NARRAÇÃO DE BELA...
O beijo que eu tanto desejei finalmente aconteceu. Sem pressão, sem superficialidade. Era puro e verdadeiro. Ficamos alguns minutos presos entre os livros, incapazes de parar de nos beijar. O som suave dos estalos fazia minha pele se arrepiar; lembrava-me dos filmes de romance intenso. Meu coração já estava acelerado demais.
Meus dedos deslizaram por seu ombro e peito quando Kaito moveu meu corpo, colocando-me contra a parede. Pressionou nossos corpos entre beijos ofegantes. Prendi a respiração ao sentir o volume em sua calça roçar em mim. Meu corpo pulsava como nunca antes — nunca havia sentido tanto fogo e desejo.
Então ouvimos a porta da biblioteca se abrir.
Nos afastamos ofegantes. Kaito disfarçou, agachando-se e fingindo procurar algum livro na prateleira inferior. Eu me virei para outra fileira. Minhas mãos tremiam. Achei que não poderia piorar… até ouvir a voz do meu pai.
— Bela…?
Respirei fundo. Kaito me fitou, incentivando-me a responder. Ajeitei a blusa e saí da fileira de livros.
Ali estava meu pai, parado. Pelo olhar, não desconfiava de nada. As mãos nos bolsos, uma calma que chegava a assustar.
— Onde está Seo-Jun?
— Estamos procurando livros relacionados à história — respondi, sorrindo, enquanto colocava uma mecha de cabelo atrás da orelha. Lutava contra mim mesma para esconder qualquer nervosismo.
Kaito logo surgiu atrás de mim. Sorriu, ajeitando os óculos de grau.
— Boa tarde, Dom Dawson.
— Boa tarde, Seo-Jun.
Kaito demorou a se reverenciar, mas o fez assim que percebeu. Provavelmente era nervosismo.
— Sara me contou sobre o seu aviso. Sou muito grato por isso… Não costumo acompanhar notícias do tempo. Saí focado para a reunião e, quando Sara me avisou, eu já estava na estrada. O tempo fechou rápido demais, ventava muito, o carro balançava enquanto eu dirigia… Eu estava seguindo direto para o tornado, a estrada estava deserta e não desconfiei. Obrigado mesmo.
Kaito sorriu, tentando esconder a tensão por trás dos óculos.
— Sou meio nerd… Gosto de me manter bem informado.
Meu pai se aproximou dele com um sorriso no rosto e tocou seu ombro. Eu queria desaparecer. Ainda sentia o gosto do beijo de Kaito — sua língua tinha sabor de bala de melancia.
— Fico feliz que Bela tenha encontrado um bom amigo…
— Pai, precisamos fazer o trabalho — pedi, nervosa.
Sem tirar os olhos dele, meu pai respondeu:
— O trabalho pode esperar… Venha, Seo-Jun. Pedi para trazerem algumas peças de roupa. Gosta de roupa social?
Ele perguntou enquanto o conduzia, ainda com a mão em seu ombro. Kaito apenas confirmou, deixando-se levar.
Quando fiquei sozinha na biblioteca, sentei no chão, aliviada. Um riso escapou dos meus lábios. Toquei-os, querendo mais beijos… querendo mais do que beijos.
Então me assustei quando o vidro da janela da biblioteca se quebrou. Os cacos tilintaram ao cair no chão. O vento estava muito forte. O céu, n***o e ameaçador. Talvez fosse um aviso da própria natureza: filhos de inimigos haviam se beijado. Um prenúncio de um tornado entre as famílias.
Corri até a janela para observar melhor. Nunca tinha presenciado algo daquela proporção.
As árvores se sacudiam violentamente, como se fossem ser arrancadas pela raiz. Folhas, papéis e pequenos objetos rodopiavam no ar. O vento era extremamente gelado.
Encolhi os ombros e saí apressada. Procurei minha mãe e a encontrei no quarto de Julie. Elas conversavam enquanto organizavam o armário de perfumes.
— Mãe, o tempo está piorando. Todos estão na mansão?!
Ela olhou para a janela, nervosa.
— Estão todos seguros. Stefan e Evelyn estão no quarto. Seu pai chegou a tempo… Agora é só manter tudo trancado.
— A janela da biblioteca se quebrou — avisei.
Julie permaneceu em silêncio, mas me observava atentamente. Ela me conhece bem demais; sabe quando estou escondendo algo.
— Depois peço para arrumarem.
Nos calamos quando a luz da mansão piscou e, por fim, tudo ficou escuro. Odeio o escuro. Pegamos os celulares e ligamos as lanternas. Caminhei pelo corredor, tocando a parede.
— Pai…? — chamei, amedrontada. A essa altura, eu já nem pensava mais no beijo.
Respirei aliviada quando ele surgiu no corredor, ao lado de Kaito.
— Filha, fique em seu quarto. Vou verificar o que aconteceu. O gerador de energia é novo…
Olhei para Kaito. Ele parecia mais preocupado do que o normal. Meu pai passou por mim, mas parou antes de descer as escadas.
— Com esse tempo… Seo-Jun ficará na mansão esta noite. Mandem preparar o quarto de hóspedes.
Ele disse, descendo as escadas.
Ficamos apenas nós dois ali, parados. Kaito passou a mão pela testa, angustiado. Aproximei-me.
— O que foi?
— Meu pai… Mandou mensagem dizendo que saiu de casa à minha procura. Pediu o endereço de onde estou. Respondi que não deveria ter saído, mas ele não responde mais, Bela. Meu pai…
Seus olhos ficaram úmidos. Abracei-o forte.
— Vai ficar tudo bem. Ele vai mandar mensagem. Pense positivo.
Afastei-me um pouco, mas segurei suas mãos. Elas tremiam muito.
— Eu amo meu pai, Bela… — ele sussurrou.
Meu coração apertou. Olhei para a escada.
— Acho que ainda dá tempo de encontrá-lo. Vamos! Eu vou com você!
Tentei descer, mas Kaito segurou minha mão, impedindo-me.
— Não. Não vou arriscar sua vida. Eu não sou louco. Vou atrás do meu pai. Ele pode estar ferido, eu não sei… Mas você precisa ficar. Diga ao seu pai que preferi ir embora antes que o tempo piorasse.
Meus olhos se encheram de lágrimas só de imaginar ele lá fora.
— Não!
Puxei sua mão. Ele olhou para trás — não havia ninguém além do corredor escuro. Deu-me um selinho e soltou minha mão.
— Não tenho tempo, Bela. É o meu pai lá fora…
Ele desceu as escadas correndo, abriu a porta, e a força do vento escancarou as duas portas. Kaito enfrentou a ventania e saiu.
Corri até a janela, segurando o choro. Vi quando ele correu até o carro, que estava na mansão desde o dia anterior, entrou e deu partida.
Chorei, angustiada. O vento gelado invadia a mansão à ponto de apagar a lareira, as luzes piscavam e a dor, insegurança crescia cada vez mais...