NARRAÇÃO DE BELA...
Deu certo! E sabe de uma coisa…? Eu amei! Amei passar o dia com Kaito, depois que meu pai saiu com ele.
Julie entrou no escritório e ponderou antes de falar.
— Bela… ele é mesmo um coreano?
Respirei fundo, fui até a porta e a fechei com cuidado. Olhei para ela, segurando o riso.
— Não.
— Não me diga que ele é o herdeiro da Yakuza, pelo amor de Deus… — Seus olhos carregavam pura angústia. Meu sorriso sumiu.
— Ele é a melhor pessoa que eu conheço. Me defendeu quando fizeram bullying comigo.
— Você sofreu bullying?! — Julie perguntou nervosa, aproximando-se com os braços cruzados.
— Sofri, mas foi coisa rápida! Kaito colocou todos em seu devido lugar. E… bom, ele quer o mesmo que eu: entender o motivo dessa rixa. Ele me contou que nossa mãe já foi amiga da mãe dele! Tem noção disso?!
Julie franziu as sobrancelhas, pensativa.
— Acho que tenho uma vaga lembrança da mamãe conversando com uma japonesa… Eu era muito nova.
— Viu?! Ele não mente! — sorri, empolgada.
— Mas você mente. Bela, se o nosso pai descobrir a verdade, vai ficar completamente decepcionado com você.
— Ou não. Talvez ele até fique agradecido por ter tido a oportunidade de conhecer o Kaito e perceber o quanto ele é gente fina… Mas…
Olhei para os lados, constrangida.
— Eu sinto coisas estranhas. O perfume dele me leva a boas lembranças, ele toca piano perfeitamente, e apesar da voz grave, fala tão manso… Mesmo usando aquela roupa estranha. Toda vez que nossos olhos se encontram, sinto um frio enorme na barriga. Minhas pernas parecem perder a força.
Desabafei. Julie riu, entortando o cenho.
— Desculpa, mas ele é um nerd que usa suéter de lã, Bela. É estranho…
— Você diz isso porque não vê como ele é no dia a dia. Ele se vestiu assim pra disfarçar a identidade.
— Eu te garanto: papai vai matar vocês dois. Se ele imaginar que você anda sentindo borboletas no estômago pelo filho do Dom Louis, ele infarta.
Franzi os lábios e dei de ombros.
— A gente não manda no coração… Eu nunca senti isso antes e estou amando sentir. É gostoso. Já pensou se um dia eu receber um beijo dele…?
Toquei meus lábios, com o coração acelerado. Ri, boba. Julie também riu.
— Eu não queria estar na sua pele… Bom, vim falar do meu dia. A professora particular não poderá mais me dar aulas na mansão. Não quero fazer faculdade fora, então minha mãe contratou um novo professor. Espero que seja bom. Vou sentir falta da antiga.
— E ele é bonitão…? — perguntei, eufórica.
Julie apenas riu ao abrir a porta do escritório. Antes de sair, olhou para mim.
— Você só pensa em garotos… Meu Deus!
Ela corou e saiu.
Nunca entendi essa falta de interesse que ela tem em namorar.
Saí do escritório e fui para o quarto. As mensagens no meu celular fizeram meu coração disparar.
Kaito quer cuidar de mim. Meu pai pediu isso a ele. Será que inclui sentar em seu colo? Ou mais abraços?
Eu ia responder a mensagem, mas bateram na porta. Escondi o celular quando meu pai entrou. Ele me analisou e sorriu.
— Posso entrar?
Assenti com a cabeça. A sensação era confusa: culpa conforme ele se aproximava, mas também adrenalina correndo pelas veias. Eu estava gostando do proibido, de esconder.
Ele se sentou ao meu lado e suspirou.
— É um bom rapaz…
Arqueei as sobrancelhas e forcei um sorriso.
— Ele é gentil.
— Mas quero saber mais a fundo sobre a família dele. Quem sabe eu não ajudo?
— Não precisa, pai.
Peguei o travesseiro e o coloquei sobre as pernas, tentando esconder o nervosismo.
— Ele é discreto e não gosta de ajuda financeira. Eles têm uma cultura muito rígida em relação a isso. Só conseguiu estudar aqui porque foi um presente da madrinha.
— Entendo… De qualquer forma, ajude-o. Principalmente a se vestir melhor. O que esse jovem deve passar…
Meu pai franziu os lábios.
— Deve sofrer muito bullying…
— Ô… pra caramba, pai.
Por um momento, ele me analisou.
— Você está estranha…
— Eu?!
Juntei as sobrancelhas, nervosa. Ri, um riso claramente forçado.
— Só estou cansada. Esse trabalho me exauriu, e amanhã temos mais a fazer.
— Certo. Venha comer alguma coisa e depois vá descansar.
Assim terminou aquela noite. Dei atenção a todos e, quando finalmente voltei ao quarto, consegui respondê-lo. Mordi os lábios ao pedir que cuidasse de mim. Pena que ele não entende que quero cuidados de outra forma. Não quero só sua amizade. Quero experimentar seu beijo.
Apertei o celular contra o peito, ansiando por isso.
Na manhã seguinte, acordei ansiosa, como de costume. Me arrumei correndo e desci as escadas sorrindo, mas parei ao ver meu pai parado na entrada da mansão, usando seu terno impecável.
— Eu te levo à escola hoje. Lucas acordou resfriado, com febre. Também preciso ir à diretoria; ficaram pendentes alguns documentos da sua matrícula.
Notei a pasta em sua mão. Meu coração disparou em desespero. Apressei-me e a peguei.
— Tá! Eu levo isso pra diretoria. Pode me deixar no portão da escola.
— Que desespero é esse, Bela? Parece até que sente vergonha de mim.
— Pai, por Deus! Eu sou adolescente! E adolescentes não gostam de ser cercados pelos pais perto de outros adolescentes. É tipo…
Franzi a testa.
— Sei lá, uma seita adolescente.
Meu pai riu alto.
— Preciso de muita paciência e sabedoria pra lidar com você, filha… Vamos logo.
Ele dirigiu, colocou uma música que costumava tocar quando eu era criança. Antes, eu cantava gritando com ele. Agora? Eu estava nervosa demais pra cantar. Segurava a pasta com força, só pra garantir que ele não a tirasse de mim ao entrar na escola.
Finalmente paramos. Mas o desespero aumentou quando vi Kaito entrando no colégio. Estiloso. Bonito demais. Lindo demais.
Fechei os olhos por um segundo, sentindo falta de ar, até ouvir meu pai rir.
— Seo-Jun é esperto. Seguiu meus conselhos… Pedi que nunca mais usasse aquele suéter.
Soltei o ar que prendia e senti até uma leve tontura.
— Seu conselho foi ótimo… Tchau, pai!
Dei um beijo rápido em sua bochecha e praticamente fugi antes que ele chamasse Seo-Jun.
Ao entrar na escola, meu estômago embrulhou. Quanto mais escondo, maior a mentira cresce — e isso está me consumindo. Ele não pode saber da verdade agora. Não agora. Não até Kaito descobrir o que aconteceu no passado.
Acelerei o passo, alcancei-o, segurei seu braço e o puxei para uma sala vazia. Ele me olhou confuso.
— Por que você está nervosa?
— Meu pai te viu entrando na escola…
Ele suspirou e encostou as costas na parede. Em silêncio, nos encaramos, sentindo o peso da mentira.