei de pensar naquele pecado assim que o táxi parou diante da nossa propriedade. Meu pai estava no quintal com Julie. Ambos puxavam o excesso de neve, limpando a entrada por diversão. Todo inverno eles fazem isso… Já eu, odeio. Meu pai parou e me observou sair do táxi. Entrei tentando esconder a ansiedade. Era estranho: eu não conseguia sustentar o olhar dele por muito tempo. Uma vergonha silenciosa me consumia, pois minha consciência me acusava. Tudo o que ele tentou esconder, tudo o que evitou… Tanto esforço por nada. Meu corpo e meu coração já estavam entregues a Kaito. Suspirei e forcei um sorriso. — Como foi lá…? — Legal. Mas fiquei um pouco entediada e decidi voltar. — Meu pai sorriu, aproximou-se e tocou na trança que eu havia esquecido de desfazer. — Desde quando usa tranças? Você sempre odiou esse penteado. Toquei na trança, sorrindo com timidez. — Ah, pai, foi a tarde das garotas. É normal fazer coisas diferentes… — Olhei para Julie, fugindo do olhar dele. — Julie, já começou suas aulas particulares? — Não. Decidi começar depois do inverno. Não gosto de me perder nos estudos, e nessa época os professores particulares sempre faltam, ficam presos na neve ou avisam que estão resfriados. — Ri. — Bela, depois me passa o número do Seo-Jun. — Meu pai pediu, fazendo meu coração disparar. — Pra quê, pai? — Como “pra quê”? Eu gostei do rapaz, quero conversar com ele. — Tá, depois eu passo. Vou procurar o contato dele. Mas agora preciso descansar. E vocês dois, entrem na mansão, aqui fora está congelando… — resmunguei, entrando e ignorando as risadas dos dois, apaixonados por neve. Quando entrei, encontrei minha mãe na sala. Ela estava distraída, lendo um livro. Olhei ao redor, empolgada: estava a sós com ela. Sentei ao seu lado de um pulo. Ela se assustou, mas logo riu, fechando o livro. — Oi, mãe. — Sorri. Ela estranhou ao notar minha trança. — Oi… — disse, tocando em meu cabelo e analisando as longas madeixas com as sobrancelhas franzidas. — Mãe, me conte direito como a irmã da dona Hana faleceu… e o pai dela? Era a primeira vez que eu perguntava sobre um assunto tão obscuro. Conhecia perfeitamente minha mãe, e o olhar dela naquele momento fez meu sorriso desaparecer. Havia temor. Ela piscou, desviando o olhar. — Bela, isso não é assunto pra você. — Eu sou curiosa, mãe! Na escola ouvi dizerem que foi o meu pai quem a matou, pra ficar com você. Dessa vez, ela me encarou irritada. — Quem inventou esse absurdo?! — Não importa. Todos falam. Eu só queria saber a verdade pela minha família. — Seu pai não matou… — Ela ficou nervosa. O rosto empalideceu, respirou fundo e desviou o olhar, claramente escondendo algo… ou mentindo. — Então o que houve?! — U-um acidente. — É mentira! — confrontei, irritada, levantando-me. — Eu só queria uma mãe amiga e confidente… Eu te conheço, mãe. Toda vez que mente, começa a gaguejar. Deixei clara minha decepção. Ela não disse nada. Subi as escadas furiosa. Eu não queria pensar que meu pai fosse capaz de matar pessoas por desejos próprios. E só de imaginar isso, a raiva crescia ainda mais. Joguei-me na cama e apertei o travesseiro, tentando conter a fúria. Odeio quando mentem pra mim. Minha mãe sabia disso. Não demorou até que abrisse a porta. Ficou um bom tempo em silêncio, apenas me observando. Suspirou e falou: — Você tem razão. Eu não estou sendo sincera com você. Rapidamente me sentei. Em silêncio, ela entrou, fechou a porta e sentou ao meu lado. — Seu pai mandou matar… Meu rosto formigou com aquela revelação. Um nó enorme se formou em minha garganta. Olhei para o chão, lutando contra as lágrimas. A imagem do meu pai como herói se desfazia aos poucos, e aquilo doía como uma faca afiada cravada no peito. Minha mãe desfez minha trança e voltou a falar: — Mas ele mandou matar apenas o pai delas, porque aquele homem era um monstro. Ele as torturava. Não era um pai, apenas um genitor que fez filhas para maltratar e ostentar status. Acredite… Hana e Yumi sofreram demais nas mãos daquele velho maldito. Olhei para minha mãe com os olhos marejados. — Então por que Yumi também foi morta? Não bastava uma vida inteira de sofrimento? Minha mãe respirou fundo, olhando para o teto antes de responder. — O que vou dizer agora precisa ser extremamente confidencial, filha. É um segredo de família. Franzi o cenho. Meu coração acelerou. Medo e ansiedade se misturavam. — O quê? — Eu tenho um irmão. Fiquei estarrecida. Encarava minha mãe sem conseguir piscar. — Você é filha única! A vovó nunca mentiria sobre isso! — Pra ela, eu sou filha única. Mas tenho um irmão por parte de pai. É uma história que me marcou profundamente. Sinto falta dele. O pouco tempo que convivemos deixou marcas. Ele se chama Jack. É um rapaz gentil, com os mesmos olhos que os nossos… lindos. — Onde ele está? E o que isso tem a ver com a família japonesa? Ela soltou meus cabelos e respirou ainda mais fundo. — Porque ele era filho do inimigo da máfia Yakuza. Yumi veio para a mansão, eles se conheceram e se apaixonaram. Uma paixão extremamente proibida. Eu estava disposta a ajudá-los… Mas quando isso foi descoberto, foi necessário matar o Dom da Yakuza. Ele jamais permitiria aquele romance e certamente mataria meu irmão. Ela engoliu em seco antes de continuar: — Yumi e meu irmão fugiram. Tenho certeza de que vivem felizes. Não tenho contato com eles. Dói saber que meu irmão nunca mais me procurou, mas entendo que precisavam desaparecer. A última vez que falei com Yumi por telefone, ela chorava. Sentia falta da irmã, sofria por não poder conhecer o sobrinho que Hana estava esperando. Um herdeiro tão aguardado. Hana disse uma vez que escolheu o nome Kaito em homenagem à irmã. Yumi dizia amar esse nome… forte, ideal para um herdeiro legítimo. Perdi o ar. Era informação demais. Kaito… e tantas dúvidas sobre o passado. Agora tudo fazia sentido. — Lembre-se, Bela. Isso é um segredo que precisa ser enterrado, entendeu? — Ela arqueou uma sobrancelha. Pisquei e abaixei o olhar. Pela primeira vez, me senti dividida. Medo de decepcionar meus pais. Medo de decepcionar Kaito. O resultado foi um enorme embrulho no estômago.
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