NARRAÇÃO DE BELA...
Se já era difícil ver Kaito partir daquela forma naquele tempo, tudo piorou quando o céu ficou ainda mais pesado.
A luz da mansão retornou. Logo, meu pai subiu as escadas sorrindo.
— Consegui arrumar o gerador… — ele disse, mas parou de sorrir ao ver meu rosto úmido. Procurou Kaito com os olhos. — Onde está Seo-Jun?
— Ele disse que não queria incomodar… preferiu ir embora — respondi. Meu pai encarou o tempo lá fora.
— Qual é o problema de vocês?! Ele sai nesse temporal e você ainda deixa?! — Ele parecia me reprovar apenas com o olhar. — Vou atrás dele. Está perigoso demais.
Desceu as escadas correndo. Senti um embrulho no estômago ao vê-lo pegar o sobretudo bem aquecido e partir sem pensar duas vezes.
Sentei-me no degrau da escada, torcendo, implorando entre orações e desejos para que ambos voltassem bem.
Após alguns minutos, minha mãe surgiu e sentou-se ao meu lado, preocupada.
— Filha, por que está chorando? — tocou abaixo dos meus olhos. Só então percebi que chorava sem notar.
— Meu pai foi atrás do Ka… do Seo-Jun. Ele havia ido embora em meio ao temporal.
Minha mãe levantou-se nervosa, pálida. Nosso maior amor retornara ao perigo. Correu pela casa; seu silêncio pesado castigava, como se expressasse sem palavras o medo de vê-lo se ferir.
Olhei para meus dedos trêmulos e os apertei, tentando conter a crise. Fechei os olhos, inspirei fundo…
E, como um bálsamo para minha alma, a porta da mansão se abriu. Meu pai entrou com Kaito. Ele vestia o sobretudo do meu pai.
Levantei-me alarmada. Do topo da escada, meu pai me olhou.
— Mande a cozinheira preparar algo quente. Chá, café ou chocolate quente… tanto faz! Seo-Jun está em choque. Eu o encontrei a tempo. Ele estava tentando salvar… — fez uma pausa, apertando os olhos, como se fosse difícil continuar.
Kaito me fitava em silêncio, mas seus olhos diziam tudo. Apesar de estar coberta pelo sobretudo do meu pai, sua roupa tinha marcas de sangue.
— Ele salvou uma vida. Isso é o que importa! — concluiu, seguindo nervoso até o quarto onde minha mãe estava. Provavelmente queria acalmá-la.
Desci as escadas e me aproximei dele. Apesar do choque, Kaito segurou as lágrimas até meu pai sair do nosso campo de visão. Então desabou.
— Ele estava ferido, Bela… O carro bateu numa árvore. Conseguimos levá-lo ao hospital. Seu pai me ajudou sem saber da verdade. No começo parecia até… irreal, mas depois ficou pesado demais. Meu pai ferido, eu segurando o desespero, fingindo ser um estranho… e o pior: deixá-lo no hospital sozinho.
Respirei fundo ao ouvi-lo e segurei sua mão.
— Quando o tornado passar, mande uma mensagem para sua mãe. Não a deixe nervosa com essa notícia. Ela não pode sair agora, em hipótese alguma.
Em silêncio, Kaito me abraçou. Tentou disfarçar, mas chorou baixinho. Fechei os olhos e o apertei com mais força.
— Você foi corajoso. Seu pai vai ficar bem.
Sorri, afagando seus braços. Ele retribuiu, ainda abatido.
— Seu pai é um grande homem. Enfrentou um tornado para me encontrar, preocupado comigo. E, quando viu meu pai, mesmo sem saber quem ele era, ajudou. Levou-o ao hospital, Bela. Ele foi um herói… Eu estava perdido, quase dentro do tornado, com meu pai ferido.
Sorri com orgulho. Meu peito se encheu — nunca havia sentido tanto orgulho do meu pai.
— Eu sempre disse que ele é o meu herói.
Kaito sorriu, mesmo cansado.
Lembrei-me do pedido do meu pai. Chamei-o com o olhar e seguimos para a cozinha. A cozinheira e seus ajudantes conversavam entre risos enquanto preparavam o jantar.
— Olá.
— Oi, dona Bela — respondeu a cozinheira, sorridente.
— Poderia nos preparar um bom chá de camomila? Esse tornado deixou todos nervosos.
Ela assentiu com gentileza.
Aproveitei a privacidade e o conduzi até o quarto de hóspedes que meu pai havia separado para ele. Abri a porta e sorri.
— Aqui será o seu canto esta noite.
Kaito entrou em silêncio e se aproximou de um retrato sobre a bancada. Sorriu ao ver a foto do meu pai comigo e Julie, ainda crianças.
— Ele só é o “Dom de coração de gelo” para quem não o conhece…
— E você o conheceu… — respondi.
Outro orgulho cresceu em mim. Ver o homem por quem eu me apaixonara agora encantado com meu pai era tudo o que eu queria. Precisava provar que ele nunca fora o monstro que lhe haviam descrito.
Kaito me olhou com uma decisão silenciosa no olhar.
— Agora não vou descansar até que eles façam as pazes. Meu pai também não é um monstro como o seu pensa. É só um homem ferido… no ego, no orgulho, por se sentir menosprezado. Eles precisam reconhecer os erros do passado, mesmo que seja necessária a intervenção dos filhos.
Sorri e o abracei com carinho.
— Eu desejo o mesmo. E também quero entrar na sua mansão com outra identidade…
Kaito riu, ainda machucado, mas sincero.
— Você é a mulher mais desafiadora que já conheci. E confesso… estou adorando isso.
Mordi os lábios. Ele encarou minha boca, desejos crescendo em nós dois. Interrompemos o momento quando meu pai entrou no quarto.
— Seo-Jun, venha. Quero conversar um pouco mais com você…
Ele assentiu, reverenciou-se para mim pedindo licença. Segurei o riso. Meu pai claramente adorava aquele jeito respeitoso, e um carinho silencioso começava a nascer entre eles.