Salvando um inimigo

987 Words
NARRAÇÃO DE KAITO... Meu pai… Ele não podia ter feito o que fez. Não podia. Quando o amor fala mais alto, o medo desaparece. As memórias que meu pai construiu a meu respeito sempre foram as melhores. Eu sempre fui tímido, e ele teve um papel fundamental nisso. No começo, eu não gostava de falar com quem não tinha i********e; era fechado ao extremo, odiava olhar as pessoas nos olhos. E ele sempre foi meu incentivo. Não era o tipo de pai que me obrigava a ser confiante — ele me dava confiança para me tornar confiante. Sempre amigo, sempre preocupado, sempre querendo se certificar de que eu estava bem ou se era bem-vindo pelas pessoas. Sempre preocupado comigo… preocupado demais, a ponto de cometer a maior loucura da sua vida: sair em meio a um aviso de tornado se aproximando. E a loucura também tomou conta de mim. Amar tanto a ponto de dirigir em alta velocidade, em meio ao vendaval. O carro balançava, como se pudesse sair da pista a qualquer momento. O rádio estava ligado, e o locutor alertava sobre o perigo, pedindo que todos permanecessem em abrigos seguros — em hipótese alguma se deveria dirigir pela cidade. As pessoas obedeceram. De fato, as ruas estavam desertas. Liguei para o meu pai, mas o sinal simplesmente desapareceu. O desespero, a culpa, a angústia por me sentir responsável pelo perigo em que ele estava me consumiam. Apertei o volante com força. De longe, vi o tornado se formando: o céu acinzentado, objetos sendo arremessados pelo ar. E, mais à frente, avistei o carro do meu pai. Ele havia saído da pista, amassado contra uma árvore. Prendi a respiração e acelerei o máximo que pude. Era ele ali, tão próximo do tornado. Meus olhos se inundaram; eu só queria salvá-lo. Parei o carro próximo, desci e senti a pressão do vento — quase me carregava, empurrando-me como se quisesse me impedir de chegar até ele. — Pai!!! — gritei com toda a força que consegui. Protegia o rosto enquanto sentia fagulhas de terra e folhas chicotearem minha pele. O frio eu já não sentia mais; meu corpo, em torpor, só lutava para alcançar o carro dele. Quando finalmente cheguei à maçaneta, puxei — estava trancada. Soquei o vidro. Nada. Com dificuldade, fui até outra janela. Para meu alívio, estava quebrada. Mas o alívio durou pouco. Quase como um soluço, bastou vê-lo desacordado, com sangue na testa. Sua camisa social estava encharcada, e perto da costela havia um galho cravado. Pulei para dentro do carro e, mesmo chorando em silêncio, soltei o cinto de segurança. O carro balançava cada vez mais. — Pai, acorda! — destranquei a porta. Meu pai é forte e grande; tive dificuldade para arrastá-lo para fora. Ofegante, caí no chão com ele. O vento parecia me sufocar ainda mais. Observei sua costela e percebi que o galho havia se soltado quando o retirei do carro. Ele sangrava muito. Acho que foi nesse momento que a ficha caiu. Eu pedia para que acordasse, para que se levantasse, mas ainda estava em negação quanto à gravidade do seu estado. Mesmo assim, continuei a arrastá-lo. Eu só precisava alcançar o meu carro. Então tudo piorou. O carro que eu dirigia era pequeno e leve. Eu o havia escolhido propositalmente para não chamar a atenção de Dom Dawson. Agora, o resultado era devastador: o vento o arrancou da pista e o fez capotar em meio à ventania. Abracei meu pai, deitado no chão. Eu não iria largá-lo. Mesmo que morresse junto com ele. Fechei os olhos. O cheiro metálico do sangue invadiu minhas narinas, e eu chorei, pensando em tudo. Quanto mais pensava, mais culpado me sentia. Então ouvi uma caminhonete parar. Levantei o olhar. Era Dom Dawson. Ele desceu nervoso, lutando contra o vento que o empurrava. Mesmo em pânico, engoli o choro. Ele se aproximou com dificuldade. — Seo-Jun! O que…?! — calou-se ao reconhecer meu pai desacordado. Olhei para ele em súplica. — Eu estava indo para casa quando vi esse homem acidentado… chame ajuda… — minhas mãos tremiam enquanto segurava o peito do meu pai. Dom Dawson pareceu hesitar. Quase rosnou antes de pegar meu pai nos braços e colocá-lo sobre os ombros. Senti alívio. Aquele pequeno gesto provava que Bela não mentia: seu pai era um bom homem. Apenas carregava mágoas — assim como o meu. Corremos até a picape. Ele acelerou, fugindo da direção do tornado. Fiquei no banco de trás, segurando meu pai, fingindo que ele era apenas um estranho. Meu corpo paralisou quando ouvi meu pai gemer baixo, ainda desacordado. Dom Dawson olhava constantemente pelo retrovisor. — O que esse i****a estava fazendo sozinho em meio a um tornado?! Dei de ombros, embora meu coração soubesse exatamente o motivo. Não demorou para chegarmos ao hospital. Dom Dawson carregou meu pai novamente para dentro. Eu fui atrás, com o corpo sujo do sangue dele. Dom Dawson disse o nome do meu pai aos médicos e pediu que se apressassem. Sozinhos no corredor, meu coração implorava para ficar. Dom Dawson me fitou, o rosto manchado de sangue. — O que deu na sua cabeça?! Todos estão mandando as pessoas ficarem abrigadas! — Eu pensei que daria tempo de ir embora… não queria incomodar, Sr. Dawson. — abaixei a cabeça. Meus olhos se encheram de lágrimas, mas era apenas preocupação com meu pai. — Por Deus… — ele resmungou, passando as mãos pelos cabelos. Pouco depois, o médico apareceu no corredor. — Ele está instável, Sr. Dawson. Fechei os olhos e respirei aliviado. Estava fora de perigo. — Ótimo. Quando ele acordar, não diga que fui eu quem o trouxe. Vamos, Seo-Jun. A mansão fica perto daqui. Dom Dawson seguiu pelo corredor a passos pesados. Olhei para trás, com o coração apertado. Em pensamento, sussurrei: Eu vou voltar logo, pai. Eu só precisava obedecer ao Sr. Dawson. Caso contrário, a desconfiança viria.
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